Entrevista

'Não teve como reconstruir o Afeganistão', diz militar do Vale que combate no Oriente Médio

Por Xandu Alves |
| Tempo de leitura: 12 min
Taubateano Daniel Roman em missão pelo Exército dos EUA na Síria
Taubateano Daniel Roman em missão pelo Exército dos EUA na Síria

Um comboio de viaturas militares do Exército americano em patrulha pela Síria detecta uma provável bomba, e talvez uma emboscada. Ao redor, sírios se escondem em suas casas. Péssimo sinal.

“A gente tem que entender a população e notar o local. Quando a rotina muda, tem que observar tudo”, conta Daniel Roman, 38 anos, ex-lutador de jiu-jitsu que trocou Taubaté pelos Estados Unidos e o Exército americano. “Estou vivendo meu sonho”.

Em entrevista exclusiva a OVALE, ele conta o risco de cumprir missões no Oriente Médio contra o Estado Islâmico e o aprendizado após as batalhas: “O que mais aprendi é dar valor à família”. Confira.

Quem é Daniel Roman?

Nasci e morei até os 24 anos em Taubaté. Sempre gostei de artes marciais e comecei a treinar muito cedo. Nem sabia o que era jiu-jitsu e era difícil treinar, não tinha muita oportunidade, isso lá por 1998. Treinava e estudava em Taubaté e comecei a cursar educação física na Unitau. A partir de 2003 e 2004, comecei a ter o interesse de mudar para os Estados Unidos. O jiu-jitsu crescia muito por lá e os principais campeonatos queriam migrar para lá. As oportunidades eram melhores. Hoje é também, mas está mais saturado.

Paralelo a isso, sempre gostei de polícia. Tentei servir ao Exército no Brasil, mas por excesso de contingente fui dispensado. Prestei concurso para a Polícia Civil e não passei. Treinava jiu-jitsu e tinha o sonho de viver disso, além de ser policial.

Em 2004, uma prima morava em Boston e falou para eu ir para os EUA. Tranquei a faculdade após o primeiro ano e tentei ir para os Estados Unidos, mas não tinha muita informação de como ir morar lá. Quando cheguei ao consulado, a experiência foi horrível e não consegui ir para os EUA. Fui meio sem pesquisar. Não sabia que tinha que convencer o consulado a me deixar ir para o país. Desisti e voltei para a faculdade. Trabalhava como personal trainer e dava aulas de jiu-jitsu.

Desistiu dos EUA?

Em 2008, me formei e voltou a vontade de ir para os EUA. Já tinha mais informação, entendia a burocracia e me preparei melhor. Tive contato com uma pessoa na Flórida. Para meu objetivo, que era o jiu-jitsu, era melhor ir para lá. Consegui tirar o visto e vim para os EUA, em outubro de 2008. Começava do zero, com dificuldade da língua, treinando e com muita dificuldade. Sabia que tinha equipes nos EUA, mas fui independente. Na época era Orkut e MSN e era bem difícil o contato.

O marido da pessoa que fiquei na casa treinava numa academia. Vim com a minha namorada (Carol) e foi bom isso. Porque aqui é bem difícil e tinha dias que eu ficava mal e ela me levantava. Tinha vezes que ia disputar campeonato e tinha que pagar 100 dólares e o dinheiro poderia faltar para a comida. Não foi fácil. Mas era um sonho e eu dava sempre um jeito. Passaram-se muitos anos assim e eu buscava formas de me legalizar.

Foi importante conseguir legalizar?

Nunca fiquei ilegal nos EUA. Mudamos o visto de turista para estudante e durou cinco ou seis anos nesse processo até quando a Carol consegue validar o diploma de fisioterapia. Aí, saiu o green card [visto permanente de imigração].

Já estava bem cansado do jiu-jitsu naquela época. Competi bastante, ganhei campeonatos e tinha trabalhado em academias, e meu sonho estava bem resolvido. Aflorou de novo o sonho de ser policial e pensei em voltar para o Brasil. Não tinha a cidadania americana e era muito difícil ser policial. Estava certo de ir embora quando saiu o green card.

Mas um dia, abro o Facebook e vejo uma foto de um amigo com uma farda militar, descendo um rapel numa torre. Achei estranho porque ele não tinha perfil algum de militar. Falei com ele e me explicou que tinha entrado no Exército americano. Não acreditei. Ele me incentivou a entrar.

Resolveu se recrutar?

Uma semana depois, encontrei com ele e um recrutador na Flórida. Aquilo parecia muito distante para mim, muito ‘hollywoodiano’ para mim. Mas o Exército está sempre recrutando porque precisa de gente. Conheci as regras, os direitos, benefícios, meu compromisso com o Exército e por quanto tempo.

São dois tipos de contrato: período integral para Exército, e aí não pode ter outro trabalho, ou o ‘reserves’ que é o trabalho em tempo parcial e a pessoa pode ter outro emprego. Porém, quando convocado, a pessoa tem que se apresentar. Era full-time e part-time. Isso foi em 2016.

