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Intelectual austríaco Walter Scheidel lança livro sobre a história da desigualdade

Por Agência O Globo |
| Tempo de leitura: 5 min
historiador Walter Sheidel
historiador Walter Sheidel

Há quem diga que, depois da Covid-19, a humanidade será, digamos, mais humana. A crise acarretada pela pandemia, afinal, abriria a mente e o coração de todos, diminuindo as tensões e a desigualdade no planeta. Sonhar não custa nada, mas essa mudança não vai ocorrer, afirma o historiador Walter Sheidel, da Universidade Stanford (EUA). Autor de "Violência e a história da desigualdade: Da Idade da Pedra ao Século 21", recém-lançado em formato e-book pela Zahar, o austríaco acredita que pensar uma sociedade mais igualitária pós-coronavírus é apenas uma ilusão.

No seu livro você fala dos "quatro cavaleiros do nivelamento" ao longo da História: o colapso dos estados, grandes guerras, revoluções comunistas e... pandemias. O que esperar no mundo pós-Covid-19?

Mesmo no pior cenário, o Covid-19 causará mortalidade muito menor do que as grandes pandemias do passado. Não será como na Peste Negra, quando a mão de obra ficou escassa e a renda aumentou. A atual pandemia aumentará, em vez de reduzir, a desigualdade, pelo menos no curto prazo. Enquanto as carteiras de investimentos já começaram a se recuperar, os trabalhadores mais jovens e com salários mais baixos sofreram mais do que outros, e as minorias desfavorecidas foram particularmente afetadas.

E no Brasil? Podemos ser otimistas?

Infelizmente não. No início dos anos 2000, o Brasil experimentou um declínio da desigualdade econômica provocada por uma combinação de fatores, desde mudanças políticas e investimentos em educação até a demanda por certos produtos de exportação. Essa tendência, também observada em outros países da América Latina, paralisou na década de 2010. A pandemia agravou esses problemas e torna altamente improvável que o processo de redução da desigualdade seja retomado em breve.

Os outros "três cavaleiros" podem atacar também?

Não da mesma maneira que no passado. As guerras futuras, se ocorrerem, serão mais high-tech. Atualmente não há movimentos revolucionários plausíveis e, na média, os estados são muito mais estáveis do que já foram. No entanto, é possível que, a longo prazo, as mudanças climáticas possam reativar uma ou mais dessas forças niveladoras — causando guerras, colapsos sociais e mais pandemias.

Você escreve que pandemias futuras devem se restringir a países em desenvolvimento. Não foi bem o que aconteceu. Onde esses países erraram?

É verdade que os países de alta renda foram fortemente afetados. Mas, no geral, o impacto mais sério tem sido econômico. Países com economias globalizadas são muito vulneráveis ao impacto agregado dos bloqueios e do isolamento social. Mesmo assim, não está claro o impacto nos países de baixa renda. A longo prazo, eles podem sofrer tanto quanto os ricos, se não mais, tanto em relação à mortalidade quanto à economia.

A desigualdade é inevitável?

As disparidades de renda e riqueza provaram ser altamente resistentes ao longo do tempo, mesmo quando outras formas de desigualdade foram reduzidas. Pense nas desigualdades enraizadas em gênero, orientação sexual, crença religiosa e raça e etnia. Todas elas ainda existem, mas geralmente tendem a ser menos difundidas do que costumavam ser, enquanto a desigualdade econômica tem aumentado ao redor do mundo.

Desenvolvimento econômico pode reduzir a desigualdade? Alguma política pública pode diminuí-la?

Após a Segunda Guerra, acreditava-se que o desenvolvimento econômico acabaria por reduzir a desigualdade econômica. Na verdade, hoje está comprovado que o crescimento reduz a pobreza, o que é extremamente importante, mas não garante uma distribuição mais equilibrada dos recursos. Por isso, a formulação de políticas é de importância crucial. Falo de tributação progressiva, programas de bem-estar redistributivo, proteção dos sindicatos, restrições à globalização. O problema não é que essas medidas não funcionem na teoria; o maior desafio é implementá-las na prática.

E a educação?

A educação é um meio importante de combater a desigualdade. Os economistas às vezes imaginam uma corrida entre educação e tecnologia. A educação precisa acompanhar as mudanças tecnológicas para preparar os trabalhadores para novas tarefas. Caso contrário, alguns grupos bem preparados se beneficiarão desproporcionalmente dessa mudança. Mas até certo ponto isso é inevitável: a questão é simplesmente quão bem a educação é capaz de gerenciar esse problema.

Ideologias não podem reverter a desigualdade?

Ideias antigas tendem a favorecer o status quo e, portanto, a desigualdade. Novas ideias, como social-democracia ou comunismo, se beneficiaram de mudanças estruturais que as tornaram mais atraentes. Mas acima de tudo, se beneficiaram de grandes crises, como as guerras mundiais, a Grande Depressão e a ascensão dos regimes comunistas. Tais rupturas frequentemente violentas encorajavam repetidamente a adoção de ideias mais progressistas.

A democracia é uma arma contra a desigualdade?

Não necessariamente. Estudos mostraram que a democracia não tem um efeito sistemático sobre a desigualdade. Isso pode ser surpreendente, mas há muitas razões para isso. Existem muitos tipos diferentes de sistemas democráticos, e alguns funcionam melhor que outros. Cidadãos mais abastados têm maior probabilidade de votar e participar das decisões. Em alguns casos, os doadores ricos exercem grande influência no processo político e nos políticos. Além disso, muitos eleitores podem votar em partidos que refletem outras preferências além da maior igualdade, por exemplo, em questões sociais e culturais, ou lei e ordem.

A pandemia do Covid-19 pode mudar as artes?

Suspeito que mudará todos os tipos de expressões humanas, incluindo as artes. A curto prazo, impulsionará a disseminação digital da produção artística, de filmes à arte geralmente exibida em museus ou em exposições que costumávamos visitar pessoalmente. Mas me parece difícil avaliar agora todo o espectro de mudanças.

As religiões, em geral, pregam a igualdade entre os homens. Você acha que o discurso religioso é utópico?

Podemos interpretar afirmações religiosas da igualdade como uma reação idealista à desigualdade no mundo real. No entanto, privilegiando os benefícios da vida após a morte, eles podem fazer com que a mudança nesta vida pareça menos urgente. Aí concilia-se a desigualdade com a promessa da justiça celestial. Nesse sentido, religiões utópicas até ajudam a manter a desigualdade. É por isso que os ricos e poderosos frequentemente acham fácil organizar alianças com autoridades religiosas. Os sistemas de crenças seculares, principalmente o marxismo, fizeram um trabalho muito melhor na busca de mudanças reais, mas é algo bastante recente na história do mundo.

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