Ideias

Os cínicos mal informados

Por Rodrigo VieiraJornalista em São José dos Campos |
| Tempo de leitura: 1 min

Não me surpreendo mais com o cinismo. Mas a afetação bate no fígado. Não menos impressiona a capacidade de autoenganação sobre a realidade, o outro, sobre nós mesmos e as relações intersubjetivas mais cotidianas.

Confiantes, o desenvolvimento nos empurra para o caudilho: Você é o empreendimento de si mesmo e o outro é tão ameaçador e inóspito que a inação é o antígeno da experiência. Ah, Vygotsky! Quanta teoria em vão se vivesse a liberdade do sujeito-mercadoria, espoliado até o âmago do mais íntimo pensamento ou de qualquer linguagem ou sensibilidade.

Quanto favor fizeram às periferias os restos da escravidão e do liberalismo, exércitos infinitos de mão de obra contingente, barata porque desqualificada, ávida pela oportunidade em troca de algumas horas de espoliação intermitente. Afinal, quem sabe manda, quem não sabe obedece, já dizia La Boétie ainda no século 16.

Nada que esteja ruim que não possa piorar.

O povo sul-africano venceu o Apartheid rumo à modernidade rendendo-se à institucionalização do trabalho 'sem patrão', tão ou mais predatório que o regime anterior. Vivemos um tipo de cinismo semelhante, com toque ainda mais esquizofrênico ao estilo da piada que fazemos de tudo, até da própria tragédia. Acostumar-se ao cinismo é isso: o brado de um povo que insiste numa épica teológica (inferno-purgatório-paraíso) na qual o desenvolvimento vencerá e, um dia, enfim, chegaremos lá, enquanto seguimos cínicos e mal informados, porém obedientes e bem-educados, exemplo de povo acolhedor..

Comentários

Comentários