Filha de Vênus, carioca de Niterói, tatuada, disléxica e mestre em desobedecer. Quebrar convenções foi o que marcou a trajetória de Fernanda Young, 49 anos, que faleceu no último domingo. A escritora, roteirista e atriz teve complicações respiratórias, depois de uma crise de asma na cidade de Gonçalves, Minas Gerais.
Dona de humor ácido e jeito único de ver a vida, Fernanda deu início em sua carreira como roteirista na série "A Comédia da Vida Privada", em 1995, na TV Globo. Um de seus trabalhos mais marcantes foi a série "Os Normais", que foi ao ar de 2001 a 2003.
A obra retrata as vidas de Vani (Fernanda Torres) e Rui (Luiz Fernando Guimarães), um casal nada convencional. Fernanda Torres, ao falar sobre a morte da colega de trabalho e amiga, disse que "devia muito à Fernanda" por conta de sua personagem.
"Ganhei de bandeja um ser tão potente, tão fruto das qualidades da Young, que acabei me tornando ela. Me tratavam, até hoje me tratam, de doida demais na rua; riem comigo e agradecem o prazer da convivência com aquela alma liberta".
Atrapalhada e intensa, Vani é um retrato do que Fernanda Young foi. Diagnosticada como disléxica, afirmava que escrevia tudo errado. Certo nas linhas tortas. Se atrapalhava nas palavras mas dominava o pensamento com maestria. Ainda em sua homenagem à Young, Fernanda Torres pontua "Minha persona se mesclou com a de Young sem que eu tivesse que ter o peito, a ousadia e a coragem dela de encarar a cafonice do mundo, de denunciá-la e virá-la do avesso".
Referindo-se a despedida de Young, seu último texto publicado, Fernanda Torres relembra a coragem que levava ser Fernanda Young. Seja por ser mulher, por falar publicamente de sua depressão, por retratar o que ninguém assume. Em sua última coluna, Young fez um verdadeiro manifesto contra a cafonice brasileira.
O cafona, define ela, é o mau gosto existencial. "vulgaridade de palavras, deselegância pública, ignorância por opção, mentira como tética, atraso das ideias". Em seu texto, afirma que a "cafonice" detesta a arte, pois não quer ter que entender nada. Foi assim que Fernanda Young partiu, esfregando sua originalidade no que chamou de mau gosto.
Ao retratar a verdade do dia-a-dia, a escritora lançou desafios ao "comum" em cada uma de suas obras. Em "Macho Man", uma de muitas de suas obras coescritas com seu marido Alexandre Machado, retratou um homem nem gay, nem hétero.
No mês que vem, Fernanda estrearia em São Paulo a peça Ainda Nada de Novo, centrada na relação entre duas artistas lésbicas, interpretadas por ela e Fernanda Nobre.
Fernanda Young foi amplamente discutida e intensamente presente no universo pop, apesar de ter bagagem e repertório culto. Conseguiu fazer de sua palavra algo popular e relacionável principalmente às mulheres, que careciam de referências femininas: seja na representação de personagens ou na de escritoras e roteiristas, ainda escassas na mídia.
Em entrevista, a autora disse "para ter a coragem, é preciso ter medo". Dessa forma, desnudou-se ao mundo pisando no que é cafona.