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Transplantes de órgãos cai mais de 40% durante a pandemia da Covid-19

Por Agência O Globo |
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Transplante
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O número de transplantes de órgãos no Brasil caiu em mais de 40% desde o início da pandemia da Covid-19, e o de doadores recuou em 34%, de acordo com a Abto (Associação Brasileira de Transplante de Órgãos). Segundo Gustavo Ferreira, vice presidente da instituição, a queda se acentuou a partir da segunda quinzena de maio, quando houve um recuo de 49%. Nas duas primeiras semanas de junho, a redução já estava em 45%.

A diminuição de transplantes começou a acontecer desde o primeiro óbito pela Covid-19 identificado no país, em 17 de março. Até o último dia 14, segundo a Coordenação Geral Sistema Nacional de Transplantes, a queda no número de transplantes de rim, fígado, pâncreas, coração e pulmões foi de 43%, em média.

De acordo com Gustavo Ferreira, a alta ocupação dos leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva), a redução dos voos — dificultando o transporte dos órgãos pelo país — e o medo de que doadores e pacientes, estes já debilitados, sejam contaminados pelo coronavírus nos hospitais são alguns dos motivos que explicam a realidade atual. Ferreira afirma que a situação é preocupante, já que muitos dependem do órgão para sobrevivência, e não há perspectivas em curto prazo de uma normalização deste cenário:

"O Brasil enfrenta momentos da pandemia muito diferentes regionalmente. É muito difícil prever quando teremos um cenário melhor. Só podemos pensar em voltar ao número pré-crise quando soubermos melhor o futuro da pandemia".

Sobrecarga do sistema de hemodiálise

O Brasil realiza cerca de 30 mil procedimentos anualmente e é o maior sistema de transplante público do mundo. Até março, 26.816 pessoas aguardavam órgãos no país, de acordo com a ABTO.

Dessas, 24.879 são demandas por rim. Em maio de 2020, foram feitos 294 transplantes renais. Ano passado, foram cerca de 500 no mesmo mês, quase 30% a mais: "São pessoas que vão ter que continuar fazendo hemodiálise, o que sobrecarrega ainda mais o sistema, já que, recebendo o órgão, elas liberariam vagas de diálise pra outras pessoas. O Brasil também vive, há anos, no limite de ambulatórios para hemodiálise, com pessoas aguardando às vezes meses para conseguir uma vaga".

Receio de receber rim durante a pademia

É o caso de Everaldo Teodoro, de 54 anos, há 20 deles enfrentando sessões de hemodiálise. A possibilidade de ser chamado para realizar um transplante no meio da pandemia da Covid-19 tem assustado o aposentado, que já recebeu um rim em 2005, mas viu seu corpo rejeitá-lo.

Ele afirma que, se um novo órgão for disponibilizado enquanto a crise no coronavírus não estiver controlada, ele não pensa em fazer a operação. "O que eu mais sonho é ver o telefone tocar me chamando para transplantar, mas só que, na atual circunstância, depois de tantos anos lutando para conseguir um órgão, eu tenho receio de ir para o hospital e ser contaminado. Quando fazemos um transplante, ficamos imunossuprimidos. Então, estou com um certo medo, sim. Se me chamarem hoje, eu não gostaria de transplantar. Prefiro deixar esse momento passar. E este não é um sentimento só meu, mas de outros amigos que estão na mesma situação", explica.

Everaldo, que tem insuficiência renal crônica e é hipertenso, entrou novamente na fila do transplante novamente há dois anos. Enquanto não recebe um novo rim, ele faz diálise três vezes por semana Cada sessão dura quatro horas. Além do medo de contrair o novo coronavírus na operação, ele também tem receio de se infectar quando sai de casa para se tratar. Morador do Méier, na Zona Norte do Rio, ele pega um ônibus e o metrô para chegar na clínica onde faz diálise em Botafogo, na Zona Sul da cidade.

Possíveis doadores não estão sendo testados

As demais 1.937 pessoas que aguardam transplante de órgãos essenciais às suas sobrevivências também vivem momento dramático. Outras 390 crianças também estão na fila.

A pandemia e a baixa testagem nacional têm afetado o número de doadores não vivos. Como quem teve Covid-19 não pode doar, agora é necessário testar todas as pessoas que morrem no país. O problema, reforça ele, é que o país não tem testes o suficiente, deixando para trás possíveis doadores: "É uma situação muito preocupante porque estamos perdendo potenciais doadores, o que deixa o cenário de difícil recuperação para o futuro. Teremos que fazer uma ação muito efetiva nacionalmente no segundo semestre e no próximo ano".

PCR passará a fazer parte do protocolo para transplantes

Para a entidade, o quadro pode aumentar a mortalidade de pessoas que estão na fila à espera de um órgão. O presidente da ABTO, o cirurgião José Huygens Garcia, também professor da Universidade Federal do Ceará, disse que, diante da nova realidade provocada pelo coronavírus, a instituição está reformulando o seus protocolos.

Além dos exames que já eram realizados nos doadores para detectar doenças, incluindo o teste de HIV, o procedimento incluirá, na rotina, o exame RT-PCR (do inglês reverse-transcriptase polymerase chain reaction) para diagnóstico da Covid-19.

"Não se pode mais fazer retirada de órgãos sem a testagem.A nossa esperança é na redução cada vez maior do tempo para detectar a presença do coronavírus e um número maior de testes", explicou Huygens.

Ele acredita que a situação deve começar a melhorar a partir de agosto. O principal fator para que esse cenário se torne positivo é a liberação de leitos de UTI, essencial para o pós-operatório de transplantados: "A situação é diferente em regiões do país. No Sul, há o aumento do número de casos de Covid. Enquanto isso, em locais como o Ceará, por exemplo, há a liberação desses leitos, o que pode possibilitar o retorno das cirurgias".

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