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Crítica: espetáculo "Existo", por Julia Guimarães

Por http://www.ovale.com.br |
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Festivale - Existo
Festivale - Existo

Ensaios sobre a diferença

Julia Guimarães

Endereçado ao público infanto-juvenil, o espetáculo “Existo”, da Cia. La Leche (SP), ajuda a ampliar o imaginário daquilo que se espera de uma obra para espectadores dessa idade. No lugar de trabalhar com musicalidades comumente associadas à infância, investe em uma trilha sonora instrumental e eletrônica. No lugar de colocar em cena atores adultos com maquiagem e figurino de criança, aposta no jogo com as convenções e na emancipação imaginativa dos pequenos. No lugar de eleger temáticas que subjugam a capacidade reflexiva dessa faixa etária, aborda um assunto delicado e urgente: o questionamento sobre as normas que definem diferenças entre ser menina e ser menino.

Na obra dirigida por Cris Lozano e escrita por Alessandro Hernandez – que também divide a cena com Ana Paula Lopez –, acompanhamos a história do garoto Luan, que vive no alto de uma torre na companhia da mãe. Enquanto brinca com suas longas tranças e sonha em usar um dos vestidos presentes no cenário da peça – em referência à profissão da mãe, que é costureira – o protagonista ensaia formas de estar no mundo que não se limitam às identidades normativas de gênero.

Na dramaturgia de “Existo”, há um investimento na sutileza da abordagem temática, sobretudo no que se refere ao processo de autoconhecimento de Luan e às descobertas de sua mãe sobre como lidar com o assunto. Ao compor figuras que duvidam, têm receio de se expor e necessitam de tempo para elaborar as relações entre subjetividade, alteridade e diferença, o espetáculo se afasta de tratamentos cristalizados acerca de protótipos como a “mãe” e a “criança” para valer-se de personagens construídas em maior proximidade com a dimensão vulnerável da própria vida.

Uma situação recorrente trabalhada no espetáculo que exemplifica essa perspectiva diz respeito ao modo como a mãe se desconcerta corporalmente quando reage a certas perguntas e comentários do filho, de difícil resposta. É o caso da cena em que Luan manifesta o desejo de usar vestido ou quando pergunta por que existe um banheiro para meninos e outro para meninas, quando, no “mundo dos jacarés”, não haveria essa separação.

O próprio confinamento do garoto no alto de uma torre, onde estaria escondido dos olhares de julgamento que observa nas pessoas do seu “povoado” – projetado na dramaturgia como se fosse a própria plateia – expõe as dificuldades sociais relativas à sua condição identitária. Pois ainda que incentive o filho a existir do modo que desejar, a mãe titubeia diante do risco da exposição da diferença. Dilema parecido vive Luan, ao notar que precisa elaborar a própria existência para afirmá-la publicamente diante dos demais.

Nesse sentido, as metáforas construídas na peça conferem a poesia e a profundidade que o tema merece. Por exemplo, quando a mãe propõe que o filho espere o brotar das jabuticabas para usar vestido, sair à cidade e conviver com o povoado, em uma analogia que entrelaça o amadurecimento pessoal das personagens ao das jabuticabas do jardim. Ou, ainda, dos conselhos recebidos pelos bichos que visitam Luan em sua torre, como a sugestão da lagartixa para que ele deixe de se preocupar com o que as pessoas pensam ao seu respeito.

Nessa construção simbólica, vale destacar o diálogo da peça com a própria noção ameríndia do “perspectivismo”, que diz respeito ao modo essencialmente relacional como humanos, animais e espíritos veem-se a si mesmos e aos outros seres do mundo. Dentro dessa ótica, muito comum em comunidades indígenas brasileiras, é a própria noção de natureza que surge como algo transitório, alterada de acordo com a relação entre quem olha e quem é visto. Já na peça da Cia. La Leche, haveria uma conjugação entre a dimensão relacional da subjetividade e nossos próprios desejos existenciais. “Já fui pombo, outro dia eu fui uma menina e hoje acho que sou um menino”, constata Luan. “Eu sou o que nos olha. Para a lua, sou uma formiguinha e para a minha mãe, uma criança”, completa.

Em um país no qual a liberdade e diversidade de gênero tem sido alvo de ataques diários não apenas por parte de diferentes grupos sociais, mas também por aqueles que atualmente ocupam os mais altos escalões do poder, um espetáculo como “Existo” torna-se imprescindível, ao conceber a identidade como reduto para infinitas possibilidades.

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