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Crítica: espetáculo 'Big Bang', por Rodrigo Morais Leite

Por http://www.ovale.com.br |
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Big Bang
Big Bang

Quando Rigor Formal e Riqueza Enunciativa se Conjugam

Rodrigo Morais Leite

Se há um adjetivo que poderia definir o espetáculo “Big Bang”, pelo menos enquanto projeto, é o de ambicioso, na medida em que procura condensar toda a história universal em 60 minutos, o tempo estimado da representação. Levando-se em consideração que no seu escopo (quase) não há lugar para a fala, o empreendimento se mostra ainda mais desmedido, pois abdicar dela é abrir mão de um importante elemento narrativo.

Alguém poderia objetar, com razão, que um projeto dessa natureza não é nenhuma novidade no campo das artes, citando a título de exemplo um filme como “2001: Uma Odisseia no Espaço” (1968), de Stanley Kubrick. É verdade. Porém, no tocante a essa obra cinematográfica, o diretor privilegiou apenas dois momentos extremos da trajetória humana, a pré-história e a conquista do espaço, separados por uma elipse que é das mais famosas do cinema. Em relação a “Big Bang”, como o título adianta, a pretensão narrativa seria ainda maior, por querer abarcar não somente a história humana como a de todo o universo.

Tudo isso, é claro, em princípio, uma vez que a arte não possui limites pré-determinados, desde que feita com dedicação, talento e honestidade de propósitos. É o caso, acredita-se, de “Big Bang”, obra da Cia Truks (São Paulo).

Dividido episodicamente em quadros, cada qual introduzido por um título, na primeira parte do espetáculo, inserido na seara do teatro de animação, tem-se a criação do cosmos, do sistema solar e do planeta Terra. Nessa etapa inicial, representando eras muito anteriores ao surgimento do ser humano, os bonecos ainda não assumem o primeiro plano da cena, algo reservado às etapas posteriores. Manipulando objetos que representam planetas, estrelas e asteroides, por meio de uma vara a eles acoplada, a primeira parte de “Big Bang” se diferencia das demais em razão de os manipuladores, escondidos atrás de uma cortina preta, não aparecerem.

A partir do momento em que o ser humano surge na história, e a bonecaria adquire maior relevo, a forma de manipulação também se altera, com os manipuladores presentes em cena enquanto realizam seu “métier” – que também inclui, vale ressaltar, um significativo trabalho de atuação propriamente atoral. Isso se dá em virtude de os atores e atrizes que operam os bonecos interagirem com eles, valendo-se, para isso, de grunhidos, onomatopeias e, principalmente, das expressões faciais.

Outro item significativo tem a ver com o fato de a manipulação, em diversos momentos, ser múltipla, com cada boneco exigindo até três manipuladores para a sua animação. Isso confere um grau muito maior de dificuldade ao ato, cuja perfeita sincronia é condição primordial para que o seu efeito cênico adquira o devido valor. Para além dos bonecos, “Big Bang” também contempla a manipulação de objetos, que nem sempre pressupõe uma forma animada, isto é, a dotá-los de uma determinada “anima” (alma em latim). Na maioria das vezes, seu manejo visa a configuração de uma imagística concreta da cena, de cunho poético-simbólico e que, portanto, prescinde da animação propriamente dita.

Isso se verifica em certas passagens como, por exemplo, a da multiplicação da humanidade, a do dilúvio e outras, que adquirem forma teatral por intermédio de manipulações bastante sugestivas, servindo-se de objetos como um regador, uma bacia d’água ou mesmo alguns sacos plásticos.

Retomando o debate em torno da dramaturgia, importa informar que, se na primeira parte prevalece a narrativa da criação do universo, e na segunda, quando o “homem” surge, a narrativa dos passos iniciais da humanidade, nas etapas posteriores “Big Bang” vai adquirindo uma atmosfera cada vez mais abstrata, no sentido de abandonar a narrativa em prol de certas reflexões como o “homem moderno” ou o “homem mais moderno”. O motivo que explicaria essa trajetória “abstracionista” diz respeito à amplitude do projeto diegético apontado mais atrás, que não permite, a partir de um certo ponto, manter uma linha cronológica baseada em fatos históricos, sob pena de o espetáculo se tornar muito extenso. Ainda que episodiado ao máximo, com enormes saltos temporais, a opção nos quadros derradeiros, perfeitamente válida, é pelas grandes sínteses filosóficas, por assim dizer, com as consequências cênicas já explicitadas.

Com efeito, se o homem moderno surge como aquele capaz de derrotar as superstições próprias da Idade Média, o que parece sugerir a cena dos sacos, ele ao mesmo tempo se torna um ser coisificado e espoliado com o advento do capitalismo, tal como aparece na passagem paralelística entre dois bonecos, um ostentando uma placa escrita “vende-se” e o outro trajado como um mendigo. Em relação ao homem mais moderno, que seria, no caso, o contemporâneo, o mote encontrado para alegorizá-lo visualmente foi introduzindo-o no mundo virtual representado pela televisão, que é, sem dúvida, uma das marcas desse período no qual a realidade e os seus inúmeros “simulacros” eletrônicos se confundem.

Estreado em 2006, a partir de uma remontagem de um espetáculo anterior chamado “Histórias do Mundo”, “Big Bang” confirma a excelência do grupo paulistano em seu campo de pesquisa, conjugando harmoniosamente rigor formal com riqueza enunciativa.

Rodrigo Morais Leite é doutor e pós-doutorando em Artes Cênicas pela Unesp, com pesquisas desenvolvidas nas áreas de crítica teatral e história do teatro brasileiro. Lecionou Teoria Teatral na Escola Livre de Teatro de Santo André (ELT) e na Escola Viva de Artes Cênicas de Guarulhos. Atuando como curador, crítico ou mediador, participou de diversos festivais e mostras de teatro.

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