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O tempo levou? Obras clássicas do passado passam a ser contestadas no presente

Por Marcos Eduardo Carvalho@marcosovale78 |
| Tempo de leitura: 2 min
Vento Levou
Vento Levou

É possível julgar obras do passado com o olhar de hoje?

O filme ‘E o vento levou’, de 1939, causa polêmica por conta da abordagem racial, com teor preconceituoso. Por conta disso, chegou a ser retirado da grade do canal pago HBO Max.

Porém, o clássico do cinema retornou à grade nos últimos dias, mas com uma adaptação - o longa metragem ganha agora uma introdução para fornecer um contexto histórico da época e a forma como as relações raciais eram divulgadas naquela época, durante a Guerra Civil norte-americana no século 19.

O filme mostra a relação conformista dos escravos nos EUA e ainda trata os seus ‘proprietários’ como heróis.

O assassinato de George Floyd, no mês passado, no país, e os protestos contra o racismo turbinaram as críticas. Aliás, nos últimos anos, filmes, livros e seriados com conotação racista, homofóbica ou machista vêm sendo contestados -- uma revisão das obras.

Recentemente, uma obra não tão antiga assim, ‘Cinquenta Tons de Cinza’, sucesso nos cinemas, teve sua versão literária retirada de várias livrarias nos EUA, por conta do conteúdo considerado machista.

Voltando ainda mais no tempo, em 1915, o filme ‘O Destino de Uma Nação’ já causava polêmica naquela época, pois tratava membros do Ku Klux Klan, grupo supremacista branco criado no século 19, como cavaleiros ‘heróicos’.

Por aqui no Brasil, o livro ‘As Caçadas de Pedrinho’, do escritor taubateano Monteiro Lobato, que trata a personagem Tia Nastácia como ‘uma macaca de carvão’, ainda é fortemente criticado, embora não censurado.

DEBATE.

Para Moacir Santos, professor de Estética e História da Arte da Unitau (Universidade de Taubaté), o caminho certo é o da conscientização. “Essa discussão é recorrente, pois em momento anteriores obras com teor racista, machista ou outras formas de preconceito foram debatidas. Acredito que censurar não é caminho. Mas sim realizar o debate do conteúdo dessas obras, considerando-as como fonte de aprendizagem sobre o passado e como a literatura, o cinema e todas as demais formas de cultura e arte podem abrigar diversas formas de preconceito”, disse.

“Conscientizar o público é o caminho mais adequado”, disse ele, que elogia a decisão da HBO Max sobre o filme ‘E o tempo levou’. “Sim, esse é o caminho. Na literatura, na arte e demais manifestações culturais, vamos encontrar trabalhos com essas características”, finaliza.

A socióloga Lidiane Maciel, professora da FEA (Faculdade Educação e Arte) e do IP&D (Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento) da Univap (Universidade do Vale do Paraíba), segue a mesma linha de pensamento. Segundo ela, os produtos culturais são representações das moralidade/valores de uma época.

“Se nesse momento a discussão pública/política, motivada por atos criminosos, nos impõem a revisão de valores propagados pelos produtos culturais, considerados estimuladores de violências de diferentes ordens (física e simbólica), é aceitável ou justo que eles sejam criticados, mas não apagados/excluídos do debate, pois fazem parte da própria história da humanidade”.

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