“Hoje tá pior do que antes”. Curto e grosso, o vocalista João Gordo está pessimista quanto ao futuro do país. Ele acha que a situação política piorou desde 1989, quando a banda punk paulistana Ratos de Porão lançou “Brasil”, petardo sonoro gravado na Alemanha com contundentes críticas políticas e sociais.
Crítico do governo Bolsonaro, João Gordo acredita que várias letras de “Brasil” tornaram-se mais atuais hoje, como “Farsa Nacionalista”, “S.O.S. País Falido”, “Máquina Militar” e “Amazônia Nunca Mais”, que abre o disco.
João Gordo e seus parceiros de Ratos: Jão (guitarra), Boka (bateria) e Juninho (baixo) tocam neste sábado no Hocus Pocus, em São José dos Campos, na turnê “Brasil 30 Anos”, que reproduz integralmente o disco de 1989. “Você pega as letras e é assustador. Parece que foram escritas ontem”, diz o vocalista, lembrando trecho da faixa “Retrocesso”: “Cuidado com o poder/ do regime militar/ O tempo vai retroceder”.
Além de atual, “Brasil” consolidou a fama do Ratos no exterior, tornando-os uma das bandas do underground com mais passagens pela Europa.
O disco foi gravado na Alemanha e produzido pelo americano Harris Johns. Desenhada pelo autor de quadrinhos paulistano Marcatti, a capa é considerada premonitória, com o garoto pobre e desdentado ao lado de floresta queimando, policiais violentos e até de um palhaço cruel.
“Triste analisar friamente que o país não evolui. Está atual o disco”, conta João Carlos Molina Esteves, o Jão, em entrevista a OVALE. “Na época, a democracia tinha voltado recentemente e havia um lance militar muito forte ainda. Ninguém imaginaria que estaria o que está hoje. O Brasil na contramão de tudo, para pior”.
Jão diz que a banda está empolgada com a nova turnê e de tocar no Vale do Paraíba. “Sempre foi muito legal, casa cheia, o pessoal empolgado, público receptivo e animado. Sempre foram shows bons”.
Também crítico do atual governo, Jão acha que a eleição de Bolsonaro revelou uma das contradições do país: “Hoje tem muito preconceito e intolerância. Está quebrando o lance de que o brasileiro é povo alegre. Apareceu muito pobre de direita. É só no Brasil. Manter a burrice do povo”.
Sobre “Brasil”, Jão conta que o disco foi gravado em Berlim, durante 22 dias. “Estávamos num apartamento ao lado do estúdio e trabalhamos muito”. Segundo ele, o álbum foi um desafio. “É um disco marcante. Abriu demais as portas. Já misturávamos metal e a temática sempre foi protesto”.