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Crítica: espetáculo 'Ponto Gatilho' por Valmir Santos

Por http://www.ovale.com.br |
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Ponto Gatilho
Ponto Gatilho

Estalos promissores

Valmir Santos

A Cia. das Máculas e o espetáculo “Ponto Gatilho”, ambos recém-nascidos em São José dos Campos, não soltam as mãos firmes de Caio Fernando de Abreu e demandam o abraço apertado de parte da audiência. É assim que eles procedem a certa altura. A legitimidade com que Antônio Antunes e Rafa Soares também visitam escritos de outros poetas e compositores para falar das dores de si e dos outros, ávidos por amar com a liberdade de quem é capaz de exercer esse sentimento de forma incondicional, instaura um campo de afeto que transcende as evidentes limitações do trabalho.

Não se trata de condescendência. A chama juvenil desses artistas dispensa migalhas. A despeito da fragilidade no ato de enunciar, eles expressam lugar de fala a partir dos códigos corporais, visuais e musicais. Enredam a indignação cidadã, o medo, o relato íntimo e a inquietude estética para dizer a que vieram nos primeiros passos de uma companhia que carreia para seu nome as máculas do presente, ou seja, o que denota sujeira, impureza, nódoa, mancha ou, em sentido figurado, a ausência de perfeição, o defeito, o senão.

A dupla de atuantes e a equipe de criação aliam a coragem da exposição autobiográfica ao risco de como performá-la no ambiente de instalação. É explícita a aderência à mistura de linguagens. O empenho em não cair no lugar-comum confere consistência no manejo dos recursos audiovisuais (projeções mimetizam como o ódio atinge as peles-alvo). Há uma passagem luminosa em que o bailarino Antunes esbanja autonomia de voo em gestualidades e movimentos vívidos. De face angelical e cabelos cacheados e aloirados, ele irrompe nessa dança breve feito “um vento forte e gostoso no rosto da gente”, já escreveu o escritor gaúcho.

É deste o conto “Além do Ponto”, que abre o espetáculo na voz desarticulada de Soares. Mentor intelectual do projeto, o ator, minutos depois, desvia do texto e da atmosfera introspectiva para desempenhar outras estratégias de relação direta com o público. Alguns apartes da dupla são introduzidos com a frase “Quando eu era criança”, ratificando a precocidade de quem enfrentou abuso, preconceito e assédio dentro de casa ou na escola.

Nessa costura de tensionar e distensionar, sensível ao título emprestado da prática da fisioterapia que identifica os pontos de tensão para aliviar as dores agudas no corpo, a obra adensa, ainda, o tom de denúncia. Afinal, a escala da violência é pública e covardemente institucionalizada por grupos políticos, religiosos e outros poderes paralelos, como sentem na alma quem se reconhece lésbica, gay, bissexual, travesti, transgênero, transsexual, queer, não binário, intersexual e demais singularidades.

A urgência é clamada por meio da citação documental a assassinatos. Em 2006, em Mogi das Cruzes, o ator e publicitário Arthur Netto foi vítima de homofobia, espancado com socos, pontapés e golpes de garrafa desferidos por dois homens à saída de uma casa noturna, vindo a morrer 41 dias depois. Hoje, seu nome batiza um galpão de teatro na cidade. No ano passado, no Rio de Janeiro, a universitária Matheus Passareli Simões Vieira, a Matheusa, transexual não binária, portanto, que não se enxergava nem como mulher nem como homem, foi baleada, esquartejada e incinerada por traficantes.

São fatos assim, contundentes e normalizados na ordem do dia, que mobilizam os artistas indisfarçáveis em certas ingenuidades e íntegros na abordagem crítica da realidade. Demonstram em “Ponto Gatilho” personalidade e potencial de elaboração poética em níveis que a maioria dos coletivos só costuma alcançar com mais tempo de estrada.

Enquanto nutrem consciência de que é preciso aperfeiçoar seus instrumentos, notadamente a voz, e vencer os pontos mortos da encenação, em termos de ritmo e rigor, eles pisam firme o chão do espaço cênico forrado de plástico-bolha. Os estalos soam como o espírito desses criadores em crepitação na arte e na vida, ainda que os conteúdos trazidos à tona possam levar os ouvidos a lê-los também como tiros. Mas eis que a trilha sonora chama Gilberto Gil com “Não Tenho Medo da Morte”, canção feita de versos assim: “Não terei pé nem cabeça/ Nem fígado, nem pulmão/ Como poderei ter medo/ Se não terei coração?”.

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