Uma reflexão em favor da alteridade
Rodrigo Morais Leite
Embora a expressão esteja um tanto desgastada, “Existo”, trabalho da Cia La Leche, é o que se costuma designar de espetáculo-manifesto, ou seja, aquele tipo de obra teatral que se posiciona sem peias em favor de um determinado ponto de vista político-estético-ideológico. No caso, o posicionamento tem a ver com o mais contaminado de todos os debates da contemporaneidade nacional, aquilo que os ultraconservadores chamam errônea e raivosamente de “ideologia de gênero”. Levando-se em conta, desde já, que o gênero seria uma categoria autodefinida, e que portanto não haveria cabimento em se falar de escolha de gênero mas, quando muito, de uma orientação em favor de um, de outro ou até de nenhum, entende-se que ninguém pode ser convencido, por vias ideológicas, a simplesmente optar, coincidindo essa opção ou não com o sexo de nascimento.
O que os ultraconservadores insistem, por conveniência política, em não entender é que, quando esse debate é trazido à tona pelas forças progressistas, tudo o que se quer, no fim das contas, se resume a duas coisas: em termos sociais, fazer com que a sociedade se torne mais diversa e acolhedora, de modo com que todas as pessoas se sintam nela incluídas; em termos individuais, permitir aos sujeitos que não se enquadram no “padrão” cisgênero não necessitem passar por verdadeiras torturas de ordem moral para assumirem a sua subjetividade, elemento gerador de infelicidade, suicídios e marginalização social.
Contudo, como estamos a viver em tempos nos quais, como afirmou Bertolt Brecht, “somos obrigados a defender o óbvio”, levantar essa questão é, de fato, inscrever-se claramente no campo político progressista, donde se compreende melhor o porquê de “Existo” ter sido definido como um espetáculo-manifesto. Em outras épocas ou em outros lugares, este triste preâmbulo seria, talvez, completamente redundante, com o crítico podendo se debruçar exclusivamente sobre a obra analisada. Nas trevas de cunho político-religioso em que nos encontramos, ele se faz necessário.
“Existo” aborda a história de Luan, menino que vive encerrado em uma torre onde desfruta apenas do convívio da mãe e de alguns bichos que o visitam, como pombos, lagartixas e jacarés. Um dos traços que o distingue são os seus longos cabelos trançados, tal como no conto de Rapunzel, com a diferença fundamental de que, ao final, nenhum príncipe ou princesa irá resgatá-lo.
Sem contato com nenhum outro ser humano a não ser a mãe, quase todo o conhecimento que ele possui é acessado por intermédio dos livros. Curioso acerca das coisas do mundo, seu sonho é sair da torre, o que só poderá acontecer quando a jabuticabeira da família estiver repleta de frutos, metáfora normalmente associada à conquista da maturidade. Suas dúvidas e questionamentos são expressos em perguntas dirigidas à mãe, do tipo: “por que o jacaré menino e a jacaré menina têm um banheiro e a gente tem dois?” Por esse exemplo, vê-se que, na composição da personagem, desde o primeiro momento é sugerida sua inclinação transexual, de forma patente ou latente, expressando as angústias (e quantas não serão?!) de quem não se identifica com o gênero associado ao seu sexo.
Em virtude de, dramaturgicamente, “Existo” carecer de ação – por se tratar, em alguma medida, de um “drama estático”, no qual o protagonista não age – suas inquietações são exprimidas ou pela via da conversação com a mãe e os bichos que o visitam, ou do solilóquio, este um tanto raro. Abdicando também de música, pelo menos daquela cantada e executada ao vivo, como é comum em espetáculos infantojuvenis, a obra se sustenta especialmente ao ilustrar a trajetória de autodescoberta do menino em paralelo à assimilação da mãe a respeito desse processo. Ao final, após compreender que a construção de uma determinada visão de mundo depende fundamentalmente do ponto de vista em que você se coloca, Luan assume sua identidade e sai da torre a bradar o grito de “eu existo!”, com o qual procuraria exercer o seu direito à visibilidade social – por mais dolorida que esta lhe possa ser, embora não devesse.
O clamor que a obra do grupo paulistano reverbera, vale a pena reafirmar, não passa pelo convencimento de ninguém em defesa de uma opção de vida transexual. Sua preocupação didática se volta, antes de tudo, para uma educação da sensibilidade, materializada na forma de uma reflexão em favor da alteridade.