"O sertão está dentro da gente", dizia Guimarães Rosa. Autor de "Grande Sertão: Veredas", um dos clássicos da literatura brasileira.
Rosa expôs uma atmosfera na obra em que seus personagens se desenvolvem com tamanha intensidade, naturalidade e força que chegam a se misturar com o cenário em que são retratados.
Na adaptação da diretora Bia Lessa, "Grande Sertão: Veredas" se despe de qualquer recurso cenográfico para mostrar a essência do sertão particular. Encenado na abertura do 34º Festivale, festival de teatro em São José dos Campos, "Grande Sertão: Veredas" despertou a atenção do público para a imensidão do que o sertão representava para Guimarães Rosa.
"O texto diz que o sertão está dentro de nós porque cada um temos uma travessia pessoal, um caminho de descobertas e auto conhecimento. A ideia do sertão é de um lugar em que os homens precisam se organizar e fazer a própria lei. E isso pode ser em qualquer lugar hoje no ano 2019", afirma Caio Blat, em entrevista a OVALE.
Na peça, a trama é narrada pelo protagonista Riobaldo, interpretado pelo ator Caio Blat, que apresenta um relato sobre sua vida de jagunço, seus medos, amores, traições e desejos. Em uma terra sem lei, Riobaldo luta contra seus inimigos ao lado de Diadorim (Luiza Lemmertz). "O conceito de Guimarães Rosa também se aplica no sentido de encontrarmos humanidade e amor em nós mesmos mesmo no meio de tanta precariedade e violência", completa Blat.
Outro destaque da obra é a linguagem singular utilizada pelos personagens, que transmitem regionalidade em cada palavra.
"Por incrível que pareça, a linguagem do Guimarães, tida como difícil, uma vez falada em voz alta e em fluxo se torna algo fácil, quase como uma música. As frases nos levam a uma musicalidade, elas têm um ritmo próprio e, quando se consegue um entendimento do que ele quer dizer, fica estranhamente fácil de ser dito", conta a atriz Luiza Lemmertz.
CENÁRIO.
A peça é uma mistura de dramaturgia e instalação. Ao invés de retratar o sertão com representações visuais clássicas, "Grande Sertão: Veredas" monta uma cena neutra.
"Nós como atores não temos nenhum tipo de apoio ao criar esse sertão para o espectador. Ele é mesmo criado em conjunto, pois a imaginação de quem nos assiste precisa estar ativa para criar esse sertão", disse a atriz Luiza Lemmertz.
FESTIVALE.
O festival segue até o dia 8 de setembro. Nesta terça-feira, o sertão volta a ser tema na peça "Auto da Compadecida", texto adaptado de Ariano Suassuna pelo Grupo Maria Cutia de Teatro. A peça será encenada às 21h, no Teatro Municipal.