Inconsciente oceânico
Valmir Santos
A mais recente criação do Grupo XPTO estimula o público a navegar pelo admirável, por vezes assustador e desconhecido universo do inconsciente. “Oroboro” sonda mistérios da psique humana por meio das formas animadas desdobradas, principalmente, daquilo que brota da natureza, como as cabaças, ou de objetos extraídos do mundo ordinário das pessoas e das coisas, como um triturador de carne manual. A dança dos manipuladores atuantes mostra que é mesmo infinita a margem de invenção para simbolizar bonecos.
Essa materialidade, por sua vez, abre clareiras na narrativa não-verbal para mitologias. Elas ocupam o imaginário da plateia, cujas biografias foram como que reunidas ao acaso para experienciar o trabalho daquela noite no Centro de Estudos Teatrais. Nesse jogo de caos aparente, sonoridade, luz, imagem e corpo imprimem sensações às vezes turvas, noutras desanuviadas, ao sabor das aventuras do náufrago que é atacado em seu barquinho, em alto-mar, por um bando de urubus.
Acossado, o sujeito se atira nas águas para escapar e, ao que parece, alcança uma ilha. Lá, ele encontra outras figuras ou forças antagônicas que evocam o espírito dos tempos belicosos, a imagem do ovo da serpente que choca o obscurantismo, a devastação ambiental do planeta e uma coreografia evocativa dos povos originários, entre outras passagens e paisagens de múltiplas leituras. Nessa travessia, a dramaturgia adquire tons mais oníricos, reafirmando o caráter aberto da obra.
É possível divisar, por exemplo, remissão indireta ao legado da médica alagoana Nise da Silveira (1905-1999). Quando criou ateliês para que os pacientes praticassem terapia ocupacional num centro psiquiátrico do Rio de Janeiro, em 1946, combatendo os agressivos métodos de tratamento da época, ela comprovou, cientificamente, como trabalhos manuais e atividades artísticas reorganizavam a psique humana.
Nise da Silveira aferiu que a comunicação com o esquizofrênico, nos casos graves, terá um mínimo de probabilidade de êxito se for iniciada no nível verbal das relações interpessoais. “É aí que particularmente se insere a terapia ocupacional, oferecendo atividades que permitam a expressão de vivências não verbalizáveis por aquele que se acha mergulhado na profundeza do inconsciente, isto é, no mundo arcaico de pensamentos, emoções e impulsos fora do alcance das elaborações da razão e da palavra. O exercício de atividades poderá adquirir importante significação. Em vez dos impulsos arcaicos exteriorizarem-se desabridamente, lhes oferecemos o declive que a espécie humana sulcou durante milênios para exprimi-los: dança, representações mímicas, pintura, modelagem, música. Será o mais simples e o mais eficaz", argumentou a psiquiatra, conforme se lê no site da mostra “Nise da Silveira - Vida e Obra”.
Não foi à toa que, a partir dos desenhos dos pacientes dela que recebeu, o colega suíço Carl Gustav Jung (1875-1961) se convenceu de que a mente perturbada, fragmentada, possui “um potencial reorganizador e autocurativo que se configura sob a forma de imagens circulares denominadas mandalas”.
O mito do monstro que se devora pela própria cauda, expressado no título do espetáculo em análise, também pressupõe uma circularidade, só que interrompida. Como os mitos são manifestações originais da estrutura básica da psique, “Oroboro” abre seu roteiro com a desestabilização de um sistema em equilíbrio, digamos assim, e o reestrutura em seu desfecho. Porém, está longe de encaminhar solução: posta o homem e a fera mirando-se nos olhos um do outro, em suspenso para o próximo bote ou prestes a consentir em ponto pacífico.
Esse convite a tatear o insondável por meio de imagens e sonoridades abstratas ou figurativas – o violão e a voz ao vivo contracenam à altura da plasticidade poética erguida em perspectiva – não impede o infiltramento pela realidade mais premente. Como ocorreu na aterrorizante sequência em que os moedores de carne evoluem como uma tropa militar e o atrito de seus “corpos” (em ferro fundido) com a mesa cênica remete às sequelas de uma democracia subjugada à opressão militar.
Fundadores do XPTO, em 1984, Osvaldo Gabrieli (diretor, cenógrafo, bonequeiro e iluminador) e Beto Firmino (diretor musical) primam pelo impacto da visualidade combinada à abordagem sociopolítica em seus espetáculos. Exemplos de “Buster - O Enigma do Minotauro” (1997) e de “Lorca - Aleluia Erótica em 38 Quadros e 1 Assassinato” (2007).
No atual, que atraiu gente de todas as idades na sessão integrada ao Festivale, a sofisticada execução do aparato cenotécnico não ofuscou a dificuldade dos atuantes em consubstanciar a manipulação de objetos e bonecos à extensão de suas próprias fisicalidades. Houve momentos em que vazou luz externa para o espaço cênico, mas não se trata apenas das faces, visualizadas ou não, e sim de efetivar a carnalidade presumida por trás da neutralidade dos figurinos pretos. Quando usamos o substantivo dança lá em cima, foi porque ela já está desenhada no quarteto de cena composto por Bruno Caetano, João Bernardes, Ozamir Araújo e Tay Lopez, porém ainda não se instala com a plenitude que a complexidade desse projeto de formas animadas ousa propor.
PS: Em tempo, o nome do grupo foi pinçado de “Rasga Coração”, derradeira peça de Oduvaldo Viana Filho, o Vianinha, que estreou em 1979, cinco anos após sua morte e igual tempo de censura do texto pela ditadura civil-militar. No enredo, o personagem Lorde Bundinha lançava mão da expressão “XPTO London”, gíria dos anos 1920 e 1930 para designar coisa de qualidade, à maneira de “bacana” ou “legal”. Em grego, esse nome sonoro, capcioso e sugestivo de sigla enigmática quer dizer Cristo. Tantas ambiguidades seduziram os fundadores.