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Reverendo que intermediou negociação de vacinas afirma à CPI da Covid ter sido usado pela Davati

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Reverendo Amilton Gomes de Paula
Reverendo Amilton Gomes de Paula

Em depoimento à CPI da Covid, no Senado, nesta terça-feira, o reverendo Amilton Gomes, fundador da Senah (Secretaria Nacional de Assuntos Religiosos), negou ter negociado vacinas, tendo apenas indicado para o Ministério da Saúde alguém que teria os imunizantes. Ele afirmou também que foi usado pela Davati Medical Supply, empresa investigada pela comissão por suas tratativas sobre vacinas com o governo federal.

"Hoje com a série de eventos divulgados, entendemos que fomos usados de maneira ardilosa para fins espúrios", disse Gomes.

Ele afirmou que, em fevereiro deste ano, pensou em encerrar a parceria da Senah, que apesar do nome é uma entidade privada, com a Davati após uma reunião em 12 de março com representantes da empresa e o então secretário-executivo do Ministério da Saúde Elcio Franco. Segundo ele, Elcio disse ser necessário a apresentação de um documento do laboratório AstraZeneca corroborando que a Davati tinha as vacinas.

"Diante das informações trazidas pela secretário da  inexistência de documentação pertinente por parte da empresa Davati, a Senah pensou seriamente em encerrar sua participação nesse episódio de apresentação de vacinas para o Ministério da Saúde. Entretanto, diante de novas informações trazidas pelos representantes da Davati, aliado à diminuição de preços, acreditamos que de fato existiam as vacinas para pronta entrega. Em 24 de março enviamos novamente e-mail  para o Ministério da Saúde apresentando uma nova proposta de aquisição de vacinas da AstraZeneca e da Janssen, a um valor de 11 dólares, sendo que não obtivemos resposta até a presente data", disse o reverendo.

Os senadores querem esclarecer a participação da entidade em uma negociação paralela de vacinas levada ao Ministério da Saúde. O policial militar Luiz Paulo Dominguetti, que ofereceu 400 milhões de doses de AstraZeneca sem autorização do laboratório e sem origem comprovada, contou com a intermediação do reverendo para ser atendido pelo governo federal.

'Sem relação com governo'

Ele negou conhecer dois ex-integrantes do Ministério da Saúde suspeitos de irregularidades na negociação de vacinas: o coronel Marcelo Blanco e o Roberto Dias. Questionado sobre qual a motivação de ter levado Dominguetti ao Ministério da Saúde, Amilton respondeu:

"A motivação nossa era colocar essa demanda de vacina para o Brasil".

Ele disse não conhecer ninguém no governo federal nem próximo ao presidente Jair Bolsonaro.

Depois de uma pausa de duas semanas por conta do recesso parlamentar, a CPI retomou os trabalhos para aprofundar as investigações sobre suspeitas de irregularidade na compra de vacinas pelo governo Bolsonaro. A partir de terça-feira, o foco da CPI é a negociação envolvendo empresas e intermediários para oferecer vacinas sem o aval de fabricantes estrangeiros, como é o caso da oferta feita por Dominguetti, através da empresa Davati Medical Supply. O PM disse ainda que o ex-diretor de logística do Ministério da Saúde, Roberto Dias, pediu propina a ele de US$ 1 por dose.

Amilton Gomes é apontado por representantes da Davati Medical Supply como um "intermediador" entre o governo federal e empresas que ofertavam vacinas.

100 requerimentos

A CPI da Covid aprovou mais de 100 requerimentos nesta terça-feira. Entre as medidas aprovadas está a quebra dos sigilos telefônico, fiscal, bancário e telemático do líder do governo na Câmara, o deputado Ricardo Barros (PP-PR), e do deputado Luis Miranda (DEM-DF). A comissão também reconvocou o ex-secretário-executivo do Ministério da Saúde Élcio Franco, que é um dos principais alvos das investigações e já tinha prestado depoimento em junho.

Durante a sessão, o vice-presidente da CPI, Randolfe Rodrigues (Rede-AP), denunciou o discurso de ódio sofrido pelos membros da comissão:

"As intimidações buscam ser feitas de todas as formas: é com notinha encaminhada pra cá, às vezes contra o presidente da CPI, é com ameaças, como foi no começo, e, agora, é através de milícias digitais espalhando fake news. Não tenho dúvidas, senador Humberto (Costa), que este contra o senhor é pela linha de investigação que o senhor está avançando: os hospitais federais do Rio de Janeiro. Há um pavor no ar enorme sobre essa linha de investigação", afirmou.

Para o senador, os ataques se devem às linhas de investigação destrinchadas pela CPI, como o escândalo das vacinas e os hospitais federais do Rio. Por isso, defendeu a quebra de sigilo do Instituto Força Brasil:

"Um dos caminhos que nós estamos aprofundando a investigação é a atuação das fake news, porque essas fake news todas é tudo bandidinho de terceira. É tudo, tudo bandidinho de terceira. Pensa que é fake news posando de moralista, pensa que é fake news ideológica? É não. Estão todos metidos em compra irregular de vacina. Um desses o Instituto Força Brasil intermediou a compra de vacina então eles têm que vir a sentar aqui, tem que ter sigilos quebrados não somente por intimidar membros de CPI, (...), mas também por, além disso, estarem envolvidos com balcão de negócios que se transformou o Ministério da Saúde", disse Rodrigues.

Outro requerimento aprovado pela CPI foi o asfastamento de Mayra Pinheiro do cargo de secretária de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde do Ministério da Saúde. A comissão decidiu que vai apresentar uma ação judicial com o objetivo de retirá-la do posto. Ela ficou conhecida como "Capitã Cloroquina", pela defesa que fez do uso do remédio sem eficácia para o tratamento da doença. Mayra já prestou depoimento na CPI, quando reiterou ser a favor do uso da cloroquina no tratamento precoce, mas contra a utilização do medicamento em pacientes já hospitalizados. Em sessão anterior, a comissão também já tinha aprovado a quebra dos sigilos telefônico e telemático da secretária.

A CPI analisaria um requerimento para convocar o ministro da Defesa, general Braga Netto. Houve resistência dos senadores governistas, que são minoria, e de parte da oposição, numa indicação de que o requerimento seria rejeitado. Além disso, o senador Rogério Carvalho (PT-SE) denunciou nesta terça-feira, na sessão da CPI, que foi alvo de espionagem do Exército em seu estado, Sergipe. Segundo o parlamentar, dois militares foram ao encontro de um amigo dele, a mando de Braga Netto, em busca de informações que pudessem ser usadas contra ele diante do trabalho desempenhado na comissão.

A cúpula da comissão tem planos de acelerar os trabalhos para que o relatório final de investigação fique pronto até o final de setembro. A ideia é que o documento produzido pela CPI aponte os indícios de fraude em contratos do Ministério da Saúde, as omissões do governo e ainda a promoção de medicamentos ineficazes durante a pandemia.

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