Inserido no debate de mobilidade urbana, a Prefeitura de São José anunciou em junho duas apostas de vias. Na primeira, com investimento de R$ 50 milhões, o projeto Linha Verde, iniciativa que prevê a criação de um corredor sustentável para interligar as regiões sul e leste - as mais populosas da cidade - e a central. O intuito é tornar o município mais inclusivo, compacto e dinâmico. Na segunda, obras de requalificação da rua Coronel José Monteiro, uma das principais do comércio na região central.
Este serviço está incluso em um pacote de seis obras de requalificação de áreas urbanas da cidade. O investimento: R$910.700,09. Linha verde. Ligará regiões sul, central e leste Em consonância com o Plano Diretor, a Linha Verde pretende fomentar o desenvolvimento econômico ao longo de seus 20 quilômetros de extensão. Pelo corredor irá circular o transporte rápido de massa, que promete garantir modernidade, agilidade e conforto no serviço de transporte público oferecido à população.
O projeto cria ainda o Anel Viário Leste, nova via que permitirá a interligação de toda a cidade ao Parque Tecnológico, sem a necessidade de uso da Via Dutra. Os municípios de Jacareí e Caçapava, situados nas duas pontas da Linha Verde, também ficarão mais interligados. A linha pretende ainda promover o desenvolvimento urbano e econômico, preservando o meio ambiente. O eixo sustentável terá 75 mil metros quadrados e inclui quatro praças ao longo do trajeto.
Para sua realização, o projeto utilizará até 31% da faixa pertencente à Companhia Paulista de Transmissão de Energia Elétrica S/A. Será desapropriada uma área de 395.485 metros quadrados. O plano urbanístico prevê ainda o aterramento das torres de energia. Sem elas, bairros hoje separados pelas estruturas metálicas e pelos cabos também ficarão mais unidos.
Quatro grandes praças, que devem ser criadas no trecho de 20 quilômetros, serão “ilhas verdes” que irão contribuir na redução de calor e da poluição atmosférica e sonora de bairros adensados, principalmente na região sul. O corredor terá também a maior ciclovia já construída na cidade. E, das áreas remanescentes, 5% serão destinadas ao Programa Habitacional. Investimentos estão sendo negociados com Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil e BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social).
Já a requalificação proposta para a rua Cel. José Monteiro é peça da política de priorização dos chamados “modos ativos de deslocamento” (a pé ou de bicicleta) e ao conceito “Cidade para Pessoas”, instituído por meio do Plano de Mobilidade Urbana (lei 576/16). A obra promete dar mais visibilidade aos comércios e segurança e conforto ao público que frequenta o espaço. Na proposta, espaços de descanso com bancos, vegetação, locais para estacionamento de bicicleta, aumento da área de calçada e manutenção de uma faixa de rolamento para passagem de veículos em baixa velocidade.
A obra, que deverá durar três meses, será feita em etapas no trecho entre a rua Vilaça e o Calçadão. Na primeira, será realizado o aumento do passeio de um dos lados. Depois, será feito o mesmo do lado oposto. O trânsito de veículos não será interrompido nesse momento e as lojas terão acessos garantidos. “Se olharmos São José ao longo dos anos, temos bairros com ruas estreitas e quase sem calçada, como Santana.
Eles foram criados em uma época em que o uso do automóvel não era tão massivo. Até que, num passado mais recente, o número de veículos cresceu e as vias precisaram ser alargadas. Essa nova fase vem sendo construída desde 1998, quando o Código de Trânsito colocou luz sobre o pedestre, tornando-o prioridade”, contou Paulo Roberto Guimarães Júnior, secretário de Mobilidade Urbana.
“Por causa da segurança, as calçadas passaram a ter 50cm, depois 1,5 metro e, hoje, no mínimo 2, 5 metros. Na lei de zoneamento já temos como proposta o mínimo de três metros. Uma evolução. Mudamos a forma de enxergar o outro. Passamos a fazer vias largas, mas dando prioridade ao transporte público, com faixas exclusivas e um sistema cicloviário”, disse Guimarães Junior.
