João Carlos de Faria*
Nos idos dos anos de 1970/1980, em Paraibuna, um jovem de origem humilde, nascido na roça e acometido por uma doença grave precocemente, resolveu desafiar a lógica das coisas da forma como já pareciam estar pré-determinadas.
Recuperou-se da doença, tornou-se dono de uma distribuidora de jornais e revistas e assumiu com a mãe a responsabilidade pelo sustento da família que era numerosa. Trabalhou no cinema da cidade, fazia fotos de casamento e gostava de teatro. Determinado a realizar seus sonhos foi estudar fotografia e turismo em São Paulo, aonde inclusive chegou a ser premiado por uma seleção de fotos feita na Festa do Peão de Barretos. Não ficou muito tempo por lá e voltou para agitar e mudar Paraibuna, que não seria a mesma depois dele.
A começar pelos cabelos compridos, nada usuais na época, e pela estranha mania de gostar de fotografar as coisas do povo e de ler e ouvir a boa música brasileira e regional, nem sempre era recomendado como boa companhia para os “comportados” jovens de então. Apesar de tudo, transformou-se numa referência e inspirou muitos jovens que foram convencidos pelas suas ideias às vezes malucas, mas com todo o sentido.
Chamava a atenção, no entanto, não pela rebeldia, mas por valorizar a cultura de raíz, vista por ele como a chance da cidade sair do marasmo e por desafiar políticos da época, incomodados com sua franqueza e a mania de dizer verdades inteiras. Deu voz a quem não tinha, levantando a bandeira da imprensa crítica, que apontava feridas e mazelas dos bastidores do poder local.
Trazia consigo a experiência da vivência cultural na “paulicéia desvairada”, onde pode consumir o melhor do circuito alternativo e fez amizades valiosas. Aproveitou essa bagagem para transformar a vida cultural de Paraibuna, que andava meio devagar.
Essa é uma pequena parte da longa trajetória do meu amigo João Rural, com quem convivi mais de 30 anos na lida como repórter, boa parte desse tempo militando no jornalismo rural. Hoje, cinco anos após sua morte, completados nesse dia 23 de junho, tenho a absoluta certeza de que tudo o que fez será imprescindível no futuro para a boa memória desse mundão valeparaibano.
O desafio agora é nosso. Temos que manter viva essa história e fazer com que a mesma não caia no esquecimento, num país onde a cultura anda bastante abandonada. João Rural, nascido João Evangelista de Faria, vai continuar vivo em cada livro publicado, em cada foto, em cada imagem de vídeo que registrou, mas viverá, sobretudo, em cada gesto nosso feito para que a cultura caipira não pereça nunca.
Jornalista