Internacional

Cabo de guerra: saída dos EUA gera abalo geopolítico

Por Xandu Alves |
| Tempo de leitura: 2 min
Membros do Talibã com a aeronave de ataque leve Super Tucano A-29 da Força Aérea Afegã, fabricada pela Embraer
Membros do Talibã com a aeronave de ataque leve Super Tucano A-29 da Força Aérea Afegã, fabricada pela Embraer

O mundo acompanhou surpreso a retomada do Afeganistão pelo Talibã, grupo fundamentalista islâmico que invadiu Cabul, a capital e mais populosa cidade do país, no último domingo (15).

Após 20 anos da queda das Torres Gêmeas nos Estados Unidos e uma guerra que parecia sem fim entre americanos e o Talibã, a retirada das tropas americanas do Afeganistão e a nova assunção do grupo ao poder pode representar um importante movimento no tabuleiro da geopolítica mundial.

Os líderes do Talibã disseram que haverá uma transferência pacífica de poder para um governo de transição, o que levantou descrença na comunidade internacional.

MODERADO

Na avaliação de Reginaldo Nasser, professor do Departamento de Relações Internacionais da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), há sinais de que o Talibã tenta mudar sua imagem aos olhos do mundo, mas também busca governabilidade interna.

“O Talibã não vai ter vida fácil, porque 75% da população do Afeganistão é rural. Essas pessoas têm uma organização política e cultural tribal. O país não é Cabul”, disse Nasser em live pela internet.

“Lá é um cemitério de todo aquele que quer governar centralizado. Se o Talibã fizer isso, vão cair também. Por isso estão fazendo acordo com os líderes tribais, senão eles não governam.”

PANORAMA MUNDIAL

Na opinião de Héctor Luis Saint-Pierre, especialista em segurança internacional e coordenador do Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais da Unesp (Universidade Estadual Paulista), os EUA nunca conseguiram impor uma democracia no Afeganistão.

Além disso, a saída dos americanos deu-se após anos sem conseguir uma vitória consistente frente aos talibãs, como uma espécie de ‘novo Vietnã’.

“Os EUA não levaram em conta a situação cultural do país, uma cultura embrenhada religiosamente, uma iniciativa tribal na qual é impossível impor uma democracia”.

Além disso, os americanos contavam com uma vitória para sair do país, o que nunca ocorreu. “Os talibãs resistiram, e era o que bastava”.

CHINA E RÚSSIA

Agora, segundo Saint-Pierre, o Talibã se aproxima da China, que manterá sua diplomacia e já reconheceu o regime Talibã.

“É provável que o Afeganistão entre na Organização para Cooperação de Xangai, estrutura asiática e com presença do Oriente Médio. A China ainda pode apoiar financeiramente a recuperação do Afeganistão”, disse ele em podcast da Unesp.

Além dos chineses, a Rússia também se aproximou do Talibã e essas ‘parcerias’ podem balançar a posição americana de ‘xerife do mundo’.

“Do ponto de vista militar, a Rússia tem vendido alguns helicópteros para os talibãs. Tanto Rússia quanto a China deram certo apoio para o Talibã.”

Saint-Pierre avalia que os motivos que motivaram a invasão americana ao Afeganistão nunca foram claros. “Não ter objetivo numa guerra é suicídio, e os EUA entraram nessa guerra sem objetivos muito claros. É basicamente o objetivo interno. O terrorismo deve ser combatido, mas não com uma guerra. Essa não é a forma mais inteligente de combater o terrorismo”.

E conclui: “Mundo está tomando outra dimensão. A tessitura geopolítica do mundo está mudando, potências emergentes disputando espaço, como China e Rússia, e esperamos que leve para um mundo mais pacífico e menos conflituoso”.

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