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Escassez de máquinas e suprimentos para realização de diálise provoca crise na saúde dos Estados Unidos

Por Agência O Globo |
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Pessoas na Times Square em Nova York.
Pessoas na Times Square em Nova York.

Por semanas, funcionários do governo dos Estados Unidos e executivos de hospitais alertaram sobre uma escassez iminente de ventiladores. Mas agora os médicos estão soando um alarme sobre uma crise inesperada e negligenciada: um aumento nos pacientes com Covid-19 com insuficiência renal, que está levando à escassez de máquinas, suprimentos e funcionários necessários para diálise de emergência.

Nas últimas semanas, médicos na linha de frente em unidades de terapia intensiva em Nova York, e em outras cidades atingidas, descobriram que a Covid-19  não é apenas uma doença respiratória que levou a uma demanda esmagadora por ventiladores. A doença também está afetando severamente os rins de alguns pacientes, apresentando mais um desafio para os médicos, que precisam transportar um suprimento limitado de máquinas especializadas em diálise de um paciente para o outro.

Ainda não se sabe se os rins são um dos principais alvos do vírus ou se são apenas mais um órgão que é afetado. A diálise preenche os papéis vitais que os rins desempenham, limpando o sangue de toxinas, equilibrando componentes essenciais, incluindo eletrólitos, mantendo a pressão arterial sob controle e removendo o excesso de líquidos. Pode ser uma medida temporária enquanto os rins se recuperam ou pode ser usada a longo prazo. Também não se sabe ainda se os danos nos rins causados ??pelo novo coronavírus são permanentes.

"Os nefrologistas da cidade de Nova York estão ficando assoberbados, certificando-se de que todos com insuficiência renal recebam tratamento", diz David Goldfarb, chefe de nefrologia do campus de Nova York do sistema de saúde VA Harbor New York. "Não queremos que as pessoas morram por diálise inadequada".

A crescente demanda em todo o país por tratamentos renais também está desgastando as unidades de atendimento de hospitais em locais como Boston, Chicago, Nova Orleans e Detroit.

Especialistas renais estimam que de 20% a 40% dos pacientes de UTI com coronavírus sofreram insuficiência renal e precisaram de diálise de emergência, de acordo com Alan Kliger, nefrologista da Faculdade de Medicina da Universidade de Yale.

À medida que o coronavírus se espalhava rapidamente em Nova York e em outras cidades, governadores e prefeitos clamavam por mais ventiladores. Mas os médicos ficaram surpresos com a escassez de máquinas e suprimentos de diálise, especialmente equipamentos especializados em diálise contínua. A escassez envolveu não apenas as máquinas, mas também fluidos e outros suprimentos necessários. Ter enfermeiros treinados também representou um gargalo. Os hospitais disseram que pediram ao governo federal que ajude a priorizar equipamentos, suprimentos e pessoal para as áreas do país que mais precisam.

Os fluidos necessários para operar as máquinas de diálise não constam da lista de observação da Food and Drug Administration (FDA) sobre possíveis carências de medicamentos, embora a agência tenha dito que estava monitorando o cenário de perto. A Agência Federal de Gerenciamento de Emergências descreveu a escassez de suprimentos e equipamentos como "sem precedentes" e disse estar trabalhando com fabricantes e hospitais para identificar suprimentos adicionais nos Estados Unidos e no exterior.

"Todo mundo pensava nisso como uma doença respiratória", observa David Charytan, chefe de nefrologia do NYU Langone Medical Center. "Não acho que isso estivesse no radar das pessoas".

O volume de pacientes que necessitam de diálise é "três vezes maior que o número de pacientes que normalmente necessita deste procedimento", diz Barbara Murphy, presidente do departamento de medicina do Sistema de Saúde Mount Sinai.

Michael Ross, chefe da divisão de nefrologia do Sistema de Saúde Montefiore em Nova York, disse ter falado ao telefone, no domingo passado, com os líderes de uma empresa que produz suprimentos de diálise, "expressando o quão crítica é a situação para os pacientes".

Os dois principais fabricantes de equipamentos e suprimentos para diálise alegaram que os pedidos aumentaram cinco vezes e que estão aumentando a produção. A Baxter, com sede em Illinois, disse que também viu um aumento na demanda da China e da Europa.

Andrew Cuomo, governandor de Nova York, foi questionado, na última quinta-feira, sobre a falta de máquinas de diálise. O comissário de saúde do estado afirmou não haver uma "escassez generalizada". Em uma declaração, José Almeida, executivo-chefe da Baxter, disse que a empresa estava tentando priorizar a entrega de produtos "onde eles são mais necessários".

Joshua Rosenberg, médico assistente na unidade de terapia intensiva do Brooklyn Hospital Center, disse, na última quinta-feira, que uma ampla gama de pacientes estava tendo lesão renal aguda. Mais de uma dúzia dos cerca de 240 pacientes do hospital em sua clínica de diálise ambulatorial morreram de Covid-19, de acordo com a Dra. Priyanka Singh, uma das nefrologistas do hospital.

Alguns hospitais de Nova York, incluindo NYU, Montefiore e Weill Cornell, passaram a realizar a diálise peritoneal (técnica que utiliza a membrana peritoneal). É normalmente usado em pacientes com doença renal crônica que desejam se tratar em casa. O tratamento nem sempre é ideal em pacientes hospitalares, especialmente naqueles cujas condições são menos estáveis.

Alguns hospitais também estão lutando para encontrar enfermeiros e técnicos suficientes para fazer diálise. "Perdemos profissionais por causa da doença", disse Murphy, do Monte Sinai.

Os médicos afirmam estar lutando para garantir que os pacientes que necessitam de cuidados imediatos o recebam enquanto avaliam se outros podem esperar. "Agora temos que pensar se um determinado paciente realmente precisa ou não e se podemos gerenciá-los com medicamentos no lugar da diálise para podermos fornecê-la a quem precisa dela urgentemente. Essas não são decisões de que gostamos de tomar", conclui Michael Ross, de Montefiore.

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