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Sai a babá, entra a professora: educação infantil em evolução

Por Paula Maria Prado |
| Tempo de leitura: 5 min
Portrait of diligent schoolkids and their teacher talking at lesson
Portrait of diligent schoolkids and their teacher talking at lesson

“Crianças são sujeitos ativos, que constroem seus saberes interagindo com as pessoas e culturas do seu tempo histórico. Nessas relações, elas exercem seu protagonismo e, assim, desenvolvem sua autonomia - fundamentos importantes para um trabalho pedagógico que respeita suas potências e singularidades. Nas interações com culturas e saberes, elas constroem suas identidades suas preferências e seus modos de ver o mundo”.

Essa é a concepção da BNCC (Base Nacional Comum Curricular), que reafirma a concepção trazida pelas Diretrizes Curriculares da Educação Infantil. Segundo o documento, a criança tem direito a brincar, explorar, conhecer-se, expressar, conviver com outras crianças e participar de atividades. Mas nem sempre foi assim.

A forma como a educação infantil é pensada e estruturada é recente. Em seus primórdios, ela era mais atrelada a cuidados (creches) do que tratada como uma etapa educativa. A ideia era de que as mães tivessem tempo para trabalhar enquanto alguém - a babá - pudesse ficar com a criança, limpá-la e alimentá-la.

Foi apenas no final do século 19 que a chamada primeira infância passou a ser percebida e debatida e a criança vista como alguém ainda não preparado para o mundo. E, até a década de 1980, esta etapa recebia o nome de pré-escola, ou seja, preparatória para a escolarização, fora da educação formal. Foi a promulgação da LDB (Lei de Diretrizes e Bases), em 1996, que a Educação Infantil passou a ser parte integrante da Educação Básica, situando-se no mesmo patamar dos ensinos Fundamental e Médio.

A LDB de 2006, aliás, antecipou o acesso da criança com 6 anos de idade ao Ensino Fundamental. Em 2013, a presença de crianças de 4 e 5 anos na escola tornou-se obrigatória.  “Não há como falar de direitos sem incluir uma educação de qualidade desde o nascimento”, cravou Maria Terezinha Ribeiro de Barros Leite, diretora da Escola Walter Fortunato, de São José dos Campos.

“Não há dúvidas quanto aos avanços alcançados desde a visão assistencialista que se tinha da educação, depois passando pela fase da custódia, até surgir a preocupação com a função educacional”, continuou. Mas, afinal, a educação infantil é reflexo de uma demanda social ou da profissionalização daqueles que já cuidavam de crianças?

Para Maria Aparecida Lucas de Oliveira, diretora administrativa e proprietária do CEC e Gláucia Roxo Ribeiro, diretora pedagógica da escola, este é um reflexo de uma demanda da evolução da sociedade, dos conhecimentos da medicina, sociologia, pedagogia e, mais, recentemente da neurociência, mostrou todo o potencial de desenvolvimento da criança na primeira infância e sua importância para os anos seguintes.

“Isso exigiu uma profissionalização daqueles que cuidavam dessas crianças que passaram a ter que entender o seu desenvolvimento nas diversas áreas: motora, linguagem, cognitiva, afetivo, social. Hoje com a Nova Base Curricular Comum, o foco passa a ser o desenvolvimento de competências e habilidades, o que exige uma nova maneira de dar aula e consequentemente formação dos profissionais”, afirmam.

Evolução.

Ainda em fase de evolução - uma vez que tudo é novo quando se trata da educação infantil - são vários os desafios enfrentados por ela. O primeiro deles é a heterogeneidade das crianças, tanto no aspecto físico, quanto na aquisição da fala e no repertório social e cognitivo. “O professor deve ter um olhar aguçado para proporcionar intervenções para cada aluno, para que todos, de acordo com suas características individuais se desenvolvam”, disse Maria Aparecida.

Outro desafio é lidar com “conflitos” comuns da primeira infância. “A criança vê o mundo de acordo com a sua perspectiva. Colocar-se no lugar do outro (empatia) é um aprendizado. Por isso que temos ocorrências de mordidas, empurrões, choros e manhas nesse período escolar. É um caminho longo no processo de socialização e autonomia que a criança deverá percorrer”, continua Gláucia.

Saber o que de fato é importante nessa fase do desenvolvimento também gera debates. “Existe muitas vezes um exagero em relação à apresentação de conteúdos acadêmicos em detrimento de outras atividades. A criança precisa brincar com os amigos, no parque, na quadra, no tanque de areia, na sala e em outros locais. Ela precisa experimentar hipóteses”, concordam Maria e Gláucia. “Acredito que o universo infantil ficou um pouco negligenciado ao longo dos últimos anos e a criança foi obrigada a cumprir uma agenda pedagógica cansativa e desnecessária”.

Futuro.

Para Maria Clotilde Rossetti Ferreira, pesquisadora e professora emérita da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da USP (Universidade São Paulo), a BNCC trouxe contribuições positivas, apesar de ainda necessitar de um aperfeiçoamento. 

“Em todas as outras idades, o ensino é dado por áreas, como linguagens, matemática. E conseguiram romper isso na educação infantil e criando áreas de experiências e colocando a brincadeira como algo central. Eu acho que ela pode ser aperfeiçoada, mas não é só ela. Agora tem que ir para as instituições, que vão ter de se apropriar da base e traduzir na sua prática. Esse é o grande desafio nesse momento: trazer isso que está posto para um país tão diverso como é o nosso”, disse à Rádio USP.

Interferências de questões atuais, como o uso da tecnologia ou mesmo debates sobre o ensino domiciliar, também têm preocupado educadores. “Uma coisa é um filho cujos pais tenham acesso continuamente a livros e está continuamente lendo. Outra coisa são aqueles que não têm acesso a nada disso. A escola é onde se tem alguma possibilidade da família superar essa desigualdade e ter algum acesso a cultura.

Então entendo que seja este um discurso da classe média, mas mesmo assim, não sei o quanto seria bom para a criança sob o ponto de vista da socialização. Acho um debate ainda mais problemático dada a absoluta desigualdade do país. Como se o Estado tirasse dele a responsabilidade de oferecer a educação”, afirmou Maria Clotilde.

Já sobre a tecnologia, para a pesquisadora, é preciso ter cuidado. “Eu tenho contato com muitos avós e vários reclamam que perderam o contato com os netos, já que eles ficam vidrados no celular”, disse a pesquisadora. “Então acho que o excesso de tecnologia é prejudicial. O problema é que muitos pais trabalham muito e acreditam que ceder algumas coisas aos filhos é uma forma de compensação. Mas, sem dúvida, é preciso ter limites”.

Confira abaixo alguns direitos de aprendizagem que toda criança possui: 

Saiba mais sobre os direitos de aprendizagem

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