Mais quente, e perigoso.
As mudanças climáticas já estão afetando todas as regiões do planeta Terra, de diferentes maneiras.
O alerta foi feito por cientistas ligados ao IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) em um informe lançado na última segunda-feira (9), em Genebra, na Suíça.
O documento reúne as principais conclusões da contribuição de cientistas para o sexto relatório de avaliação do órgão, que é ligado à ONU (Organização das Nações Unidas). A publicação sintetiza o conhecimento sobre as bases físicas das ciências relacionadas ao clima.
EVENTOS EXTREMOS
De acordo com as conclusões dos cientistas, a frequência e a intensidade dos eventos climáticos extremos aumentaram na maioria das áreas terrestres desde 1950 e irão se agravar nas próximas décadas, proporcionalmente ao aquecimento global.
Se a temperatura do planeta aumentar 4 ºC, por exemplo, o número de eventos climáticos extremos em algumas regiões pode se tornar nove vezes maior.
"O relatório reflete esforços extraordinários, em circunstâncias excepcionais", disse Houesung Lee, presidente do IPCC. "As inovações e os avanços na ciência refletidos nele fornecem uma contribuição inestimável para as negociações climáticas e para a tomada de decisão".
Segundo o documento, é inequívoco que a ação humana aqueceu o sistema climático e que estão ocorrendo mudanças generalizadas e rápidas.
Essa nociva intervenção humana se deu por meio da emissão de gases de efeito estufa originados principalmente pela queima de combustíveis fósseis para geração de energia. No Brasil, também ocorreu por mudanças no uso e cobertura da terra.
TEMPERATURA
Nos últimos 50 anos, a temperatura da superfície global aumentou a uma taxa sem precedentes e, de acordo com os cientistas, é provável que a década mais recente tenha sido a mais quente desde o pico do último período interglacial, há 125 mil anos.
A temperatura da superfície global foi 1,1 ºC mais alta entre 2011 e 2020 do que entre 1850 e 1900, com aquecimento mais forte sobre a terra do que os oceanos, uma vez que eles absorvem gigantescas quantidades de calor.
O relatório do IPCC diz ser provável que as emissões de gases de efeito estufa --principalmente gás carbônico (CO2) e metano-- tenham contribuído para o aquecimento de 1,1 ºC da temperatura.
Em contrapartida, a emissão de aerossóis --partículas em suspensão no ar--, gerados pela queima de combustíveis fósseis, pode ter contribuído com um resfriamento de 0,5 ºC, estimam os autores do relatório.
"Isso significa que os aerossóis, que espalham radiação de volta para o espaço, ajudando dessa forma a resfriar o planeta, estão mascarando um terço do aquecimento atual", afirmou Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física da USP (Universidade de São Paulo) e autor-líder do capítulo 6 do relatório.
Afirmou ele em entrevista à Agência Fapesp: "Se os aerossóis forem retirados, por meio da interrupção da queima de carvão para geração de energia pelas usinas termelétricas e da eletrificação do setor de transporte, que já está ocorrendo no mundo todo, esse mascaramento deixará de existir. Só com isso a temperatura do planeta vai aquecer meio grau nas próximas décadas", disse o cientista.
E completou: “É a primeira vez que um relatório do IPCC enfatiza a relação entre a poluição do ar urbana e as mudanças climáticas globais. Isso é extremamente importante porque 80% da população mundial viverá em cidades até 2050, que sofrerão simultaneamente os impactos das mudanças climáticas e da poluição”.