LITERATURA

Após caso Milly e acusação de censura, Flim muda perfil em SJC

Por Guilhermo Codazzi | São José dos Campos
| Tempo de leitura: 5 min
Editor-chefe de OVALE
Reprodução
Milly Lacombe e o prefeito Anderson Farias (PSD)
Milly Lacombe e o prefeito Anderson Farias (PSD)

Após a crise provocada pelo veto à participação da jornalista e escritora Milly Lacombe, que desencadeou acusações de censura e uma onda de boicotes entre convidados em 2025, a Flim (Festa Literomusical) de São José dos Campos chega neste ano à 12ª edição com uma programação que amplia o espaço para autores e artistas da cidade e do Vale do Paraíba, como defendido pelo prefeito Anderson Farias (PSD) em entrevista a OVALE.

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Em 2025, já com maior foco na participação de artistas locais e sob acusações de retrocesso, por parte de grupos de artistas, a Flim foi marcada pelo esvaziamento de público, que caiu 77% em relação ao ano anterior. 

A programação de 2026 foi divulgada nesta quinta-feira (5).  A festa será realizada entre os dias 27 e 29 de novembro, no Parque Vicentina Aranha, com mais de 80 escritores regionais e oito mesas literárias. 

Crise começou com veto a Milly Lacombe

A crise que alterou os rumos da Flim começou em setembro de 2025, quando OVALE revelou que Milly Lacombe havia sido vetada da programação por declarações da jornalista a respeito da "família tradicional brasileira".

"Essa família tradicional, branca, conservadora, brasileira, é um horror. É a base do fascismo, falemos a verdade, né", disse a escritora na ocasião.

Em um vídeo publicado nas redes sociais ao lado do vereador Zé Luís (PSD), Anderson afirmou ter telefonado para o gestor da Afac (Associação para o Fomento da Arte e da Cultura), responsável pela organização da festa, e que havia ficado decidido que a jornalista não participaria do evento.

Milly afirmou que a declaração havia sido tirada de contexto e criticou o "falso moralismo" da medida.

O prefeito, que negou ter praticado "censura", também afirmou que não permitiria que espaços públicos fossem utilizados para discussões que classificou como de "viés político-ideológico", citando temas como aborto e drogas. Segundo ele, esses debates poderiam ocorrer em espaços privados.

Veto provocou onda de cancelamentos

A declaração ampliou a discussão sobre a relação entre financiamento público, liberdade de expressão e autonomia artística.

A decisão provocou reação de escritores, artistas e representantes do movimento cultural. As curadoras Alice Penna e Costa, Tania Rivitti e Bianca Mantovani deixaram a organização, classificando a retirada de Milly como censura. Ao menos 16 dos 20 autores convidados também desistiram de participar, entre eles Xico Sá, Cuti, Helena Silvestre, Christian Dunker, Micheliny Verunschk e Marisa Orth.

O episódio levou ao cancelamento da edição inicialmente prevista para setembro e abriu um debate sobre os limites da interferência do poder público na programação cultural de um evento realizado em espaço público.

Na ocasião, Anderson negou que pretendesse estabelecer censura ou submeter previamente os convidados à aprovação da Prefeitura. Em entrevista ao OVALE Cast, em outubro de 2025, afirmou que não queria avaliar os nomes dos participantes, mas defendeu que a programação tivesse "sensibilidade e responsabilidade".

Prefeitura defendeu mudança de perfil

Depois do adiamento, Anderson antecipou que a retomada da Flim teria outra configuração. Em vídeo publicado em setembro de 2025, afirmou que havia solicitado mais espaço para artistas de São José e da região.

"Nós achamos melhor marcar uma nova data, até para que a gente possa reestruturar, da própria coordenação, de todos que irão participar. Foi a minha solicitação que a gente dê mais espaços pros nossos artistas da cidade, da região do Vale do Paraíba, que a gente possa dar espaço para eles", declarou.

O prefeito também disse que os artistas regionais deveriam ser protagonistas da feira.

A mudança, porém, dividiu opiniões no meio cultural. Pessoas ligadas ao movimento de São José ouvidas por OVALE na época avaliaram que uma programação concentrada em nomes locais poderia tornar a Flim mais provinciana, reduzindo a projeção nacional que convidados de destaque de outras regiões poderiam proporcionar. Outros integrantes do setor apoiaram a ampliação do espaço para escritores e artistas do Vale.

Flim 'caseira' sofreu com esvaziamento

A edição de 2025 acabou realizada entre 28 e 30 de novembro, em formato reduzido. Foram 12 mil pessoas, contra 52 mil no ano anterior, segundo a Afac. A associação atribuiu parte da diferença ao menor tempo de funcionamento e à utilização de menos espaços do Parque Vicentina Aranha.

A queda de público, de 77%, também ocorreu em um contexto de boicote de coletivos culturais, que realizaram o protesto "Ocupa Flim" do lado de fora do parque. O Fórum de Cultura de São José classificou a retomada como uma afronta à liberdade e à democracia.

A exclusão de Milly Lacombe também passou a ser investigada pelo Ministério Público de São Paulo. Em janeiro de 2026, a Promotoria instaurou inquérito civil para apurar possível censura e violação à liberdade de expressão e ao direito de acesso à cultura.

A investigação foi aberta após o recebimento de notícias sobre o episódio. Na portaria, o promotor de Justiça João Marcos Costa de Paiva destacou que a Constituição Federal proíbe qualquer forma de censura política, ideológica ou artística.

Flim de 2026

Na edição deste ano, a ampliação da presença regional aparece na estrutura da programação. Serão oito mesas literárias, contra cinco em 2025, com participação de mais de 80 escritores da região. A organização também eliminou a divisão entre programação principal e paralela.

"Não existe programação principal e programação paralela. Tudo é programação principal. Todo mundo vai ter o destaque que merece. Pelo menos estamos trabalhando para isso", afirmou Valéria Israel, gestora de cultura da Afac.

A festa terá como tema "Travessias" e homenageará a escritora Ruth Guimarães (1920-2014), nascida em Cachoeira Paulista. Entre os convidados estão Itamar Vieira Jr., Magô Pool, Mônica Salmaso e André Mehmari. A programação também inclui a 59ª Semana Cassiano Ricardo, atividades infantis, shows, oficinas e feiras.

A entrada é gratuita. O evento será realizado no Parque Vicentina Aranha, na rua Engenheiro Prudente Meireles de Morais, 302, na Vila Adyana.

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