A fuga de Flávio Bolsonaro (PL) para os Estados Unidos e a divulgação da carta golpista em que contestou o resultado das eleições presidenciais provocaram uma crise política no bolsonarismo.
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Isolado entre aliados que rejeitaram o discurso golpista, o senador encontrou respaldo no irmão Eduardo Bolsonaro e em integrantes da ala mais radical do PL, que mantêm a aposta no confronto mesmo após a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Nesta quarta-feira (28), Eduardo publicou a primeira foto ao lado do irmão após o reencontro nos Estados Unidos. Na legenda, o deputado federal cassado recorreu a uma frase do escritor Olavo de Carvalho, considerado um dos principais ideólogos do bolsonarismo, para sinalizar que a família não pretende recuar.
“Mesmo aqui de fora não desistiremos do Brasil. Como diria o Professor Olavo: não parar, não precipitar, não retroceder”, escreveu Eduardo.
A declaração reforça a estratégia de manter a mobilização política a partir do exterior, enquanto a carta de Flávio amplia o desgaste com setores que apoiaram sua candidatura e agora defendem o reconhecimento do resultado das urnas.
Carta de Flávio provoca reação negativa entre aliados
Na primeira versão do documento divulgado após deixar o Brasil, Flávio se autoproclamou o “verdadeiro presidente eleito do Brasil”, apesar da derrota no segundo turno. Cerca de meia hora depois, a expressão foi substituída por “líder do Brasil”.
A mudança não impediu a repercussão negativa. Segundo relatos sobre as reações nos bastidores políticos, aliados demonstraram decepção com a postura do senador e avaliaram que a iniciativa compromete sua capacidade de liderar a oposição ao governo Lula.
Entre os nomes que defenderam o respeito ao resultado eleitoral está o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). O coordenador da campanha do PL, Rogério Marinho (PL-RN), afirmou não ter provas de fraude eleitoral e defendeu que a oposição se prepare para enfrentar o quarto mandato de Lula.
Partidos que estiveram próximos da candidatura de Flávio também se distanciaram da iniciativa. União Brasil, PSD, PSDB e MDB estão entre as siglas citadas nas reações contrárias à contestação do resultado.
A reação negativa também alcançou lideranças evangélicas, segundo relatos sobre os desdobramentos da carta. O apoio mais explícito ao senador ficou concentrado na ala radical do PL, especialmente entre deputados federais alinhados à família Bolsonaro.
TSE confirma resultado e Lula vence com 64 milhões de votos
O TSE (Tribunal Superior Eleitoral) confirmou a regularidade do processo eleitoral e a vitória de Lula no segundo turno, realizado no domingo (25).
O petista recebeu 64.256.232 votos, equivalentes a 51,79% dos votos válidos. Flávio obteve 59.826.041 votos, ou 48,21%. A diferença foi de aproximadamente 4,43 milhões de votos.
Na carta, o senador alegou, sem apresentar provas, que uma decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) teria interferido indevidamente no processo eleitoral ao estender o horário de votação até as 19h.
“Uma decisão do STF, tomada por cima da competência do TSE, estendeu a votação no apagar das luzes, e a ordem só chegou depois do fim do horário legal, quando as urnas já estavam encerradas”, escreveu.
A extensão do horário foi determinada pelo ministro Cristiano Zanin após pedidos das campanhas do próprio PL e do PT. Segundo os dados apresentados sobre o pleito, as duas horas adicionais contabilizaram 34.393 votos.
Além do reconhecimento oficial do resultado pelo TSE, a eleição brasileira foi reconhecida pela OEA (Organização dos Estados Americanos) e por lideranças internacionais. O próprio PL também reconheceu a vitória de Lula.
Valdemar teme desgaste do PL após fuga
O presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, deve conversar nesta quinta-feira (29) com Jair Bolsonaro para avaliar a repercussão da saída de Flávio do Brasil e da divulgação da carta.
