Entrevista

‘O risco que vejo é de rebeliões com leniência das PMs’, diz historiador Carlos Fico

Por Xandu Alves |
| Tempo de leitura: 5 min
O presidente Jair Bolsonaro em solenidade militar
O presidente Jair Bolsonaro em solenidade militar

Especialista em estudos sobre a ditadura militar, o professor da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) Carlos Fico aponta o risco de rebeliões de bolsonaristas extremados, com leniência das polícias militares nos estados, como a principal ameaça a pairar sobre o Brasil.

Para ele, o pior nem são os militantes radicais apoiadores do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) nas redes sociais, mas justamente a postura do mandatário.

“O exemplo do Bolsonaro é deletério e já prejudicou muito as relações sociais, institucionais e tudo mais no país”, disse ele em entrevista exclusiva a OVALE.

Confira a entrevista na íntegra.

O que achou do desfile de viaturas militares pela Praça dos Três Poderes?

Fracassou. Foi tentativa de demonstração de força do Bolsonaro, mas deu errado. Estava muito chocho e constrangeu os próprios militares. Foi uma bobagem completa. Não vi ninguém que tenha ficado impressionado. Se aquilo fosse uma cena de golpe militar, seria uma das mais patéticas.

Serviu como pressão?

Acho que o presidente está completamente fragilizado. Ele nunca soube o que fazer mesmo quando estava bem nas pesquisas, e ainda mais agora que está fragilizado politicamente, atacado pelos possíveis processos no TSE e no STF. Essa coisa dos militares em volta dele tem mais a ver com aumento de salário, boquinha e prestígio, e menos com suposta aventura de ruptura institucional.

Como vê essa presença de militares no governo?

A imagem dos militares no Brasil, que tradicionalmente é boa, vem decaindo. Certamente, esse desfile ridículo vai colaborar ainda mais para essa queda, além do envolvimento de coronéis nessa bagunça do Ministério da Saúde. Tudo isso está piorando a imagem dos militares. Aí se vê como é poderoso o apelo do dinheiro, dos salários, das vantagens e do prestígio de ocupar esses cargos. Isso é que tem contado para essa grande participação de militares no governo. Num primeiro momento, no início do governo, havia a pretensão de alguns oficiais generais formados na mesma época de Bolsonaro de tentar tutelar o presidente, mas isso logo caiu por terra. Ficou o interesse por cargos e salários.

Piora a imagem das Forças?

As Forças Armadas sempre tiveram bem nas pesquisas de opinião, mesmo depois da ditadura. A população sempre as associou a patriotismo, combate à corrupção e preparo, que é o que está mais sob ataque no momento. Esse despreparo enorme dos oficiais generais que mal sabem se dirigir ao público e falar uma frase que faça sentido, que dirá questões de logística e tudo mais. Certamente vários oficiais generais têm preocupação com essa degradação da imagem junto à opinião pública.

Bolsonaro se aproveitou das Forças Armadas, ou é o inverso?

Está tudo errado nessa relação. As Forças Armadas estão com a sua imagem sob crítica e também Bolsonaro. Seja lá o que essa simbiose signifique, está dando errado. Com certeza houve promiscuidade nesse governo com a presença de tantos militares, que revela uma relação promíscua entre a Presidência da República, os ministérios e as Forças Armadas. Isso tem explicações de natureza mais biológica ou doutrinária, porque há mais gente de extrema direita como Bolsonaro nas Forças, mas também fica por conta dessa oportunidade de ocupação de tantos cargos.

A relação do Bolsonaro com os militares tem uma relação muito antiga. Quando ele foi quase expulso, e houve acordo no Superior Tribunal Militar, ele saiu do Exército e passou a ser visto como um ‘não militar’, mas um político profissional, portanto era malvisto pelos oficiais generais. Ali pelos anos 1990, ele começou a fazer a defesa dos salários, usando como recurso as esposas e viúvas. Mesmo àqueles que o viam negativamente, passaram a ter alguma benevolência. É toda uma dinâmica que começa com uma rejeição por ele ser amalucado, depois essa aproximação e finalmente quando ele se torna candidato viável, a aproximação com diversos interesses.

Bolsonaro pode dar um golpe?

Talvez ele queira, mas se ele consegue é outra conversa. Seria um autogolpe, ele reduzir poder do Congresso e STF e ampliar o poder da Presidência. Ou fazer aprovar no Congresso algo que lhe desse mais poderes. É um cenário muito difícil, seja para o fechamento das instituições, seja de o Congresso ser manipulado para ampliar os poderes do presidente. O risco que vejo é de rebeliões de bolsonaristas extremados, meio caricaturas nas redes sociais, com leniência das polícias militares.

Como o sr. vê essas ameaças de golpe feitas por bolsonaristas, especialmente nas redes sociais?

O problema não são esses personagens mais caricatos das redes sociais, mas do próprio presidente. Ele tem influência muito grande e já expressou isso na ampliação da violência, no número de pessoas armadas e num certo esgarçamento das formalidades institucionais, que ele cultiva. O exemplo do Bolsonaro é deletério e já prejudicou muito as relações sociais, institucionais e tudo mais. Há o bolsonarista radical e caricato das redes sociais, que é desagradável, mas há aqueles que não são assim. Que votaram [em Bolsonaro] e não devem ser ridicularizados, porque os democratas precisam desses votos para superar essa fase tão negativa da política brasileira e eleger pessoas com compromisso com a democracia.

Tendo a relativizar essa caricatura da figura burlesca e muito odienta das redes sociais. Com o tempo, a sociedade vai aprendendo a lidar com as tentativas de manipulação, como fake news e negacionismo. O problema não é o meio, mas são os conteúdos. Quando são criminosos devem ser punidos.

Já enfrentou a ira dos radicais?

Não, e até me sinto um pouco frustrado (risos). Vejo vários colegas meus perseguidos por haters. Eu não sou atacado assim, não. Quando lancei meus primeiros livros sobre a ditadura, recebia muitas cartas de militares fazendo críticas. Pretendo até publicar essas cartas em um livro.

O que representará a eleição presidencial de 2022 na avaliação do sr.?

A democracia no Brasil tem tempo histórico muito curto. Temos a redemocratização de 1985 e todas essas atribulações, com dois impeachments após a ditadura. A experiência da sociedade com a democracia é muito breve do ponto de vista histórico. A ampliação dessa vivência, inclusive de uma cidadia que cultive valores de solidaridade e defesa dos direitos humanos, é fundamental. Não acredito que o povo não sabe votar ou que errou. Temos que entender o que aconteceu para que os setores democráticos consigam prevalescer. Tenho esperança de que esse período nebuloso se encerre com a eleição de algum presidente democrata nas próximas eleições.

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