Potencialidades tateantes
Daniele Avila Small
A apresentação de "Ponto Gatilho" da Cia das Máculas, realizada no CET na primeira sessão da meia-noite do 34ª Festivale e o debate que se seguiu ao espetáculo sinalizam um aspecto importante da realização de festivais de teatro: a formação e o fomento da produção local. Assim como é importante a passagem de peças de outras cidades, a inserção de novos artistas locais no circuito também pode ser parte da política pública que constitui um festival.
"Ponto Gatilho" tem, ao mesmo tempo, uma experimentação tateante da linguagem e uma aposta firme na escolha temática. O trabalho com depoimentos sobre situações vividas, feitos na primeira pessoa do singular, ou mesmo o relato de fatos que não são biográficos, mas que afetam diretamente a pessoa do ator ou da atriz, demandam um investimento vertical na elaboração da linguagem e na técnica de atuação. O apelo do real, a sensação de que um relato já tem uma força poética só por ser verdadeiro pode ser uma cilada.
A peça conta com a legitimidade que Rafa Soares e Antônio Antunes têm para abordar os temas, pois estão compartilhando histórias constitutivas das suas subjetividades, e com estratégias interessantes na dramaturgia (tanto textual quanto visual) do espetáculo. Mas o trabalho ganharia mais força com um pouco mais de precisão e firmeza na execução das suas ideias, com um trabalho dedicado sobre a presença dos atores, com a propriedade de ocupar para valer o tempo e o espaço do teatro. Os corpos e as vozes dos artistas por vezes parecem excessivamente cautelosos e tímidos. Eles compartilham com os espectadores suas referências, em canções, poemas e vídeos inspiradores, mas suas vozes autorais poderiam interferir mais diretamente nesses materiais.
Os temas que estão em jogo em "Ponto Gatilho" – a homofobia e o abuso de menores, por exemplo – são urgentes e capazes de despertar empatia quase imediata numa plateia. Mas o pulo do gato, a meu ver, está justamente na mediação que os dispositivos de atuação, dramaturgia e encenação podem oferecer para abrir a escuta daqueles espectadores que não têm simpatia prévia pelo assunto. Nesse momento de imensa intolerância e violência generalizada no país, especialmente estimulada pelas figuras que recém chegaram ao poder, espetáculos como este da Cia das Máculas têm um importante papel a cumprir. Mas, como falar com o inimigo? Como uma peça de teatro feita a partir da necessidade de compartilhar vivências pode se tornar uma abertura de um debate de verdade, sem cair na armadilha de pregar para convertidos?
O título do espetáculo e o nome do grupo sinalizam um desejo de identificar as questões, de diagnosticar os problemas. Talvez seja interessante pensar como a cena pode ser mais ativa sobre essas análises, como a ação do teatro que o grupo quer fazer pode operar sobre as doenças da sociedade em que vivem e não apenas denunciá-las. Certamente, não é nada fácil. Mas talvez valha a pena estender o alcance da ambição.