Todo mês de julho (e também em janeiro), Paris para. Esses são os meses que acontecem um dos eventos mais exclusivos do planeta: a Semana de Alta-Costura – a Haute Couture. Este ano, entre os dias 6 e 9 de julho, cerca de 30 maisons apresentaram suas coleções para um público que representa uma minúscula fatia da população mundial.
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E aqui vem a primeira curiosidade. Apesar de milhões de pessoas acompanharem os desfiles pelas redes sociais, estima-se que existam apenas cerca de quatro mil clientes de alta-costura realmente ativas no mundo. Sim, quatro mil!!! Em um planeta com mais de oito bilhões de habitantes.
Mas antes que você pense: "Então isso definitivamente não é para mim", eu diria “Calma! Vamos pensar juntas sobre isso!” (pausa para uma outra pergunta que talvez você também pense: “como a indústria se mantem com apenas 04 mil consumidores ativos?” mas essa é uma resposta que posso trazer em outra coluna – me conta lá no Instagram @fran.galvao se é um tema interessante)
Realmente a alta-costura nunca foi feita para vestir multidões - ela foi criada para provocar ideias, criar conceitos, chacoalhar o status quo.Aliás, você sabe o que define uma peça de alta-costura?
Não basta ser caríssima, ou ser de uma marca famosa.
Na França, o termo Haute Couture é algo protegido por lei. Uma maison precisa cumprir regras rigorosas estabelecidas pela Fédération de la Haute Couture et de laMode para receber essa classificação e fazer parte deste seleto grupo, entre essas regras estão: possuir ateliê em Paris, empregar artesãos especializados e produzir peças praticamente sob medida, com um trabalho manual que pode consumir centenas (em alguns casos, milhares) de horas.
É moda no seu estado mais puro e artesanal, é a construção de cada peça é quase uma arquitetura feita de tecidos.
Agora vem a questão que realmente interessa aos simples mortais - como eu, você e qualquer pessoa que precisaria perguntar se a maisonparcela: se ninguém vai na padaria usando Schiaparelli ou no supermercado de Dior Couture, por que acompanhar esses desfiles?
Porque é ali que a moda começa.A alta-costura funciona como um enorme laboratório criativo. Como um banco de referências, repertorio e possibilidades. É onde os estilistas experimentam proporções, cores, volumes, texturas, materiais e novas formas de construir uma roupa. Algumas ideias permanecem apenas na passarela. Outras descem um degrau e aparecem nas coleções de luxo. Depois chegam às marcas premium. Em seguida às grandes redes. E, quando você percebe, aquela tendência que parecia "impossível" está na vitrine da loja do shopping.É uma espécie de efeito cascata.
Ou seja, a moda sonha em Paris...e alguns meses depois faz liquidação perto da nossa casa.
Claro que nem tudo sobrevive atodo esse percurso e ainda bem, porque convenhamos, algumas criações parecem exigir muito equilíbrio, força e entregar pouquíssimo conforto. Existem vestidos que ocupam metade da passarela, mangas que desafiam a gravidade, chapéus que provavelmente não entram no carro e sapatos que te levariam direto para o hospital.Mas mesmo assim eu gosto de pensar que eles não foram criados para facilitar a vida ou caber na nossa rotina - foram feitos para desafiar a criatividade.E essa talvez seja a maior beleza da alta-costura - ela não existir para ser prática e sim para expandir possibilidades.
Mas sabe o que na minha opinião é a maior lição que a alta costura oferece e devemos prestar muita atenção?
Pensa comigo, estamos vivendo tempos de avanço intensona inteligência artificial e na tecnologia, e neste momento uma marca destacar justamente aquilo que nenhuma máquina consegue substituir: a paciência, o trabalho das mãos, dos bordados, das plissagens, da construção artesanal e do tempo dedicado a cada peça – isso é de uma riqueza incalculável. Reforçando o que sempre digo que moda não é apenas consumo, é cultura, arte, comportamento...é também sensação e desejo.
E mesmo que você jamais tenha uma peça de alta-costura no armário, existe uma boa chance de que, daqui a alguns meses, esteja usando uma inspiração nascida exatamente naquela passarela parisiense.