Fiz o ‘reserves’ e pensei em tentar ser policial. Ia ter a minha cidadania americana e poderia ser policial, que era meu objetivo final. Saí de lá com a certeza de que queria entrar no Exército, e meu processo começou.

Como é esse processo?

Fiz provas preparatórias e depois a prova oficial para entrar, que tinha que tirar nota mínima e passei. Estando saudável e tendo a idade, a pessoa entra. Eles falam que servir é um privilégio e muita gente quer entrar, mas não consegue. Passei na prova e eles começaram a investigar a minha vida. Temos que levar muitos documentos e eles voltam 10 anos na sua vida no que chamam de ‘background check’ (verificação de antecedentes). Isso sendo feito, vai fazendo o exame médico e vários exercícios físicos, o que é bem parecido com o Brasil. Esse processo todo, até assinar o contrato, durou uns quatro meses, e tem gente que demora um pouco mais.

E depois que entra?

No Exército, você pode escolher o que quer fazer. Eu falei que gostava de armas, de lutar, de competir, um trabalho nessa linha e pensei na infantaria, mas só tinha para o período integral. Quando fui assinar, apareceram quatro opções e não gostei de nenhuma: motorista, especialista em abastecer veículos, logística de materiais e um tipo assistente de escritório. Não gostei de nenhum. Eles fizeram um update da lista e apareceu ‘combat enginner’. O recrutador me mostrou um vídeo e era o que eu gostava: era combate mesmo, meio SWAT. Assinei meu contrato como engenheiro de combate.

Qual era o trabalho no Exército?

O meu foco é procurar por bombas, explosivos. Bem arriscado. Tenho que ir de um ponto a outro procurando explosivos. Numa estrada, local, rua ou na rota que a gente define para ter a certeza de que não há explosivos e armadilhas.

Vou procurando indícios de explosivos e já achei explosivo dentro de barriga de cachorro, pneu, árvores, garrafas pet. É trabalho que exige muita paciência e dedicação. As missões demoram até 10 horas. É trabalho complexo e gosto bastante, é da linha de frente. Gosto do perigo e da adrenalina, mas um erro pode ser fatal.

Como foi seu treinamento?

Assinando o contrato, vai para o treinamento. É aquele clichê de gente gritando na sua cara, treinamento físico puxado. Isso nem foi o mais difícil, mas sim lidar com o pessoal mais novo. Eu tinha 33 anos na época. Fiz o treinamento básico de combate e isso o transforma em soldado, com conhecimentos básicos de combate e uma cabeça mental mais forte. Aprende um pouco de cada coisa e não fica especialista, mas sai com uma base forte para ir para uma companhia e aí aprender o trabalho de fato. Isso dura 10 semanas de treinamento básico e fiz mais seis semanas da escola de engenharia de combate. Fiz essas 16 semanas de treinamento direto no estado do Missouri. Fiquei isolado sem computador e internet. Só depois de 45 dias pude ter contato com a família, mas só por carta.

Esperei um ano para o ‘background check’ e aí me graduei como soldado em 2017. Voltei para a Flórida e me apresentei na companhia, em West Palm Beach. No meu caso, trabalhava de 2 a 4 dias por mês para o Exército. Foi bem tranquilo.

Quais missões você fez?

Sempre quis fazer missões no Oriente Médio, era um sonho. Eles convocam uma companhia inteira e às vezes abrem vagas para outros soldados de companhias vizinhas. Comecei a me inscrever em todas as listas para missões no Oriente Médio. Uma vez recebi ligação e havia uma missão na Coreia do Sul, por causa da tensão com a Coreia do Norte. Mas o [Donald] Trump [ex-presidente do EUA] foi lá e se entendeu com a Coreia do Norte.

Apareceu outra para o Afeganistão, e não estavam na pior fase e bem longe do que acontece hoje. Coloquei meu nome e fui transferido para outra companhia, em Orlando. Durante o processo, a missão mudou e acabei indo para o Kuwait, que tem uma base americana de transição, que servem para missões em outros países. Fui depois para Iraque e para a Síria, onde tive as maiores missões e experiência. Tenho bastante orgulho de ter vivido isso. Fiz muita missão contra o Estado Islâmico.

Temeu pela vida?

Não pensava tanto nisso. Quando vai sair para a missão, o que podia fazer é trabalhar o melhor possível, mas foge do controle o que vai acontecer. Achamos uma bomba em uma região bem complicada. A gente faz a missão no meio da vida do povo. Tem que achar a bomba e decidir se vai explodir ou não, sem colocar em risco a vida das pessoas.

Tem que preservar a vida, né?

Se cometer um crime, pago por isso. Não pode chegar lá e dar tiros em todo mundo. Há regras e leis. Não somos assassinos, a nossa intenção é fazer o bem. Podemos discutir política depois, mas a intenção é fazer o bem.

E como foi a missão?