A preocupação envolve o risco de desgaste para o partido em um momento no qual a legenda ampliou sua força política após as eleições. A crise também pode intensificar a disputa interna pelo comando do bolsonarismo.
A senadora eleita Michelle Bolsonaro é apontada como um dos nomes que podem ocupar espaço na liderança do movimento. A possibilidade, porém, enfrenta resistência entre os filhos do ex-presidente, de acordo com relatos sobre as articulações internas.
O episódio expõe uma divisão entre a estratégia de confronto defendida pelo núcleo mais radical e a postura de aliados que pretendem preservar espaço político e construir a oposição ao novo governo.
Eduardo e Ramagem reforçam discurso a partir dos EUA
Eduardo Bolsonaro está nos Estados Unidos desde março de 2025. Poucos dias antes do segundo turno, ele chegou a afirmar, em entrevista, que Flávio deveria deixar o Brasil caso perdesse a eleição presidencial.
Além de Eduardo, o ex-deputado federal Alexandre Ramagem também publicou uma foto ao lado do senador nos Estados Unidos. Na mensagem, afirmou que Flávio estaria “livre da perseguição” e que pretende ser “a voz do Brasil por liberdade, segurança e prosperidade”.
As manifestações reforçam a tentativa de apresentar a permanência no exterior como parte de uma estratégia política. Flávio, por sua vez, afirmou na carta que pretende liderar a oposição dos Estados Unidos e assumir riscos que, segundo ele, parlamentares no Brasil não poderiam correr.
“Por isso, liderarei a oposição daqui. Direi o que vocês, aí, não podem dizer, e assumirei os riscos que vocês não podem correr”, escreveu.
O senador também acusou integrantes do STF de perseguição política e afirmou que o país vive um “regime de exceção”. As declarações não vieram acompanhadas de provas que sustentassem as acusações eleitorais.
Flávio deixou o Brasil após ordem sobre passaportes
Flávio chegou a Miami, nos Estados Unidos, na manhã desta quarta-feira (28), acompanhado da mulher e das duas filhas, após uma viagem que passou por Argentina e Equador.
A família cruzou a fronteira entre Brasil e Argentina na noite de terça-feira (27), pela Ponte Internacional Tancredo Neves, entre Foz do Iguaçu e Puerto Iguazú. Depois, embarcou em um avião particular com destino a Guayaquil, no Equador, de onde seguiu para os Estados Unidos.
A saída ocorreu após uma decisão do ministro Alexandre de Moraes, do STF, que determinou a entrega dos passaportes pessoal e diplomático do senador e o proibiu de deixar o país. A medida foi adotada a pedido da Polícia Federal, que apontou risco de fuga no contexto de investigações envolvendo Flávio.
O senador é alvo de investigações no Supremo, entre elas uma apuração sobre suspeitas de lavagem de dinheiro por meio de plataformas de apostas on-line, na qual também é citado o advogado Willer Tomaz. Outro inquérito investiga o financiamento do filme Dark Horse, sobre a trajetória de Jair Bolsonaro.
Democratas dos EUA criticam concessão de visto
A chegada de Flávio aos Estados Unidos também provocou reação política no país. Nesta quarta-feira (28), o Comitê de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados dos Estados Unidos criticou a decisão do governo de Donald Trump de conceder visto ao senador brasileiro.
Em publicação nas redes sociais, o comitê, ligado aos democratas, comparou o tratamento concedido à família Bolsonaro com a política migratória americana aplicada a pessoas que fogem de guerras e conflitos.
“Nenhum asilo para pessoas fugindo da guerra no Sudão ou de conflitos no Haiti, mas [o secretário de Estado Marco] Rubio está estendendo o tapete vermelho para Bolsonaro”, afirmou o grupo no X.
A manifestação acrescenta uma frente internacional à crise política de Flávio, que tenta se apresentar como líder da oposição fora do Brasil enquanto enfrenta o afastamento de aliados e a contestação de sua estratégia dentro do próprio campo conservador.