Alvo de ataques do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e de apoiadores do governo federal, o senador Renan Calheiros (MDB-AL), relator da CPI da Covid, vê indícios claros de que o mandatário nunca quis a vacina contra a Covid-19, mesmo diante de todas as evidências de que esse é o melhor (e único) caminho para combater a pandemia que já matou mais de 457 mil brasileiros.
Para Renan, os depoimentos dados à CPI até o momento já apontam para essa convicção, principalmente após o testemunho de Dimas Covas, diretor do Instituto Butantan.
"O depoimento dele é esclarecedor", disse Renan em entrevista virtual a OVALE.
Confira os principais trechos:
O depoimento do diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, deixou evidente que o governo federal não quis garantir antecipadamente vacinas contra a Covid ao país?
O depoimento mostrou as informações, a comprovação de omissões e a negligência na aquisição de vacinas, forçando o Brasil a pagar esse custo em vidas. Ele [Dimas Covas] trouxe informações precisas, com números, impactos, com tudo. O depoimento dele é esclarecedor. Ele afirmou também que os comentários do presidente Jair Bolsonaro contra o imunizante produzido pelos chineses, a Coronavac, atrasaram a produção nacional e tiraram do Brasil a possibilidade de ser o primeiro país a vacinar no mundo após a China. Isso é muito grave.
Alguma mudança de estratégia na CPI da Covid após os depoimentos do general Eduardo Pazuello, ex-ministro da Saúde, e da secretária da pasta, Mayra Pinheiro?
A comissão está seguindo bem, aprofundando a investigação, juntando depoimentos importantes, recebendo informações esclarecedoras. Nunca uma CPI em tão pouco tempo produziu resultados tão grandes como estes.
Pazuello será reconvocado para prestar novo depoimento à comissão?
A comissão aprovou a reconvocação do ex-ministro Pazuello e do atual ministro da Saúde, [Marcelo] Queiroga. Isso já está decidido. E se for necessário mais adiante demonstrar algumas contradições em função da estratégia que [Pazuello] utilizou no seu depoimento, vamos fazer isso. Acho que a reconvocação dele tem efeito pedagógico para que pare de delinquir e aglomerar pessoas. Isso tem acontecido apesar da morte de milhares de brasileiros e não pode continuar a acontecer.
O senhor se refere à presença de Pazuello em ato com o presidente Jair Bolsonaro, no Rio de Janeiro?
Exatamente. Essa aglomeração no Rio foi um desrespeito aos trabalhos da comissão. O presidente da República continua a fazer as mesmas coisas que fazia, diferentemente do que acontece no mundo. Após declarar à CPI que sempre foi favorável ao uso de máscaras e ao isolamento social, o general da ativa decidiu participar de manifestação convocada pelo presidente sem as devidas precauções diante da pandemia que assola a população brasileira, fomentando atitudes que colocam a vidas das pessoas em risco. Isso precisa ser esclarecido.
Bolsonaro deveria ser ouvido pela CPI?
Eu acho que foi equivocada a decisão de chamar os governadores. Há uma vedação regimental, constitucional. É a mesma que existe com relação ao presidente. Convocar Bolsonaro é antirregimental.
Quando deve sair o relatório preliminar da comissão?
A qualquer momento da investigação. Havendo necessidade de se fazer um relatório preliminar ou parcial, nós vamos fazê-lo. Mas, ele deve ocorrer necessariamente quando você esgotar algum aspecto da investigação. Sobre esse assunto, nós já acessamos as provas necessárias em uma ou outra direção. Nesses casos, faz o relatório preliminar, que é para não largar um assunto já esclarecido e apurado, no escaninho, para retomá-lo apenas no relatório final.
Falou-se em contratar uma agência de checagem para apurar as informações prestadas à CPI. Isso vai ser feito?
Requisitamos à Agência do Senado a designação de algumas pessoas para, juntamente com consultores e assessores da comissão, compor essa agência de checagem que instantaneamente vai colaborar com a CPI, mas, sobretudo, com a verdade ao aclarar as circunstâncias todas.
O que já dá para extrair dos depoimentos dados à CPI?
Tudo indica que o presidente da República apostou na imunidade de rebanho e nunca quis comprar vacinas, e ainda estimula aglomerações, tendo inclusive adotado uma postura reincidente em determinadas condutas. O presidente primeiro negou a doença, chamou de gripezinha, depois ele foi contra o isolamento, o lockdown, depois minimizou o uso da máscara e estimulou uma aglomeração. Por que isso? Porque a imunização de rebanho, a imunização natural, ela pressupõe que o vírus se propague, então você tem que promover aglomerações, essa propagação do vírus, para que, pelo contágio de parcela considerável da população, você possa consequentemente imunizá-la. Mas não funcionou e estamos com milhares de mortes de brasileiros no país.
Bolsonaro não quis a vacina?
Nunca quis vacina, Falou que tinha cheque de 20 bilhões de reais dado pelo Congresso Nacional e que não compraria vacina nenhuma, e quem mandava era ele. Agiu dessa forma em relação à Pfizer.