Clima

‘É um alerta vermelho para a humanidade’, diz Paulo Artaxo sobre mudanças climáticas

Por Xandu Alves |
| Tempo de leitura: 4 min
Alagamentos em Ubatuba por causa das fortes chuvas do início de 2021
Alagamentos em Ubatuba por causa das fortes chuvas do início de 2021

As mudanças climáticas estão no presente, não mais no futuro.

O alerta é do físico Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física da USP (Universidade de São Paulo) e autor-líder do capítulo seis do relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas).

Lançado recentemente, o documento mostra que as mudanças climáticas já estão afetando todas as regiões da Terra. “Os indícios estão aí, basta ver o que está acontecendo com o clima”, disse Artaxo a OVALE. Confira.

Como avalia o relatório do IPCC?

O mais recente traz inovações e alertas importantes e chama a atenção para a vulnerabilidade que muitos países têm, como o Brasil. É realmente um marco na questão das mudanças climáticas globais. É um alerta vermelho para a humanidade de que precisamos, sim, urgentemente e rapidamente, reduzir a emissão de gases de efeito estufa, mudando nosso padrão de vida, nossa maneira de produzir e de consumir energia no planeta.

Quais são as inovações?

Pela primeira vez, o relatório quantifica o impacto que o aquecimento global vai ter na frequência e intensidade de eventos climáticos extremos. Estamos vendo que grandes secas e inundações estão aumentando de frequência e intensidade no mundo todo. Temos isso muito bem documentado hoje. O que observamos é claramente são impactos socio-econômicos muito importantes associados a esses aumentos de eventos climáticos extremos.

O IPCC fez projeções?

Se permitirmos que o aquecimento global atinja quatro graus Celsius ao longo deste século, grandes secas e inundações podem ser 38% mais frequentes do que elas são hope. É um alerta de que isso pode ter impactos socio-econômicos muito importantes.

O sr. é um dos autores do relatório?

Sou um dos autores e líder de um dos capítulos. O que trabalhei é o capítulo seis, uma das inovações do IPCC, que trata da questão de poluição do ar urbana versus a mudança climática global. Hoje, temos países como Brasil com 80% da população que vive em regiões urbanas. Se não encontrarmos maneiras de fazer as cidades mais sustentáveis e reduzir as emissões, tornando as cidades mais eficientes no uso de energias, serviços e transportes e outros, dificilmente vamos encontrar saídas para as mudanças climáticas globais. É importante esse link entre a poluição do ar urbana, que emite aerossóis e tem fortes efeitos na saúde das pessoas, e as mudanças climáticas globais.

Muita gente não consegue entender o que causa o aquecimento global. Como explicar?

Não há a menor dúvida de que já estamos dentro das mudanças climáticas. Não é questão do futuro, mas do presente. Já estamos sofrendo. Veja essas ondas de calor e de frio. Veja o Brasil hoje, a seca na região central vai fazer uma quebra agrícola importante, várias cidades do interior de São Paulo estão praticamente sem água para a população e, ao mesmo tempo, o rio Amazonas tem a maior cheia dos últimos 119 anos. Então, bem-vindo aos eventos climáticos extremos. Enquanto é difícil perceber um aumento médio da temperatura 1,1 ou 1,7 graus centígrados, é muito fácil perceber quando faz 48 graus no Canadá onde nunca havia acontecido nos últimos 120 anos. É fácil de ver na Alemanha onde cidades inteiras foram varridas do mapa quando choveu em um dia o que choveria, normalmente, em um mês. Então, isso auxiliou em muito para a população acordar.

Continua o risco das cidades costeiras serem invadidas pelo mar?

O Brasil tem vulnerabilidades importantes nas mudanças climáticas, como a extensa área costeira e desprotegida do ponto de vista de aumento do nível do mar e de maremotos e eventos climáticos extremos. A previsão do IPCC é de que, dependendo do cenário de emissões que tenhamos até o final do século, podemos ter um aumento adicional do nível do mar até um metro. Isos é preocupante porque traz vulnerabilidades para a nossa costa. Mas o problema maior é a projeção a médio e longo prazo.

O que diz o IPCC?

Pela primeira vez, o IPCC fez projeções de aumento do nível do mar para o ano 2300. Uma vez iniciado o derretimento de grandes massas de gelo da Groelância e das geleiras continentais, a ciência não tem como parar esse processo, que pode provocar um aumento do nível do mar da ordem de 15 metros. Isso pode ter impacto gigantesco.

Muita gente nega o aquecimento. O que diz dessa parcela?

Hoje, nem precisa ser cientista para perceber que o clima está mudando. Minha mãe com 92 anos percebe facilmente. O que se trata é de alguns setores econômicos que podem se sentir prejudicados com políticas públicas de proteção da população e, simplesmente, pagam pessoas para minimizar o problema. O relatório do IPCC envolveu mais de 1.700 cientistas e 18 mil trabalhos científicos analisados, mostram claramente que é indiscutível que o homem está mudando o clima.

E o Brasil?

O agronegócio já acordou para as fragilidades que tem e está investindo em proteção da Amazônia. Não quer ser visto como destruidor de sistema chave para a preservação ambiental. Felizmente, está acordando para as questões das mudanças climáticas.

Desde a Rio-92, o país sempre teve papel de liderança e protagonismo na agenda mundial em vários aspectos, não só na questão climática. Tudo isso foi por terra, por completo. Os ministérios não têm quadro para lidar com demais países e ter a melhor estratégia para o país. Acredito que isso vá ter reviravolta em breve e o país volte a ser respeitado nos cenários internacionais.

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