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A dor da despedida: o luto em tempos de pandemia

Por @Paula Maria Prado |
| Tempo de leitura: 5 min

O telefone virou inimigo. Certas notícias não podem ser dadas por ele, reza o protocolo. Mas seu toque é o prenúncio de que algo errado aconteceu. As peças escolhidas a dedo para serem usadas pelo ente querido na despedida de nada servem: não há troca de roupa em caso de morte por Covid-19. A determinação é de que o corpo seja colocado imediatamente em um saco impermeável e no caixão lacrado. Após a apressada cerimônia, é hora de enterrar ou cremar.

Do pó ao pó, cita Gênesis. Aos vivos restam as boas memórias, o desejo por um abraço apertado, a dor e, muitas vezes, uma sensação estranha de não despedida. É que o luto nesse período de pandemia, para muitas pessoas, é um dos mais difíceis de superar. A ausência do ritual dificulta o reconhecimento da perda. "Sem a visão do corpo morto, maior será a frequência de fantasias de que a pessoa não morreu, que ela vai voltar, que aquele corpo não era do parente ou amigo", afirmou Cloves Amorim, psicólogo e professor na PUCPR (Pontifícia Universidade Católica do Paraná).

"Então, a primeira atividade para a elaboração do luto é o reconhecimento da perda, em especial porque não existe registro de morte para o inconsciente. Portanto, as contingências que produzem angústia, também podem piorar ou dificultar a vivência do luto", ressaltou.

Socialmente, todas as etapas até o enterro ou cremação são importantes. "É o momento de encontrar as pessoas que você ama, receber um abraço. É a hora que fica evidente também o quanto aquela pessoa que morreu era querida. Há as recordações de histórias vividas... Tudo isso ajuda na elaboração do luto", disse Tom Almeida, fundador do inFinito, movimento que tem o objetivo de criar uma relação "mais amigável" com a morte e fazer dela uma importante peça no desenvolvimento humano.

"No entanto, o que vivemos agora é muito complexo e desafiador, comparável a uma morte violenta por acidente ou catástrofe porque tem sido roubado o direito de participar do ritual. Então pode ficar a sensação de que não pude me despedir adequadamente", continuou Almeida.

Estima-se que cada morte afete entre quatro e 11 pessoas diretamente. No Brasil, até o fechamento desta reportagem (sexta-feira, dia 26, às 16h) a Covid-19 havia feito 54.971 vítimas. Ou seja, há entre 220 mil e 605 mil pessoas enlutadas, muitas precisando de suporte.

"O luto pela Covid-19 é traumático uma vez que há também a questão da imprevisibilidade. Antes do ritual fúnebre, há uma história de cuidado com o ente que está morrendo. E, no caso da pandemia, familiares e amigos ficam reféns das comunicações institucionais, uma vez que não podem acompanhar seus parentes durante a internação. E, nem sempre o hospital dá conta de tantos avisos", afirmou Erika Pallottino, uma das fundadoras do instituto Entrelaços e idealizadora do projeto "Cuidado ao Luto pela Covid -19", que reúne orientações e atendimento voluntário oferecendo cuidado para pessoas que perderam amigos e familiares.

ADEUS.

A terapeuta floral Zuma Pavitra, 68 anos, de São José dos Campos, viveu na pele a experiência. Seu pai morreu no dia 19 de março depois de seis dias no hospital e, na sequência foi a vez de seu cunhado, que iria fazer 71 anos. "Meu cunhado ficou 28 dias no hospital, sendo 20 dias na UTI (Unidade de Terapia Intensiva). Não se recuperou", contou ela a OVALE.

Zuma, que viu seu pai pela última vez no dia 12 de março, no entanto, conta ter conseguido viver o luto em plenitude. "É claro que fiquei triste. Mas encaro a morte como parte do processo humano", afirmou. "Por outro lado, como terapeuta, vejo que muita gente não está bem com a situação. Tenho recebido muitas pessoas em busca de apoio emocional".

Profissionais que trabalham o luto vêem claramente a existência de algumas fases, mas elas se misturam e dependem da estrutura emocional de cada pessoa que está vivendo aquele momento. "O luto é um processo natural. A gente sofre por quem a gente ama; por quem foi importante na vida da gente; por alguém que tem uma presença muito significativa na nossa vida. O luto é uma resposta ao rompimento desse vínculo", afirmou a psicóloga Paula Magalhães Marques, coordenadora do Serviço de Psicologia Hospitalar e membro da equipe de Cuidados Paliativos do Hospital viVale.

"Quando você não tem a possibilidade de se despedir do seu ente querido, de uma pessoa que você ama muito, futuramente pode trazer um luto que chamamos de 'luto complicado'. É importante trabalhar a família de um ponto de vista emocional e sugerir um acompanhamento posterior para esse processo", continuou ela.

APOIO.

Para Cloves Amorim, é preciso deixar claro que o luto não é uma doença, embora o novo DSM - V (Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), de 2013, tenha entre os sofrimentos psíquicos o processo do luto. "Isso nos permite acatar que algumas pessoas enlutadas poderão evoluir para o luto crônico, adiado ou ainda inibido", alertou o psicólogo. "O luto demanda espaços protegidos adequados para que os enlutados possam manifestar a sua dor, receber consolo, falar sobre o falecido, realizar homenagens", disse.

Assim, para mitigar os efeitos da falta de um "adeus", tradições são reinventadas. Reuniões presenciais passam a ser on-line. "Percebendo a importância desses rituais, sugerimos que tais cerimônias passem a ser virtuais como forma de gerar conexão nesse momento. Assim, criamos um guia para ajudar as pessoas a organizarem as despedidas", informou Almeida. (veja mais na próxima página).

No entanto, não se pode dizer que há uma superação do luto. Nesse caso, segundo especialistas, ocorre uma adaptação da condição. "Nós trabalhamos para que ocorra uma assimilação da perda de forma menos dramática. Porque o luto agudo pode trazer impactos secundários e terciários. Por exemplo, um abuso de bebidas alcoólicas, um descuido de si mesmo. E isso pode arrastar por muito tempo. Estima-se que sofreremos impactos desse período nos próximos 15 anos. Agimos então para reduzir o dano na vida emocional das pessoas", alertou Erika.

Especialistas são unânimes em informar: o mais importante é que ninguém passe por esse momento sozinho. Envie mensagens, cartas, telefonemas, faça videochamadas, mas não deixe de comunicar para outras pessoas o que está sentindo. OVALE se solidariza com todos os que perderam seus entes queridos.

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