FACÇÃO CRIMINOSA

Maio sangrento: 20 anos dos ataques do PCC no Vale

Por Xandu Alves | Vale do Paraíba
| Tempo de leitura: 5 min
Imagem ilustrativa/Criada com auxílio de IA

A data do terror.

Há 20 anos, São Paulo e o Vale do Paraíba mergulhavam em uma das semanas mais violentas e traumáticas de sua história. Em maio de 2006, o estado viu presídios em rebelião, ônibus queimados, delegacias atacadas, policiais executados e cidades inteiras paralisadas pelo medo.

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O responsável pela ofensiva foi o PCC (Primeiro Comando da Capital), facção criminosa criada em 1993 na Casa de Custódia de Taubaté. Naquele momento, o grupo criminoso decidiu declarar guerra ao poder público.

O que começou como uma reação à transferência de líderes do PCC para a Penitenciária 2 de Presidente Venceslau rapidamente se transformou em um ataque sem precedentes. Em apenas nove dias, os confrontos deixaram 564 mortos e 110 feridos, segundo dados oficiais e levantamentos de entidades de direitos humanos.

Nas ruas, a facção executou ataques contra bases policiais, viaturas e delegacias. Entre os mortos, estavam 59 agentes públicos, sendo que 40 deles foram assassinados nas primeiras 48 horas.

Terror no vale

O terror não ficou restrito à capital paulista. O Vale do Paraíba entrou na rota da violência e viveu dias de tensão, ataques coordenados e medo generalizado.

Na noite de 12 de maio de 2006, véspera do Dia das Mães, o PCC colocou em prática o chamado “salve geral”, uma ordem enviada de dentro das prisões usando celulares clandestinos. A facção reagia à transferência de 765 detentos, incluindo integrantes da cúpula criminosa, como Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, atualmente o principal comandante da organização.

Em poucas horas, 74 presídios paulistas entraram em rebelião simultânea, incluindo penitenciárias no Vale, incluindo São José dos Campos, Taubaté, Potim e Tremembé. Enquanto isso, nas ruas, criminosos atacavam bases da Polícia Militar, delegacias, fóruns, viaturas e agentes de segurança.

O impacto foi imediato. A capital paulista praticamente parou. Ônibus foram incendiados, o comércio fechou mais cedo, escolas suspenderam aulas e milhares de pessoas ficaram presas em congestionamentos ou buscaram abrigo dentro de casa.

Ataques do PCC no Vale

No Vale do Paraíba, o cenário também foi de medo.

Em Taubaté, criminosos dispararam ao menos 22 tiros contra uma agência da Caixa Econômica Federal no centro da cidade. Os disparos atingiram portas de vidro, caixas eletrônicos e paredes do prédio. A cidade, que abriga importantes unidades prisionais de segurança máxima, virou um dos pontos de atenção das forças de segurança.

Já em Pindamonhangaba, a DDM (Delegacia de Defesa da Mulher) foi atacada com um coquetel molotov. O incêndio destruiu computadores, móveis e parte da estrutura da unidade policial. Na mesma cidade, uma bomba foi lançada contra o fórum local, mas não explodiu.

São José dos Campos, Jacareí e Caçapava registraram incêndios de ônibus, repetindo a estratégia usada pela facção na capital paulista: espalhar o caos urbano e provocar sensação de insegurança coletiva.

Em Ubatuba, o acesso à delegacia foi interditado preventivamente durante os dias de tensão.

As cenas marcaram uma geração. Ruas vazias, ônibus queimados, sirenes constantes e o medo de sair de casa fizeram parte da rotina dos paulistas naquele maio de 2006.

Resposta do Estado

Mas a resposta do Estado também deixou marcas profundas.

Enquanto a facção promovia os ataques, forças policiais desencadearam operações violentas em várias regiões do estado. Organizações de direitos humanos apontam que parte significativa das mortes de civis ocorreu em execuções sumárias.

Relatórios do Cremesp (Conselho Regional de Medicina de São Paulo) mostraram que mais de 60% das vítimas civis foram atingidas na cabeça, nuca ou costas. Dos 505 civis mortos, 94% não tinham antecedentes criminais.

Duas décadas depois, muitos desses casos seguem sem solução definitiva na Justiça.

O movimento Mães de Maio, criado após os ataques, se tornou símbolo da luta por memória e responsabilização. Familiares das vítimas afirmam que a ferida aberta em 2006 jamais cicatrizou.

PCC se transforma em 20 anos

Enquanto as investigações sobre os “Crimes de Maio” seguem cercadas de questionamentos, o PCC passou por uma transformação silenciosa — e gigantesca.

Se em 2006 a facção apostava no confronto direto com o Estado, hoje ela opera como uma estrutura empresarial do crime organizado, com presença nacional e internacional.

Em 2013, investigações do Gaeco apontavam que o PCC tinha cerca de 7,6 mil integrantes, faturava R$ 120 milhões anuais e atuava em 22 estados brasileiros. Vinte anos após os ataques, o cenário mudou radicalmente.

Segundo estimativas do Ministério Público, a organização movimenta cerca de R$ 10 bilhões por ano, reúne aproximadamente 40 mil integrantes e está presente em todos os estados brasileiros, além de atuar em 28 países. Uma verdadeira multinacional do crime.

“O PCC hoje é essa diversidade, é o tráfico internacional. As lideranças se encontram escondidas na Bolívia. Algumas lideranças ainda estão aqui no Brasil, mas a maioria se encontra escondida na Bolívia”, disse o promotor de justiça Alexandre Castilho, do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado), do Ministério Público de São Paulo.

“Eles são profissionais, se preparam. Eles aprendem, inclusive conosco. Então, se você investiga de uma forma, na seguinte, se você repetir, eles já aprenderam. Você tem que mudar sempre.”

Expansão dos negócios

A facção expandiu seus negócios no tráfico internacional de drogas, lavagem de dinheiro, mercado clandestino, logística criminosa e infiltração financeira.

Para investigadores, o PCC deixou de agir como uma facção tradicional e passou a funcionar como uma espécie de máfia transnacional.

O promotor Lincoln Gakiya, uma das principais autoridades no combate ao PCC, afirma que o grupo percebeu que ataques diretos contra o Estado geravam prejuízos financeiros e repressão intensa. A estratégia passou então a ser a expansão silenciosa.

Segundo ele, o crime organizado hoje busca hegemonia econômica, controle territorial e influência institucional. O próprio Gakiya vive sob escolta policial permanente após ameaças atribuídas à facção.

PCC no centro de crise diplomática internacional

O crescimento da organização também colocou o PCC no centro de discussões internacionais. Nos últimos anos, autoridades dos Estados Unidos passaram a discutir a possibilidade de classificar o grupo como organização terrorista, embora especialistas brasileiros apontem diferenças entre o PCC e grupos extremistas ideológicos.

Mesmo assim, o alcance da facção hoje impressiona investigadores ao redor do mundo.

Duas décadas depois dos ataques que pararam São Paulo, maio de 2006 continua sendo lembrado como um divisor de águas na segurança pública brasileira.

Os tiros contra delegacias, ônibus incendiados e cidades paralisadas deram lugar a um modelo de crime mais sofisticado, menos visível — e muito mais lucrativo.

O medo mudou de forma. Mas nunca deixou de existir.

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