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Crítica: espetáculo 'Oroboro' por Daniele Avila Small

Por http://www.ovale.com.br |
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Oroboro
Oroboro

Para lidar com urubus

Daniele Avila Small

Depois das apresentações do espetáculo de abertura do 34º Festivale, a primeira noite de programação foi dedicada ao teatro de animação, com dois espetáculos de grupos de São Paulo: XPTO, de Embu das Artes, que trouxe "Oroboro" a São José dos Campos, e a Cia Truks, da capital paulista, que apresentou "Big Bang". Ambos se direcionam ao público infantil ou infanto-juvenil, mas foram programados em horário noturno, às 19h e 21h, respectivamente.

O endereçamento é uma questão a se considerar quando pensamos em espetáculos voltados para crianças e jovens. A linguagem da cena expõe o que os artistas criadores pensam sobre a fruição estética das crianças, suas potencialidades criativas e capacidades de assimilação. Em "Oroboro", o XPTO aposta na disponibilidade do público infantil para a contemplação sem ansiedade. Sem fazer o papel de animador de festa, o espetáculo convida a criança a observar e a pensar, oferecendo imagens que articulam beleza, curiosidade e assombro.

Relativamente livre de linearidade e causalidade, a peça apresenta duas células narrativas: uma figura humana perdida no mar, ameaçada pela presença de urubus, e a curiosidade dos habitantes de um mundo fantástico com relação a um ovo misterioso. A serpente que morde a própria cauda – o oroboro do título – é a figura que costura as duas histórias. Tais fabulações convidam os pequenos espectadores a se familiarizar com questões importantes das quais muitas vezes as crianças são alijadas: o medo, a dúvida, a violência, a irresponsabilidade, a morte.

Sobre o náufrago, o paralelo com a condição humana e sua melancolia inerente é inevitável. Seja diante das pequenas ou das grandes decisões, nos vemos constantemente no dilema entre correr o risco de enfrentar o desconhecido e deixar para trás o que antes identificávamos como a nossa vida, ou permanecer onde estamos, preservando um resto de passado, na iminência de sermos devorados pelas mortes simbólicas que estão à espreita. Em "Oroboro", o salto para o novo compensa: o náufrago ganha mais um sopro de vida, que se dá, na materialidade da cena, pelo artifício da invenção, pela ação do artista, que abre a mágica do ilusionismo para se colocar como agente, evidenciando a teatralidade da operação dos bonecos. Esse efeito, no entanto, ficou um pouco prejudicado pelas condições do espaço onde a peça foi apresentada. Em um teatro realmente escuro, com todas as demais operações ocultas da visão do espectador, o gesto do ator devolvendo a vida ao boneco se configuraria como uma virada dramatúrgica mais significativa. A escolha do espaço, de modo geral, não favoreceu muito a visualidade do espetáculo, que é um aspecto importante da obra, constitutivo dos seus sentidos.

O ovo depositado pela serpente desperta enorme curiosidade em vários seres, que tentam de todos os modos fazer nascer a criatura que está ali dentro, mesmo sem saber nada sobre ela. Não importa o que vem: eles querem porque querem experimentar abrir aquela casca. Talvez simplesmente por estarem entediados. Figuras de aparência militar se apoderam do ovo e matam, com armas de fogo, tudo o que dele se aproxima. E então, o que nasce é uma máquina de destruição, bonecos feitos de barulhentos moedores de carne que se divertem destruindo florestas e não demoram a se trair e se destruir mutuamente. Parece que estamos diante da realidade atual do país. Assim, a peça nos lembra que é preciso trabalhar para que as crianças de hoje aprendam a não chocar os ovos das serpentes de amanhã. Ao que tudo indica, muitos adultos do Brasil de 2018 não tinham formação crítica para não cair nos contos da Carochinha da política nacional. Agora estamos todos a lidar com os urubus...

Mas, como o náufrago que ganhou mais um pouco de fôlego nessa peça de teatro, vamos entendendo que estratégias adotar para não ceder mais espaço, para recuperar os direitos perdidos e, quem sabe, em breve consigamos mandar os urubus todos de volta para os cantos escuros de onde vieram.

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