Ao tentar manipular os dados da Covid-19, abrindo uma crise recente em meio à pandemia, a atual gestão do Ministério da Saúde defendeu que as mortes deveriam ser divulgadas pela data da ocorrência, e não mais pelo dia em que foram notificadas ao governo federal — o que ocorre quando há a confirmação da Covid-19, procedimento que pode levar semanas após o óbito. O gráfico nesse formato, no entanto, revela que a doença chegou muito mais letal ao país do que se sabia, segundo cruzamento de dados oficiais feito pela reportagem.
A nova forma de apresentar os números mostra que em março houve 666 mortes pelo novo coronavírus no Brasil, enquanto a quantidade divulgada no período, a partir dos óbitos que eram esclarecidos, foi de 201 vítimas. O dado real, portanto, é mais que o triplo do que estava contabilizado até então para o mês da chegada da doença no país.
Em abril, a discrepância se repete. As mortes confirmadas diariamente pela pasta, com base nas notificações recebidas, somaram 5.711, mas o número totaliza mais que o dobro: 11.544 óbitos ocorreram no período.
No mês de maio, o número de mortes por data de ocorrência, de 24.741, também superou a quantidade noticiada pela pasta, de 23.402, a partir das notificações dos estados, embora os dados tenham ficado mais próximos.
Essa diferença é explicada devido ao atraso na investigação de parcela significativa de mortes, principalmente no início da doença no Brasil, quando a falta de insumos para testes e de laboratórios qualificados era maior. Assim, muitos óbitos ocorridos nos primeiros meses da pandemia no país só foram esclarecidos em período posterior, quando houve a notificação ao Ministério da Saúde.
Somente após ser notificado, o Ministério da Saúde inclui o dado no boletim diário como "novas mortes". Essa metodologia foi adotada desde o início da pandemia da Covid-19 no país, ainda na gestão do ex-ministro Luiz Henrique Mandetta, para dar transparência sobre o avanço da doença no país.
Mas a gestão atual, liderada pelo general Eduardo Pazuello, interino no cargo de ministro, defende que a forma de divulgar dá a falsa impressão de que 100% das mortes incluídas no boletim diário ocorreram nas últimas 24 horas — e não que foram notificadas nesse período, embora parte delas tenha ocorrido antes.
Se a ideia era mostrar um gráfico menos crítico, o objetivo não será concretizado, aponta José David Urbaez, consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia. Segundo o infectologista, não há sinal de recuo dos números globais, mesmo olhando pela data da ocorrência, desde que se aguarde o tempo necessário para a investigação dos óbitos ser concluída.
"Achei ótimo quando o ministério propôs divulgar pela data de ocorrência porque irá mostrar que os números são ainda maiores, conforme sempre apontamos ao tratar da dificuldade de se notificar em tempo real", afirma o infectologista.
De acordo com Urbaez, a investigação de um óbito pode levar até três semanas ou mais. Dessa forma, mortes em apuração atualmente, ou que foram notificadas nos últimos dias, ocorreram provavelmente em maio ou ao longo de junho, o que irá engrossar os dados de períodos anteriores no gráfico que considera a data do óbito.
"Há saturação da capacidade de laboratórios públicos para fazer testes, falta de equipes de vigilância. Com o vírus se interiorizando agora, essa conclusão dos óbitos será ainda mais lenta, em função da falta de estrutura nessas regiões", completa o médico.
Os dados oficiais do Ministério da Saúde mostram que o dia com maior número de ocorrência de óbitos no país foi em 14 de maio, quando 894 pessoas perderam a vida pela Covid-19. Há ainda 3.844 mortes em investigação, segundo boletim do Ministério da Saúde desta sexta-feira.
Já as mortes por data de notificação tiveram seu maior pico 20 dias depois, em 4 de junho, quando 1.473 novos óbitos foram incluídos no boletim do Ministério da Saúde em 24 horas, a partir da notificação dos estados.
O pico menor, se considerada a data da ocorrência dos óbitos, não foi suficiente para levar o Ministério da Saúde a adotar tal critério como prioritário na sistematização dos dados. A pasta recuou após a repercussão negativa das tentativas de mudanças na forma de divulgação. Também não fez mais uma defesa enfática da alteração, que mostra-se ineficaz em desenhar uma curva menor nos meses já fechados.
O levantamento da reportagem aponta que a quantidade de mortes foi maior pelo critério da data de ocorrência, como queria o governo, em todos os dias dos meses de março e abril.
Em maio, 19 dias tiveram número de mortes pela data de ocorrência maior do que o registro e anunciado pelo critério da notificação. Em junho, o fenômeno ocorreu apenas em dois dias, mas os dados são preliminares.
A própria pasta alertou, ao mostrar o gráfico de mortes por data em que ocorreram, na última quarta-feira, que as informações de junho ainda serão atualizadas — assim que óbitos hoje em processo de esclarecimento forem confirmados para Covid-19 e notificados.
"No fim do slide tem um período que precisamos que os dados sejam totalmente atualizados", afirmou o secretário de Vigilância em Saúde da pasta, Arnaldo Correia, referindo-se ao número de mortes de 7 de junho em diante.
O balanço divulgado pelo Ministério da Saúde com as mortes por data de ocorrência somaram 47.176 até 20 de junho, último dia do levantamento, e tem como fonte o Sistema de Informação de Vigilância da Gripe (Sivep-Gripe). Os óbitos por data de notificação, no mesmo período, chegam a 49.976, e são contabilizados no portal da pasta a partir de informações passadas pelas secretarias estaduais de Saúde.
O Ministério da Saúde foi procurado para esclarecer a diferença entre os números e comentar a constatação de mais mortes no início da pandemia no Brasil a partir dos dados divulgados. A pasta não respondeu até o fechamento da edição. Em outras ocasiões, o órgão reconheceu que há uma subnotificação nos dados do Sivep-Gripe, de onde foram extraídos os óbitos por data da ocorrência.
POLÊMICACom o avanço da pandemia e os números cada vez maiores, em maio o Ministério da Saúde usou artifícios para tentar minimizar o impacto do boletim diário. Passou a atrasar a divulgação dos dados, que saíam no início da noite, para depois do fim dos principais telejornais do país.
Ao ser questionado na ocasião sobre o atraso na liberação dos dados, sem que os jornalistas tenham mencionado o nome de qualquer órgão de imprensa específico, o presidente Jair Bolsonaro disse: "Acabou matéria do Jornal Nacional". A página com os números da Covid-19 chegou a ser tirada do ar pelo governo.
A pressão, no entanto, levou o Ministério a voltar atrás. Veículos de comunicação decidiram fazer um consórcio para buscarem por conta própria os dados junto às secretarias estaduais de Saúde.
O painel do ministério com os números da Covid-19 voltou ao ar, com novos recursos. A divulgação diária do boletim foi retomada para o horário habitual, contendo os números de novos casos e mortes notificadas nas últimas 24 horas.