Delicadeza a serviço da diversidade
Rodrigo Morais Leite
Se há uma palavra que talvez pudesse definir o núcleo temático de “Nós”, espetáculo infantil produzido pelo coletivo Barracão Cultural, essa seria diversidade. Baseado no livro homônimo de Eva Furnari, a adaptação realizada para a linguagem teatral, e mais propriamente para o teatro de rua, tem na comédia musical o seu principal arcabouço formal. Mediante a história de Mel, menina de doze anos que sofre “bullying” por se distinguir das demais pessoas, procura-se demonstrar aos jovens espectadores e espectadoras o quão difícil, mas necessário, é o caminho para se conquistar a afirmação de sua singularidade.
A narrativa, talhada no universo fantástico da fábula, com borboletas que se atrelam à figura da heroína ou coisas do gênero, possui forte caráter encantatório, provavelmente em razão de se exprimir por meio de alegorias sugestivas. Um exemplo disso se encontra na metáfora contida no próprio título da obra. Se, à medida que Mel vai se retraindo perante a zombaria alheia, um novo nó surge em seu corpo, obrigando-a inclusive a se fechar dentro de casa, o desatamento desses mesmos nós ao final representa a conquista da liberdade espiritual antes estorvada pelos preconceitos sociais.
Dramaturgicamente, se poderia dividir “Nós” em duas etapas: a inicial, na qual se introduz e se desenvolve o conflito entre a heroína e as forças da sociedade; e a derradeira, em que Mel foge de casa para conseguir se encontrar consigo mesma, numa espécie de jornada a um só tempo objetiva (o deslocamento no espaço) e subjetiva (a busca introspectiva por descobrir o seu lugar no mundo).
Nesse périplo, em um primeiro momento Mel procura se abrigar numa floresta, onde, apartada da sociedade repressora em que vivia, ela conseguiria a paz de espírito desejada. Por essa descrição sumária, era de se esperar que o espetáculo se encaminhasse para uma solução, dir-se-ia, rousseauniana, defendendo a ideia segundo a qual somente no estado de natureza o ser humano poderia adquirir sua plenitude. Todavia, não é isso o que acontece, pois Mel acaba, no fim das contas, expulsa pelas vacas que habitavam a região, com a justificativa de que os humanos não seriam bem-vindos lá. Filha de seu tempo, já se percebe na obra analisada os laivos anti-humanistas que são uma das marcas de nossa época, aquilo que os alemães costumam designar pela expressão “zeitgeist”.
Ao final, quando Mel conhece Kiko, o amigo que a compreende e a leva para viver na acolhedora cidade de Merengue, onde todos poderiam possuir os seus próprios nós, tem-se outra surpresa interessante: como é peculiar ao teatro épico, a história não acaba exatamente ali. Mesmo encontrando o lugar onde poderia desenvolver sua subjetividade, pois lá impera um regime de tolerância em relação a todas elas, é ressaltado que esse regime não é obra de um passe de mágica, mas de uma luta constante, para a qual Mel será convocada em outras localidades e em outras ocasiões.
Semelhante elocução adquire materialidade teatral por intermédio de inúmeros expedientes, como a música, a narrativa oral, a pantomima e a manipulação de objetos. O elenco da montagem, formado de quatro atores e uma atriz, possui a seguinte divisão funcional: enquanto à atriz é reservado o papel da protagonista, outros três atores se desdobram atuando em coro, executando a música e a sonoplastia ou assumindo pequenos papéis individualizados (como o de Kiko). Um último ator responsabiliza-se pela manipulação dos objetos e pela contrarregragem.
Valendo-se de alguns instrumentos inusitados postos em cena, a música possui uma posição de enorme relevo em “Nós”, o que vem a ser uma das marcas do grupo paulistano. Destaque para a passagem das vacas cantando em coro um rap acompanhadas somente de “beatbox” (aquela percussão vocal própria da cultura hip-hop), sem dúvida um dos melhores momentos do espetáculo.
A cenografia também merece menção. Formada, basicamente, de dois suportes de madeiras entrecortadas e estilizadas, se se pode assim descrevê-la, tais estruturas, além de demarcarem a origem e o destino final da jornada de Mel, servem também como uma prática coxia, que permite ao elenco realizar suas entradas e saídas com muita desenvoltura, mesmo quando precisam mudar ou acrescentar algo ao figurino.
Com relação à direção, seja pelo jogo de cena desempenhado pelo elenco entre si ou desse com o público, ela se mostra bastante adequada tanto a quem se dirige quanto ao local em que se desenrola: fechada nos momentos em que a presença dos atores em cena e sua capacidade de produzir sentido precisam prevalecer; aberta nos momentos em que há a necessidade clara de as crianças se posicionarem a respeito do que estão assistindo.
Uma pena que, na apresentação vista por este espectador, em virtude da chuva constante que caiu em São José dos Campos no último domingo, o espetáculo teve que ser transferido para um local coberto, no qual uma acústica problemática e a pouca afluência de público acabaram prejudicando um pouco a exibição do grupo. Coisas que não se pode prever. Mesmo assim, “Nós” não deixou de ser o que é, do ponto de vista aqui defendido: um delicado espetáculo a serviço da diversidade.