Em abril, em meio à crise do coronavírus, procurei Bob Dylan quando ele lançou inesperadamente sua canção de 17 minutos "Murder most foul", sobre o assassinato do presidente John F. Kennedy. Mesmo sem dar uma entrevista importante sem ser para o seu próprio site desde que ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 2016, ele concordou em conversar por telefone de sua casa em Malibu, Califórnia, no que acabou sendo sua única entrevista antes do lançamento de "Rough and rowdy ways", seu primeiro álbum de músicas originais desde "Tempest", de 2012 .
Como a maioria das conversas com Dylan, esta também cobriu territórios complexos: transes e hinos, blues desafiadores, anseios de amor,jogos com palavras, ardência patriótica, cubismo lírico e satisfação espiritual.
Pode ser que um dia ele escreva uma música ou faça uma pintura em homenagem a George Floyd. Nas décadas de 1960 e 1970, seguindo a luta dos líderes do movimento pelos direitos civis, Dylan também expôs a arrogância dos privilégios brancos e a crueldade do ódio racial na América com músicas como "George Jackson", "Only a pawn in their game" e "The lonesome death of Hattie Carroll." Alguns de seus versos mais incisivos sobre abuso policial e racismo estão em "Hurricane", de 1976: "Em Paterson, é assim que as coisas são/Se você é negro, é melhor nem aparecer na rua/A não ser que queira chamar atenção"
Conversei brevemente com Dylan um dia depois que Floyd foi morto em Minneapolis. Claramente chocado pelo horror ocorrido em seu estado natal, ele soava deprimido. "Me deixou muito mal ver George ser torturado até a morte assim. Foi muito mais que horrível. Vamos torcer para que a justiça seja rápida para a família Floyd e para o país".
Perguntado sobre como pensa na morte, Dylan diz: "Eu penso na morte da raça humana. A longa e estranha viagem deste macaco nu. Não para esclarecer nada, mas a vida de todos é transitória. Todo ser humano, não importa se é forte ou poderoso, é frágil quando se defronta com a morte. Penso nisso em termos gerais, não de maneira pessoal."
Ele acha que, hoje, há muitas razões para ficar apreensivo. E compara gerações:
"Definitivamente, há muito mais ansiedade e nervosismo por aí do que antes. Mas isso só se aplica a pessoas de uma certa idade como eu e você. Temos a tendência de viver no passado, mas os jovens não têm essa tendência. Eles ainda não têm um passado, tudo o que sabem é o que vêem e ouvem, e podem acreditar em qualquer coisa. Daqui a 20 ou 30 anos, eles estarão no comando. Os adolescentes de agora não têm uma referência de memória. Então, provavelmente é melhor ter essa mentalidade o mais rápido possível, porque essa será a realidade".
Ele revela, ainda, as músicas dos Rolling Stones que gostaria de ter feito. "Ah, não sei. Talvez 'Angie', 'Ventilator blues', e o que mais? Deixe-me ver. Ah, sim, 'Wild horses'"