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Bio-Manguinhos e Instituto Butantan defendem investimento no desenvolvimento próprio de vacinas

Por Agência O Globo |
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Estudo de vacina contra coronavírus
Estudo de vacina contra coronavírus

Principais produtores de imunizantes do país, Bio-Manguinhos, no Rio, e Instituto Butantan, em São Paulo, fornecem mais de 100 milhões de doses anuais ao Ministério da Saúde e defendem investimento no desenvolvimento próprio de vacinas 

A primeira vacina produzida pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), para a febre amarela, começou nos Estados Unidos e terminou no Rio de Janeiro. Era 1937, e o Brasil assinou acordo com a Fundação Rockefeller para que a fórmula, iniciada lá, fosse finalizada aqui. Hoje, a instituição — mais precisamente a unidade batizada de Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos, ou Bio-Manguinhos, inaugurado em 1976 — é responsável por 80% da produção mundial da vacina para a febre amarela, além de fabricar outras nove fórmulas, com capacidade anual de 200 milhões de doses.

Um dos maiores parques produtores de imunizantes da América Latina e principal fornecedor do Ministério da Saúde — foram 109 milhões de doses no ano passado e a estimativa é de 120 milhões para este ano —, Bio-Manguinhos agora negocia parcerias com grandes laboratórios para fabricar no Brasil uma vacina para o coronavírus.

O instituto produz quase todas as suas dez vacinas por transferência de tecnologia. Foi assim com a fórmula para o sarampo, em 1982, após cooperação com o Japão, que no ano seguinte também transferiu ao instituto a técnica de produção da vacina da poliomielite. Desde 2003, a unidade produz a tríplice viral, que faz a proteção para sarampo, caxumba e rubéola.

"O desenvolvimento é o futuro", diz Mauricio Zuma, diretor de Bio-Manguinhos. "Uma grande multinacional hoje investe US$ 4 bilhões em pesquisa e desenvolvimento. Nosso orçamento total é de cerca de R$ 2 bilhões ao ano. Total, e não só de desenvolvimento, mas de produção e tudo mais".

Instalações adaptáveis

Pesquisador emérito da Fiocruz e referência em vacina no país, Akira Homma é uma espécie de arquivo vivo da fundação ("Sou bem velhinho, estou aqui há quase 50 anos") e, a um só tempo, faz relatos entusiasmados dos primórdios de Bio-Manguinhos e de seu lugar no futuro da produção de vacinas para o coronavírus:

"Participamos intensamente das conversas com as farmacêuticas internacionais, porque queremos ter a tecnologia de produção tão logo seja desenvolvida e aprovada lá fora", afirma Akira Homma. "Fabricamos há 40 anos, temos a planta-piloto que atende aos requisitos de boas práticas de produção, com laboratórios para desenvolvimento em escala industrial de várias vacinas e, a depender da tecnologia utilizada lá fora, podemos rapidamente adaptar nossas instalações para a fabricação. E digo mais: se a vacina do coronavírus tiver uma abordagem tecnológica que não temos, vamos buscá-la o mais rápido possível".

Mesmo com orçamento enxuto para pesquisa, é para a construção de um complexo industrial — que deve ampliar a capacidade de produção e processamento final de Bio-Manguinhos — que vai agora o principal aporte de recursos do governo federal na instituição. O novo Complexo Industrial de Biotecnologia em Saúde, em Santa Cruz, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, é anunciado como o "maior investimento do país biotecnologia", segundo Nísia Trindade Lima, presidente da Fiocruz. De acordo com a fundação, já foram destinados R$ 700 milhões ao projeto, e o Ministério da Saúde anunciou, no ano passado, que investirá R$ 3 bilhões. O complexo está previsto para 2023, mas ainda depende de licitação.

"Está faltando vacina no mundo. Temos poucos produtores e não há doses para todos. Nossa população é de mais de 200 milhões de habitantes e precisamos garantir a sustentabilidade do PNI (Programa NacionaI de Imunizações), que hoje importa quase um terço das vacinas de que necessita", ressalta Zuma.

Atrás de Bio-Manguinhos, o Instituto Butantan, em São Paulo, é o segundo maior fornecedor de vacinas para o Ministério da Saúde (foram 100,5 milhões em 2019). Das seis entregues ao PNI, apenas a da gripe é produzida integralmente pela instituição, desde 2002. As demais são feitas a partir de tecnologias transferidas ou por meio de acordos com farmacêuticas. Atualmente, a principal frente em pesquisa no instituto é desenvolvimento de uma vacina para a dengue.

"A transferência de tecnologia se tornou um dos caminhos para a produção e o desenvolvimento locais. É uma forma de continuarmos produzindo e entregando vacinas ao país. Por outro lado, é estratégico também reforçar os investimentos em pesquisas próprias", afirma Alexander Precioso, diretor do Centro de Segurança Clínica e Gestão do Risco do Butantan.

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