Progresso visto como interrogação poética
Julia Guimarães
O gesto de reescrever a história a partir de um olhar crítico tem sido constantemente reiterado e reinventado em criações cênicas recentes. No caso de “Big Bang”, da Cia. Truks (São Paulo/SP), o marco inicial para a narrativa, como o próprio nome sugere, remete à explosão que teria dado origem ao mundo. Com a ajuda de recursos vinculados ao teatro de animação, o grupo costura temporalidades históricas diversas, que incluem desde o período das cavernas até a chegada à lua, além de apresentar, via imagens sintéticas e emblemáticas, as contradições sociais da vida moderna. O espetáculo se apresentou no Cine Santana na última sexta-feira (30 de agosto), na programação do Festivale.
Embora o tom crítico da obra por vezes pareça um tanto genérico diante das urgências atuais ligadas ao ato de revisitar a história, a delicadeza técnica, somada a alguns achados poéticos, ajudam a construir um olhar ao mesmo tempo sensível e reflexivo acerca de noções controversas como “humanidade” e “evolução”. Para além das cenas que se valem da linguagem de bonecos propriamente dita, merecem destaque as sequências nas quais a singularidade do objeto escolhido colabora para sublinhar as contradições do contexto com o qual dialoga.
É o caso, por exemplo, da opção de usar um aspirador de pó acoplado a um navio para remeter ao episódio histórico das “grandes navegações”. Na cena, a receptividade do nativo – representado por um boneco com trajes andinos – é contrastada com a literalidade do gesto extrativista de aspirar todo o ouro encontrado no território invadido, o que tece um contraste irônico com a própria historiografia oficial, ainda hoje centrada em exaltar o período das navegações como aquele vinculado a “grandes descobertas”.
Em outra cena, a decisão de usar sacos de lixo para representar seres humanos em guerra na busca por detritos – também na vertente do teatro de objetos – chama atenção para certo processo de degradação econômica e social dessas figuras. Em lógica semelhante, estaria ainda o quadro no qual um “homem mais moderno” (título que aparece no início da cena) se vê sugado para dentro da sua própria televisão, o que constrói uma metáfora para o processo de captura da subjetividade contemporânea pelos dispositivos eletrônicos. Aqui, não apenas a simbologia proposta é precisa em sua análise como também a técnica encontrada surpreende pela originalidade, ao propor um diálogo ilusionista entre a imagem virtual da televisão e a imagem concreta que o espectador observa diante de si no palco.
A partir desses exemplos, seria possível propor que o recorte crítico projetado pelo grupo em sua reescrita da história questiona a própria ideia de “progresso” e “civilização”, seja ao eleger episódios históricos vinculados a gestos colonizadores vistos como grandes conquistas (como as navegações e a chegada à lua), seja ao transformar o homem moderno em bicho ou confina-lo em uma máquina. Uma das imagens iniciais do espetáculo - que transforma um astronauta em um ponto de interrogação - parece sintetizar a pergunta-chave da obra: afinal, de que nos servem as chamadas “grandes conquistas da humanidade” quando são inócuas ou inclusive ajudam a acentuar contradições e desigualdades?
Ao lado de suas proposições reflexivas e filosóficas, “Big Bang” pode ser visto também como uma consistente experimentação técnica na seara da animação, cujo valor diz respeito aos efeitos de encantamento produzido no público. Seja pela delicadeza com que os bonecos e objetos ganham vida em cena, seja pela diversidade de técnicas, que vão do Bunraku japonês ao teatro negro, a peça se destaca pelo trabalho de linguagem realizado.
Merece destaque a interação entre boneco e manipuladores, sobretudo pela opção de fazer do segundo uma personagem da trama. É o caso das cenas em que as atrizes/atores da companhia se espantam com as atitudes dos bonecos que manipulam (em trocas de olhares que projetam cumplicidade no diálogo com a plateia), ou naquelas em que se estabelecem situações de conflito entre atrizes e bonecos. Nos dois casos, a opção por subverter a neutralidade do manipulador na obra colabora para construir alguns dos melhores efeitos cômicos de “Big Bang”.
Como foi dito inicialmente, é possível notar que há um tratamento crítico por vezes genérico sobre a história da humanidade – centrado em temas amplos como pobreza e alienação – o que dificulta um aprofundamento da proposta. Ao mesmo tempo, parece ser a própria longevidade da obra (cuja estreia ocorreu em 2006) que limita as possibilidades de alçar saltos poético-discursivos mais ousados. Nesse sentido, um investimento de renovação no que se refere à trilha sonora (composta por alguns clássicos instrumentais um tanto óbvios) e a certas cenas que também apelam a lugares-comuns das representações sociais (como o já banalizado jogo de sedução entre homem e mulher do quadro que remete à pré-história, assim como os figurinos dessa sequência) poderiam tanto verticalizar a abordagem crítica da obra como também tornar mais complexa e original sua dimensão poética.
De fato, os momentos de maior destaque do trabalho da Cia. Truks são justamente aqueles em que a forma comporta, por si só, uma perspectiva crítica, seja pela técnica e/ou pelos objetos escolhidos para elaborar a cena. No entanto, fica o interesse por ver esse jogo ser construído em um diálogo mais radical com as contradições da atualidade.