ATAQUE NA INTERNET

Roteirista do Vale denuncia ataque homofóbico nas redes sociais

Por Xandu Alves | Taubaté
| Tempo de leitura: 6 min
Reprodução/Instagram
Vitor Boarini denunciou o caso em vídeo na rede social
Vitor Boarini denunciou o caso em vídeo na rede social

O roteirista, comunicador e especialista em marketing Vitor Boarini, de 29 anos, afirma ter sido vítima de ataques homofóbicos nas redes sociais após publicar um vídeo em que critica o escritor e candidato à Presidência Augusto Cury (Avante).

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Natural de São José dos Campos e atualmente morador de Taubaté, Vitor decidiu tornar o caso público e registrou boletins de ocorrência contra os autores das ofensas.

Segundo o roteirista, o episódio começou depois que um vídeo publicado por ele no Instagram com críticas a Cury chegou a cerca milhões de visualizações. A publicação, feita inicialmente em um modo de teste da plataforma, acabou alcançando pessoas que não faziam parte de sua rede de seguidores.

Entre os comentários, Vitor identificou uma mensagem de um homem identificado como Victor Silveira, em cujo perfil no Instagram ele se declara mineiro, cristão, torcedor do Cruzeiro, com um link para o perfil da empresa Vale. O perfil dele não está mais disponível na rede social.

Segundo o relato, o internauta escreveu uma ofensa de cunho homofóbico contra o roteirista: “Não esperaria isso vindo menos do que de um veado”.

Após ser questionado sobre o comentário, o homem teria também direcionado ofensas ao marido de Vitor, Ademar Rodrigues, que atua como advogado e passou a acompanhar o caso. O roteirista afirma que, ao verificar o perfil do autor, encontrou uma referência à empresa Vale na bio.

Foi então que Vitor questionou, publicamente, se a empresa tinha conhecimento da postura adotada pelo internauta. De acordo com o roteirista, o homem respondeu afirmando que a Vale não contrataria pessoas gays e que no local trabalhariam apenas “homens e mulheres de verdade”.

Vitor afirma que fez um registro da publicação antes que o comentário fosse apagado.

Roteirista registra BO

Diante da sequência de ataques, o marido de Vitor teria inicialmente notificado o autor das mensagens pelo Instagram. Na sexta-feira, segundo o roteirista, foi registrado um boletim de ocorrência relacionado ao primeiro caso. O caso foi registrado na Delegacia Eletrônica de Taubaté como crime de injúria.

Outros dois registros foram feitos posteriormente, depois que novas ofensas apareceram nos comentários de uma publicação em que Vitor relatava o episódio.

Um dos internautas, segundo o roteirista, escreveu uma ofensa homofóbica associada a uma referência a medicamentos. Outro usuário teria chamado Vitor de “lixo” e feito menções ofensivas à família dele.

O comunicador afirma que não pretende responder aos ataques com novas ofensas. Vitor registrou dois novos boletins de ocorrência na Delegacia Digital SP, na seção "Diversidade e Intolerância", totalizando três investigados no caso.

“Eu não acredito em uma manifestação homofóbica contra homofóbicos”, afirmou Vitor, ao defender que a reação aos casos deve ocorrer dentro da legislação e sem reproduzir o mesmo tipo de comportamento.

Empresa foi procurada

Vitor disse que também procurou a Vale para questionar a relação do autor dos comentários com a empresa. Em resposta enviada ao roteirista, segundo ele, a companhia afirmou repudiar qualquer forma de discriminação, preconceito ou violência, incluindo a homofobia.

A empresa informou ainda que a manifestação foi registrada e seria apurada, com adoção de eventuais medidas cabíveis.

Vitor, porém, considera que a resposta foi genérica e afirma que gostaria de saber se o autor dos comentários possui algum vínculo profissional com a empresa e quais providências serão tomadas.

O roteirista diz que a suspeita surgiu porque o perfil do homem fazia referência à Vale e porque, segundo ele, o comentário em que a empresa era citada acabou sendo apagado pouco depois da publicação.

Até o momento, entretanto, não há confirmação apresentada por Vitor de que o autor das mensagens seja funcionário da Vale.

O que diz a empresa?

Procurada pela reportagem, a Vale se manifestou por meio de nota, afirmando que a "promoção da diversidade e da inclusão são compromissos inegociáveis para nós".

"A Vale repudia a homofobia e qualquer forma de discriminação ou preconceito. Discursos de ódio violam frontalmente o nosso Código de Conduta e não refletem nossos valores. Casos de descumprimento são apurados com rigor, garantindo as devidas medidas disciplinares. A promoção da diversidade, equidade e inclusão, assim como o respeito a todas as pessoas são princípios inegociáveis para nós."

‘Internet não é terra sem lei’

Para Vitor, levar o caso adiante é uma forma de evitar que ataques semelhantes sejam tratados como algo normal nas redes sociais.

“Se eu não levar isso adiante, as pessoas vão continuar fazendo e continuar se sentindo livres para esse tipo de ataque”, afirmou.

O roteirista também espera que, caso seja comprovada a responsabilidade dos envolvidos, haja uma manifestação pública de retratação. Segundo ele, o pedido não seria apenas em relação a ele, mas também à comunidade LGBTQIA+.

“Eu não estou falando de receber algo. Quero que, no mínimo, eles deem uma declaração pública nas redes sociais que utilizaram para me atacar para pedir perdão, não só para mim, mas para a comunidade LGBTQIA+”, disse.

Vitor afirma que continuará acompanhando o caso junto às autoridades. Até o momento, segundo ele, não recebeu novo contato da polícia após os registros.

Perfil do autor não é mais localizado

Durante a entrevista ao OVALE, Vitor também relatou que tentou localizar novamente o perfil de Victor Silveira, mas a conta não estava mais disponível. O endereço aparecia como usuário não encontrado. O internauta não foi localizado pela reportagem. O espaço segue aberto para a manifestão.

A situação, segundo o roteirista, reforçou a decisão de preservar os registros das mensagens e encaminhar o caso pelas vias legais.

Vitor ressalta que não pretende transformar o episódio em uma disputa pessoal. Para ele, a discussão envolve o direito de pessoas LGBTQIA+ de produzirem conteúdo e se manifestarem publicamente sem serem alvo de ataques por sua orientação sexual.

O caso deverá ser analisado pelas autoridades responsáveis, que poderão determinar eventuais providências a partir dos registros apresentados.

Caso deve ser investigado

No Brasil, a homofobia é equiparada a crime de racismo desde 2019, por decisão do STF (Supremo Tribunal Federal).

Segundo o advogado de Vitor, Ademar Rodrigues, as condutas investigadas configuram, em tese: crime de racismo, injúria preconceituosa majorada e ato ilícito cível com dever de indenizar por danos morais.

Todos os boletins estão em fase de análise pela polícia. Rodrigues disse que os investigados são desconhecidos até o momento — a identificação civil completa depende de requisição policial à Meta (empresa responsável pelo Instagram).

Vitor foi orientado sobre o prazo decadencial de 6 meses para oferecimento de queixa crime.

Quem é Vitor Boarini?

Criador de conteúdo digital e profissional de marketing, natural de São José dos Campos, atualmente residente em Taubaté, Vitor Boarini é formado em Marketing e dirige a agência Vitrini — Criação de Conteúdo Digital.

No Instagram, Vitor construiu uma audiência engajada, com mais de 22,6 mil seguidores, predominantemente feminina e LGBTQIA+, compartilhando conteúdo sobre curiosidades, celebridades, lifestyle, política e conscientização social.

Seu trabalho combina entretenimento com pautas de igualdade e direitos humanos.

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