Achamos essa bomba em uma região bem complicada e começou a ficar estranho porque a população começou a se esconder, e isso é um péssimo sinal. A gente tem que entender a população e notar as pessoas do local. Quando a rotina muda, a gente tem que observar tudo. A gente fica até meio paranóico. Ficamos meio presos num beco, sem conseguir dar ré no veículo. Era uma bomba, mas não era uma emboscada. Achamos e conseguimos detonar a bomba.

A experiência foi boa como soldado, mas poderia terminar muito mal. Na hora, é bem tenso. E a gente tem sempre um plano, um check-list para cada situação. Mas tem que adaptar, se houver muito trânsito e crianças no local, e lá na Síria tinha muita criança, que corriam muito próximos dos veículos pedindo água e comida.

Quantas missões você fez?

Fiz mais de 30 missões na Síria, de 4 a 5 missões por semana e estava bem ativo contra o Estado Islâmico. Também fiquei perto do rio Eufrates e do outro lado estavam os russos, com aquela tensão. Havia por volta de 15 países naquela região.

Entrou em combate direto?

Não tive troca de tiros em combate, mas recebemos muitos tiros. Estava dentro do veículo que é muito bem blindado. Para responder à ameaça, tenho que identificar o alvo e isso não conseguimos fazer. Se mato alguém lá, posso criar um acidente internacional. A gente não responde esse tipo de ameaça a não ser que identifique o agressor. Meu trabalho era atingir bombas. É uma região muito sofrida, uma região rural da Síria, muito fundamentalista. Mulher se veste toda de preto e um homem pode ter quatro esposas. Foi uma experiência muito boa para mim.

Como você está hoje?

Estou em casa. Voltei em abril e tirei dois meses de férias. Estou seguindo meus planos de me tornar policial. Estou em processo em alguns departamentos para ser contratado, o que demora de seis meses a um ano. Continuo servindo no Exército e me apresento em outubro, e volto para minha companhia inicial.

Geralmente o Exército não manda para outra missão em dois anos. Mexe muito com a cabeça e tive muita dificuldade de me adaptar à vida. Acontece de veteranos terem problema, e é difícil explicar. Você fica perdido e não sabe o que fazer. Fiquei 11 meses fora, com nove meses no Oriente Médio. Quando voltei estava meio esquecido do círculo de amigos. Mas está tudo bem.

Vai ser policiais nos EUA?

Tentando na Flórida e na Polícia Federal. Aqui é como um trabalho qualquer, eles anunciam a vaga e você manda o currículo. Eles selecionam, fazem entrevista e começa o processo. Meu caso é a polícia de imigração, com as fronteiras. As pessoas acham que só há o FBI, mas tem por volta de 80 polícias federais nos EUA. São várias agências. Posso ficar na polícia e ficar no Exército, porque tenho um ano de contrato e até posso renovar. Hoje, tenho planos de continuar e fazer ao menos mais um contrato com o Exército. Eles dão bônus para continuar. Vai depender. Hoje diria que vou continuar.

O salário permite viver nos EUA?

Dá para ter uma vida legal. Eu ganho por dia, por causa do contrato de tempo parcial, e aí não dá para viver só com o Exército, e tem que ter outro trabalho. Se morar na base, não paga nada, como saúde, escola e moradia. Dá para ter uma vida muito boa. Aposenta-se com 20 anos. O meu contrato não dá e tenho que ter outro trabalho.

Casei aqui e ainda não penso em ter filhos. A maioria da minha família está em Taubaté. Meu pai mora em Salvador. Meus pais são separados. Tenho irmão por parte de pai. A gente se fala muito pela internet. Ameniza bastante. Nas missões também eu falava com eles. Ajuda bastante.

O que aprendeu nessa vida de militar americano?

O que mais aprendi é dar valor à família. Não reconhecia muito isso no Brasil. Não percebia o valor disso e senti quando cheguei aqui. É clichê, mas é verdade. Quem vai estar do seu lado quando a situação aperta é a família. Queria ter os meus pais mais pertos para compartilhar os momentos bons, mas eles estão no Brasil.

Após ir para Síria, Iraque e Kuwait, vi que a gente precisa ter muito pouco para viver. Não temos problemas. Problema é o que vi lá. Crianças passando frio e fome, correndo decalças no frio para pegar comida.

E o Afeganistão?

Aqui falo por mim e nada a ver com o Exército, não represento o Exército americano. Acho que tinha que ser retirado mesmo. Era a hora. Os soldados querem estar lá, mas são 20 anos com 2,2 trilhões de dólares gastos. Não teve como reconstruir aquilo, com uma democracia. É uma cultura difícil, fanática, que não aceita a nossa cultura. Os EUA não tira nada de lá.

Talvez o que seja discutível é a forma como esta sendo feito. Parece que não há um plano muito organizado. O Talibã também não cumpriu o acordo que os EUA fez com eles. Os americanos foram saindo e eles entrando. É curioso, mas há um período de outubro a abril que eles não combatem, porque voltam para as plantações na época do frio. Estamos num momento em que eles estão combatendo. O discutível é só como está sendo feito, mas acho que já deu o tempo lá.

Você progrediu no Exército?

Já sou uma espécie de cabo, porque a minha próxima patente é sargento.

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