Cristiane Prizibisczki

Termoelétrica não é energia limpa, São José

Por Cristiane Prizibisczki, Jornalista com 14 anos de experiência na cobertura de temas socio-ambientais |
| Tempo de leitura: 2 min

Parece um contrassenso (e é), mas apenas três dias depois de o Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas da ONU (IPCC) ter lançado seu último relatório, apontando para um colapso climático num futuro muito próximo se não reduzirmos as emissões de CO2, os vereadores de São José dos Campos aprovaram o projeto do prefeito Felício Ramuth que libera o território da cidade para implementação de termoelétricas a gás natural.

O relatório da ONU deixou muito claro que vivenciamos uma emergência, que requer medidas de todos os governos, incluindo os locais, na luta contra as mudanças no clima na Terra.

As manchetes relatando os eventos extremos são cada vez mais constantes. Mesmo os países mais ricos do mundo não têm conseguido controlar a dispersão dos incêndios, que consumiram até à vegetação do Ártico este ano. Enchentes na Alemanha e na Bélgica em julho varreram cidades inteiras e mais de 1.000 pessoas ainda estão desaparecidas. Milhares morreram nas enchentes na China. O Canadá sofreu com temperaturas de 49,5ºC, levando à morte súbita centenas de pessoas, enquanto Santa Catarina registrava -8,5ºC, com sensação térmica de -25ºC.

O que o relatório do IPCC nos alertou foi que este é apenas um gostinho do que realmente está por vir, se não pararmos de jogar gases de efeito estufa na atmosfera. Todas essas mudanças estão acontecendo com um planeta 1,1ºC mais quente. O aumento da temperatura em 1,5ºC, previsto para ocorrer somente na metade do século, adiantou e poderá ser atingido já em 2030, diz o relatório.

A justificativa do prefeito Ramuth para seu projeto foi de que ele precisa garantir o suprimento de energia para os próximos anos e que as outras alternativas mais limpas são inviáveis economicamente.

Mas os custos da energia não podem ser calculados somente no trecho usina – plug da tomada. Ainda que a queima de gás natural seja mais “limpa” que a queima de carvão nas termelétricas, ele não deixa de emitir gases tóxicos que impactam a qualidade do ar local e a saúde da população.

Estudo divulgado em janeiro deste ano pelo WRI Brasil mostrou que a poluição do ar mata mais de 50 mil pessoas por ano no Brasil, com impactos bilionários. De fato, em 2018, outro estudo já alertava que as mortes por poluição entre 2018 e 2025 podem ter custo de R$51,5 bilhões em perda de produtividade e causar 69,4 mil internações no sistema público, ao custo de R$ 126,9 milhões.

São José dos Campos é a 10ª maior emissora de CO2 de SP. Com um grande polo industrial, uma refinaria de petróleo e cortada por uma rodovia de intenso movimento, a cidade já tem o ar bastante poluído.

Ainda que não queiram levar em consideração o cenário global de catástrofe climática, Felício Hamuth e os vereadores de São José precisam ver se estão dispostos mesmo a pagar os custos locais que uma termoelétrica trará. Uma coisa se sabe: não vai sair barato.

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