A Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) pretende publicar nesta terça-feira (31) um manifesto assinado por diversas associações e entidades empresariais pedindo gestos de pacificações entre os Poderes diante da escalada das ameaças de ruptura à ordem democrática feitas pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido).
A adesão da Febraban (Federação Brasileira de Bancos) ao manifesto capitaneado pelo presidente da Fiesp, Paulo Skaf, deve fazer com que o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal deixem a entidade criada em 1967, como revelou o colunista Lauro Jardim.
O texto do manifesto ainda está sendo revisado, mas a ideia geral é dar um recado curto e objetivo para os três Poderes: é preciso que cada lado faça "gestos magnânimos" para distensionar o ambiente político e dissipar incertezas que podem prejudicar o processo de recuperação da economia brasileira.
O documento deve ter, no máximo, três parágrafos e não citará, nominalmente, nem o presidente Bolsonaro nem nenhum outro chefe de Poder.
PREOCUPAÇÃO
Segundo pessoas ouvidas pelo GLOBO, que acompanham a elaboração do texto, as entidades vão destacar que têm acompanhado "com grande preocupação a escalada de tensões entre os diversos atores políticos" e que esse embate coloca em risco a harmonia entre os Poderes da República.
"A sociedade civil espera, e o momento exige, serenidade, diálogo, pacificação política e institucional, e, sobretudo, foco nas reformas tão urgentes", diz o texto do manifesto.
A intenção, desde o início das articulações do manifesto, era garantir uma redação leve, mas com um recado claro de que qualquer discurso contra as instituições não tinha respaldo da iniciativa privada. O sentimento no setor privado, mesmo entre quem faz oposição a Paulo Skaf, é de que o manifesto é importante e deve ter adesões de relevância.
Além da Febraban e da Fiesp, entidades como Abag (Associação Brasileira do Agronegócio) e Instituto Brasileiro da Árvore (Ibá, da indústria de celulose e papel) também devem assinar o documento.
Em paralelo, grandes empresas e executivos articulam mais manifestos com o mesmo tom, a serem divulgados em seguida.
SETOR PRIVADO
O movimento da Fiesp vem na esteira de outras manifestações feitas por representantes do setor privado e da sociedade civil. No início de agosto, um grupo de mais de 200 empresários, economistas e intelectuais divulgou um manifesto de apoio ao processo eleitoral brasileiro em resposta aos ataques do presidente Bolsonaro à urna eletrônica e ao presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), Luís Roberto Barroso.
No texto, o grupo afirmava que o "Brasil terá eleições e os seus resultados serão respeitados" e que a sociedade brasileira é "garantidora da Constituição e não aceitará aventuras autoritárias".
Assinaram o documento, entre outros, os empresários Luiza Trajano (Magazine Luiza), Guilherme Leal (Natura) e Roberto Setúbal (Itaú); os economistas Armínio Fraga, Pérsio Arida e André Lara Resende; os líderes religiosos Dom Odilo Sherer (Cardeal Arcebispo de São Paulo) e Monja Coen; os médicos Raul Cutait, Drauzio Varella e Margareth Dalcomo; os ex-ministros José Carlos Dias, Pedro Malan, Paulo Vanuchi e Nelson Jobim; e os professores universitários Luiz Felipe de Alencastro e Candidato Mendes de Almeida.
A articulação do novo manifesto foi feita pessoalmente por Paulo Skaf, que enviou uma primeira versão do texto há duas semanas para diversas associações e entidades empresariais. Skaf foi, por muito tempo, um forte apoiador do governo Bolsonaro.
ALINHAMENTO
O alinhamento político entre o presidente da Fiesp e o Palácio do Planalto causou incômodo entre alguns industriais. Para esse grupo, a atuação de Skaf tirava a legitimidade da Fiesp para brigar com o governo por pontos considerados mais críticos para os empresários, como a redução de impostos.
Skaf alimentava o desejo de disputar o governo de São Paulo, no próximo ano, como candidato do presidente, mas Bolsonaro deixou claro ao longo dos últimos meses que pretende apoiar o ministro de Infraestrutura, Tarcísio de Freitas, na corrida pelo Palácio dos Bandeirantes.
Skaf deixará o cargo de presidente da Fiesp em janeiro, depois de 17 anos no comando da Federação. O futuro comandante da Fiesp é o empresário Josué Gomes da Silva, filho de José Alencar, fundador da Coteminas e vice-presidente do Brasil durante os dois mandatos do presidente Lula (2003-2011). Alencar morreu aos 79 anos, em março de 2011, em decorrência de um câncer na região abdominal.
Para José Ricardo Roriz Coelho, presidente da Abiplast e opositor de Skaf, a postura adotada pelo presidente Jair Bolsonaro é equivocada "há muito tempo, não é de hoje".
“Skaf foi pró-Lula, pró-Dilma, pró-Temer e pró-Bolsonaro. Agora está querendo se desvencilhar do Bolsonaro e quer articular essa concertação. É um oportunismo barato”, criticou Roriz.
BANCOS
A adesão da Febraban ao manifesto gerou um embate do comando da entidade com representantes do BB e da Caixa.
Segundo pessoas que acompanham o debate, a direção da Federação de Bancos já aprovou a adesão ao manifesto. Com isso, é esperada a saída dos dois bancos estatais da entidade assim que o manifesto for publicado.
Procurada pela reportagem, a Febraban afirmou, em nota, que não comenta sobre posições atribuídas a seus associados.
"Sobre o manifesto articulado pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e dirigido a várias entidades, o assunto foi submetido à governança da Febraban".
Procurados também no sábado, Banco do Brasil e Caixa não se manifestaram.