O projeto da prefeitura se insere a um debate mundial sobre mobilidade urbana. Segundo Aline Cavalcante, presidente da Ciclocidade, associação que debate a construção de uma sociedade mais sustentável e o uso da bicicleta como instrumento de transformação, o foco de especialistas é de como tornar as ruas mais eficientes. “Mobilidade urbana é um tema que sofre alteração com o passar do tempo porque é reflexo de como as cidades vão se desenvolvendo. Então, a medida em que ela se desenvolve, há a necessidade de determinados transportes”, afirmou.
“Atualmente, as pessoas entenderam que as ruas são espaços muito caros para as cidades, e limitados. Dentro da tendência, o desestímulo do uso do automóvel é o ponto número 1”. Ainda de acordo com a especialista, a retirada de estacionamento de vias públicas, transformando em bolsões, ou alargamento das calçadas também estão em debate nos municípios.
“É um estímulo ao uso coletivo. Um conceito que tem crescido bastante é o de que o carro é um serviço, e não uma propriedade”. É nesse cenário que as ciclovias aparecem como um incentivo a essa mobilidade ativa. “Hoje não há equilíbrio na distribuição do espaço. Na capital paulista, por exemplo, 80% do sistema viário é destinado ao transporte individual”, revelou Aline.
“Sem contar que a ciclovia e a ciclofaixa também trazem acessibilidade às pessoas com deficiência”. Para Lucian de Paula Bernardi, da Câmara Temática de Bicicleta, que dá suporte ao CMTT (Conselho Municipal de Transporte e Trânsito) da Prefeitura de São Paulo, novos meios de locomoção - não só a bicicleta, mas também o patinete - são positivos, uma vez que substituem automóveis e motocicletas, “geradores de congestionamento, poluição e morte”. “Usa-se o termo ‘last mile’, em português falamos de ‘ùltima perna’ ou ‘último trecho’, que é o caminho entre o meio de transporte (ponto de ônibus/metrô) e o destino final.
Geralmente, ele é feito à pé. Com uma micromobilidade, conseguimos um raio de deslocamento maior, mais rápido e mais confortável. À integração de dois ou mais meios de transporte chamamos de intermobilidade. E ela facilita muito para o usuário, uma vez que ele consegue reduzir o tempo de deslocamento fazendo essas trocas de transporte”, continuou.
Sem perder tempo. Para o secretário de mobilidade de São José, o modelo de urbanismo que por muitos anos tivemos - Brasília - está caindo por terra. Nos anos 1960, era comum setorizar as atividades, dividindo a cidade. “Isso gerava uma demanda grande do uso do automóvel, portanto um transtorno. O conceito de mobilidade debatido é a redução da quantidade e tempo de deslocamento, com moradia, trabalho e serviços na mesma região”, afirmou Guimarães Junior. Hoje, temos picos de congestionamento pela manhã e por volta das 17h.
Nesses pontos, o deslocamento via carro e moto ocorre devagar. E, segundo a prefeitura, vias como a Ponte Estaiada e Cambuí são possíveis soluções para o problema. No entanto, pesquisadores são céticos em relação a essa resolução. Para o arquiteto urbanista e historiador Paulo Romano Reschilian, professor da Univap (Universidade do Vale do Paraíba), desde 2017 há uma substituição de políticas públicas por serviços.
“O plano nacional de Mobilidade Urbana deixa bem claro que a prioridade é o pedestre. E, cada vez mais, amplia-se e constrói mais avenidas, pontes e viadutos com discurso de ter a ciclovia. É um equívoco”, opinou. “Há uma clara e não ingênua desconexão entre lei de uso e ocupação do solo, mobilidade e sistema viário. O plano cita várias vezes o termo macroviário, ou seja, carros em sua maioria tem avenidas que não passam ônibus, por exemplo. Quando, na verdade, discutir política de mobilidade é discutir onde estão os trabalhadores e o emprego, as atividades econômicas distribuídas no espaço da cidade, e não as necessidades de classes médias altas que têm três carros na garagem”.
“Sabe quantas mulheres se deslocam diariamente da região sul para a oeste para trabalhar no Aquarius e Urbanova?”, indaga o professor. “Essa é uma cidade que custa caro ao município e empobrece os demais trabalhadores, pois quem os contrata os quer morando longe. É uma equação básica que parece que prefeitos e sociedade não querem enfrentar”, concluiu.
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