Diz a lenda que a uma índia despertou a paixão da Lua e do Sol, que se aproximaram da terra para admirar a mortal. Ao perceber que a aproximação secava os rios e incendiava florestas, Tupã ordenou que o Sol e a Lua se distanciassem da bela índia e ergueu montanhas, que viriam a se tornar a Serra da Mantiqueira, para escondê-la. Desde então, a índia chora, transformando suas lágrimas em rios que correm pela região.
Durante sua carreira, o fotógrafo Ricardo Martins tem registrado imagens escondidas pela mata da Serra da Mantiqueira. Animais, rios, paisagens, tudo o que a natureza que o Sol e a Lua não conseguem destruir.
Em seu nono livro "Amantikir", que significa "Serra Que Chora" em língua nativa, o fotógrafo joseense reuniu não só as paisagens, mas também o povo que vive entre as montanhas.
"Foi a primeira vez que entrei no mundo do retrato. Bicho é muito mais fácil de fotografar, apesar do desgaste de chegar até o local em que ele está. O ser humano é diferente, é meio desconfiado", conta Martins a OVALE.
O fotógrafo registou paisagens em cidades como São Bento do Sapucaí, o distrito de São Francisco Xavier, Cruzeiro, Piquete, além de cidades do sul de Minas Gerais e Rio de Janeiro.
Martins se encontrou com uma série de dificuldades por conta da chuva forte ao fotografar, como se estivesse sendo seguido pelas lágrimas da índia que originaram a Serra e seus rios. "Quase sofri muitos acidentes, mas no momento que a chuva passava, precisava registrar a luz do sol nas gotas", explica. Dentre os personagens encontrados por Martins durante a sua viagem, estão caipiras originais, pessoas simples e do campo.
"A Serra é uma grande mistura, assim como o Brasil inteiro. Contudo, não achei vestígios dos antigos moradores, os indígenas que aqui viviam", conta.
O fotógrafo afirma que em uma das cidades que visitou, em Minas Gerais, chegou a uma comunidade isolada, que ficou desconfiada quando Martins apareceu.
"O homem que eu fotografei disse que haviam contato para ele que eu estava com uma arma enorme, provavelmente minha câmera e queria matá-lo. Fui até interrogado", recorda Martins.
Impressionado com a diversidade do povo da Serra, Martins conseguiu capturar imagens que fazem parte do cotidiano da roça, como galinhas que acompanham um homem adentrar sua casa, até um violeiro em um momento de improviso.
"Hoje vivemos em uma era de tecnologia e às vezes esquecemos das coisas simples. Alguém que estava lá no pé do fogão, querendo me oferecer um almoço. Tem coisa mais singela que isso?", indaga..