As mudanças climáticas estão no presente, não mais no futuro.
O alerta é do físico Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física da USP (Universidade de São Paulo) e autor-líder do capítulo seis do relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas).
Lançado recentemente, o documento mostra que as mudanças climáticas já estão afetando todas as regiões da Terra. “Os indícios estão aí, basta ver o que está acontecendo com o clima”, disse Artaxo a OVALE. Confira.
Como avalia o relatório do IPCC?
O mais recente traz inovações e alertas importantes e chama a atenção para a vulnerabilidade que muitos países têm, como o Brasil. É realmente um marco na questão das mudanças climáticas globais. É um alerta vermelho para a humanidade de que precisamos, sim, urgentemente e rapidamente, reduzir a emissão de gases de efeito estufa, mudando nosso padrão de vida, nossa maneira de produzir e de consumir energia no planeta.
Quais são as inovações?
Pela primeira vez, o relatório quantifica o impacto que o aquecimento global vai ter na frequência e intensidade de eventos climáticos extremos. Estamos vendo que grandes secas e inundações estão aumentando de frequência e intensidade no mundo todo. Temos isso muito bem documentado hoje. O que observamos é claramente são impactos socio-econômicos muito importantes associados a esses aumentos de eventos climáticos extremos.
O IPCC fez projeções?
Se permitirmos que o aquecimento global atinja quatro graus Celsius ao longo deste século, grandes secas e inundações podem ser 38% mais frequentes do que elas são hope. É um alerta de que isso pode ter impactos socio-econômicos muito importantes.
O sr. é um dos autores do relatório?
Sou um dos autores e líder de um dos capítulos. O que trabalhei é o capítulo seis, uma das inovações do IPCC, que trata da questão de poluição do ar urbana versus a mudança climática global. Hoje, temos países como Brasil com 80% da população que vive em regiões urbanas. Se não encontrarmos maneiras de fazer as cidades mais sustentáveis e reduzir as emissões, tornando as cidades mais eficientes no uso de energias, serviços e transportes e outros, dificilmente vamos encontrar saídas para as mudanças climáticas globais. É importante esse link entre a poluição do ar urbana, que emite aerossóis e tem fortes efeitos na saúde das pessoas, e as mudanças climáticas globais.
Muita gente não consegue entender o que causa o aquecimento global. Como explicar?
Não há a menor dúvida de que já estamos dentro das mudanças climáticas. Não é questão do futuro, mas do presente. Já estamos sofrendo. Veja essas ondas de calor e de frio. Veja o Brasil hoje, a seca na região central vai fazer uma quebra agrícola importante, várias cidades do interior de São Paulo estão praticamente sem água para a população e, ao mesmo tempo, o rio Amazonas tem a maior cheia dos últimos 119 anos. Então, bem-vindo aos eventos climáticos extremos. Enquanto é difícil perceber um aumento médio da temperatura 1,1 ou 1,7 graus centígrados, é muito fácil perceber quando faz 48 graus no Canadá onde nunca havia acontecido nos últimos 120 anos. É fácil de ver na Alemanha onde cidades inteiras foram varridas do mapa quando choveu em um dia o que choveria, normalmente, em um mês. Então, isso auxiliou em muito para a população acordar.
Continua o risco das cidades costeiras serem invadidas pelo mar?
O Brasil tem vulnerabilidades importantes nas mudanças climáticas, como a extensa área costeira e desprotegida do ponto de vista de aumento do nível do mar e de maremotos e eventos climáticos extremos. A previsão do IPCC é de que, dependendo do cenário de emissões que tenhamos até o final do século, podemos ter um aumento adicional do nível do mar até um metro. Isos é preocupante porque traz vulnerabilidades para a nossa costa. Mas o problema maior é a projeção a médio e longo prazo.
O que diz o IPCC?
Pela primeira vez, o IPCC fez projeções de aumento do nível do mar para o ano 2300. Uma vez iniciado o derretimento de grandes massas de gelo da Groelância e das geleiras continentais, a ciência não tem como parar esse processo, que pode provocar um aumento do nível do mar da ordem de 15 metros. Isso pode ter impacto gigantesco.
Muita gente nega o aquecimento. O que diz dessa parcela?
Hoje, nem precisa ser cientista para perceber que o clima está mudando. Minha mãe com 92 anos percebe facilmente. O que se trata é de alguns setores econômicos que podem se sentir prejudicados com políticas públicas de proteção da população e, simplesmente, pagam pessoas para minimizar o problema. O relatório do IPCC envolveu mais de 1.700 cientistas e 18 mil trabalhos científicos analisados, mostram claramente que é indiscutível que o homem está mudando o clima.
E o Brasil?
O agronegócio já acordou para as fragilidades que tem e está investindo em proteção da Amazônia. Não quer ser visto como destruidor de sistema chave para a preservação ambiental. Felizmente, está acordando para as questões das mudanças climáticas.
Desde a Rio-92, o país sempre teve papel de liderança e protagonismo na agenda mundial em vários aspectos, não só na questão climática. Tudo isso foi por terra, por completo. Os ministérios não têm quadro para lidar com demais países e ter a melhor estratégia para o país. Acredito que isso vá ter reviravolta em breve e o país volte a ser respeitado nos cenários internacionais.