O medo tomou conta das delegacias, policiais dormiam em alerta máximo e a sensação era de guerra nas ruas. Vinte anos após os ataques promovidos pelo PCC (Primeiro Comando da Capital) em São Paulo, o policial civil Alexandre Silva, atualmente chefe dos investigadores do 3º DP (Distrito Policial) de São José dos Campos, relembra os dias de tensão que marcaram o Vale do Paraíba em maio de 2006.
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Na época, Alexandre integrava a equipe de homicídios da DIG (Delegacia de Investigações Gerais) e tinha apenas quatro anos de carreira na Polícia Civil. Segundo ele, os ataques pegaram as forças de segurança de surpresa e deixaram policiais acuados diante da ofensiva da facção criminosa.
“Os policiais estavam com medo, porque o salve geral [do PCC] veio para pegar. Era informação boca a boca, todo mundo via pela imprensa os ataques acontecendo e ninguém sabia o que poderia acontecer depois”, afirmou.
Em São José dos Campos, o investigador lembra que houve registros de explosivos e diversas ocorrências de emergência. O clima era de tensão permanente.
Barricadas em delegacia
Na sede da DIG, que funcionava na avenida Andrômeda, na zona sul de São José, a reação foi imediata: barricadas improvisadas foram montadas nos acessos da delegacia, enquanto policiais armados faziam a proteção do prédio durante dias.
“O feriado de Dia das Mães virou um caos. A barricada ficou montada por muito tempo porque ninguém sabia até onde aquilo poderia chegar”, relembrou.
Segundo Alexandre, até policiais afastados foram convocados às pressas para reforçar a segurança. Muitos receberam de volta as armas que estavam recolhidas por determinação judicial.
“Houve reunião de madrugada. O delegado chamou todo mundo e avisou que estavam acontecendo ataques. Era para todos ficarem atentos e preparados”, contou.
Recorde de homicídios e rotina de guerra
O policial afirma que maio de 2006 foi um dos períodos mais violentos que já enfrentou na carreira. Os meses de maio e junho daquele ano terminaram com 11 mortes cada. Não foi diferente no Vale do Paraíba: 57 vítimas de homicídio em maio de 2006, mês mais mortal daquele ano.
Integrante da equipe de homicídios, Alexandre participou de uma sequência intensa de atendimentos relacionados a execuções e trocas de tiros. “Foi um mês recorde de mortes. A gente praticamente não parava de trabalhar”, disse.
Enquanto muitos agentes buscavam proteção dentro das delegacias, Alexandre preferia permanecer próximo ao rádio da polícia para atender ocorrências de apoio.
“Toda hora chegava chamado de troca de tiros, pedido de apoio, gente baleada. Todo mundo estava muito acelerado”, relembrou.
Naquele período, segundo ele, o protocolo policial era diferente do atual. Mesmo vítimas gravemente feridas eram colocadas em viaturas e levadas rapidamente ao pronto-socorro, sem preservação rigorosa da cena do crime.
“Pegávamos os baleados e corríamos para o hospital. Muitas vezes eu acabava carregando corpos o dia inteiro”, afirmou.
Suspeita de acordo entre PCC e governo
Um dos relatos mais impactantes do investigador envolve o suposto acordo que teria encerrado os ataques em 2006 — tema debatido até hoje nos bastidores da segurança pública paulista.
Segundo Alexandre, a informação circulou internamente entre policiais durante a crise.
“Um policial chegou dizendo que os ataques tinham acabado porque o governo teria feito um acordo com o comando. Depois disso, realmente tudo parou”, relatou.
A hipótese de negociação entre autoridades e integrantes da facção nunca foi oficialmente admitida pelo governo paulista, mas permanece como uma das principais discussões sobre os ataques de 2006.
“O PCC virou uma fábrica de criminosos”
Ao analisar a evolução da facção ao longo das últimas duas décadas, Alexandre afirma que o principal diferencial do PCC não está apenas no dinheiro do tráfico, mas na estrutura de organização interna criada dentro dos presídios.
Para ele, a facção construiu um sistema de “doutrinação” que fortaleceu o crime organizado no estado.
“Eles criaram um estatuto, uma doutrina. O preso entra e recebe aquilo como regra de vida. O PCC conseguiu criar uma espécie de fábrica para moldar criminosos”, afirmou.
O policial também critica o que considera falhas históricas do Estado no sistema prisional paulista, especialmente a falta de controle dentro das penitenciárias.
“O Estado ignorou isso durante muito tempo. Hoje os presos têm celular dentro das cadeias, conseguem se comunicar facilmente e muitos perderam o medo da prisão”, disse.
Violência gera prejuízo para a facção
Segundo Alexandre, a atual estratégia do PCC de evitar homicídios em determinadas regiões não está ligada à preocupação com moradores, mas à lógica financeira da organização criminosa.
“A violência gera custo. Quando tem homicídio, aumenta a pressão policial e isso atrapalha os negócios da facção. Então eles preferem resolver conflitos de outra maneira”, explicou.
Para o investigador, o combate ao crime organizado passa diretamente pelo enfraquecimento da influência das facções dentro das cadeias.
“Tem que impedir que eles continuem recrutando criminosos na prisão. Porque o sujeito entra e sai preparado, doutrinado”, concluiu.