Sob nova direção. O ponto mais valorizado e lucrativo do mercado criminoso e violento das drogas está sob novo comando. Como uma peça no tabuleiro do banco imobiliário, um bando chefiado por um ‘irmão’ -- nome dado para os integrantes do PCC (Primeiro Comando da Capital) -- movimentou-se de olho em cifras milionárias e comprou as ‘biqueiras’ (gíria para os pontos de venda de entorpecentes) no bairro Campo dos Alemães, na região sul de São José dos Campos, por cerca de de R$ 2 milhões.
A transação criminosa, identificada por agentes ligados à inteligência policial, envolveu pontos que eram comandados por Lúcio Monteiro Cavalcante -- líder do PCC morto no dia 6 de março de 2017 durante um tiroteio com a Polícia Militar no Anel Viário. De acordo com investigações do MP, o tráfico no Campo gerava R$ 2 milhões mensais.
O mercado da droga na área tinha uma divisão: ao lado de um sócio, o chefe do PCC comandava uma parte (perto da rua 15), e outra quadrilha, em ligação com o PCC, detinha outra área (perto da rua 24). Após a morte de Lúcio, de acordo com as fontes policiais, o sócio dele passou a ter o controle da biqueira -- pessoas ligadas ao traficante morto teriam aberto mão do ‘negócio’. Mas ela ficou parada. Com isso, de acordo com as fontes da inteligência policial, parte do movimento migrou para áreas próximas.
Agora, o sócio de Lúcio, do PCC, vendeu o seu território e recebeu o pagamento em dinheiro vivo, imóveis e veículos. O tráfico na área está sob nova direção.
TRÁFICO
A ascensão do PCC (Primeiro Comando da Capital) está diretamente ligada à gestão dura e operacional de suas lideranças. A ideia de organizar um grupo criminoso paulista ganhou força após o massacre do Carandiru, em outubro de 1992, no qual morreram 111 presos. Um ano depois, um pavilhão anexo da Casa de Custódia de Taubaté, batizado de ‘Piranhão’, tornou-se o ‘berço’ da facção. Ali o Estado abrigava os presos mais perigosos de São Paulo. Ao completar 25 anos, além de ser perseguido pelas forças de segurança, o PCC também virou ‘alvo’ de estudos acadêmicos, livros e documentários.
NEGÓCIOS
Os estudos descrevem a ‘gestão’ da facção como violenta e rígida, mas também alicerçada nos negócios. O PCC é capaz de determinar quem vive e quem morre em seus tribunais do crime, mas tudo a partir de um viés comercial. O intuito é ganhar cada vez mais dinheiro e poder. O jornalista Bruno Paes Manso e a socióloga Camila Nunes Dias se uniram para escrever o livro “A Guerra: a ascensão do PCC e o mundo do crime no Brasil” (Editora Todavia), lançado em agosto deste ano.
Camila também é autora de uma tese de doutorado sobre a facção criminosa. Segundo ela, o PCC adotou uma ética que era própria do crime dentro das penitenciárias, só que aplicada de forma fragmentária. “O PCC a tornou mais homogênea. Um dos princípios é de não matar. Só mata com aval do PCC”.
Ela e Manso defendem que esta disciplina hierárquica sobre a morte fez com que, colateralmente, o PCC colaborasse com a redução de homicídios no Estado de São Paulo, cujos indicadores estão em queda há 18 anos. “PCC é a agência reguladora do mercado de drogas. Eles sabem que não matando todos ganham mais dinheiro”, afirmou Manso.
Parece um raciocínio até simplista, mas funciona no mundo perverso do tráfico de drogas, comandado pelo PCC. Se antes um devedor de biqueira acabava morrendo, hoje ele paga sua dívida prestando serviço à facção, que emprega regras de ‘mercado’ para comercializar seus pontos de venda de drogas, como ocorreu no Campo dos Alemães, zona sul de São José dos Campos. Manso explica que o PCC trabalha numa dinâmica de “mediação dos endividados”, não aderindo à matança em primeiro lugar. “É uma reconfiguração na dinâmica criminal de São Paulo. Não se pode minimizar ou negar a existência do PCC”.