A MORTE DE JUSCELINO

JK foi assassinado na Dutra pela ditadura, diz relatório

Por Da redação | São José dos Campos
| Tempo de leitura: 4 min
Arquivo Público do Distrito Federal
Juscelino Kubitschek em Brasília
Juscelino Kubitschek em Brasília

A Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) analisa um relatório que aponta que o ex-presidente Juscelino Kubitschek foi morto por uma ação do regime militar em 22 de agosto de 1976, na Via Dutra (BR-116), entre Rio de Janeiro e São Paulo.

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O documento, elaborado pela historiadora Maria Cecília Adão, conclui que o Chevrolet Opala em que JK viajava não sofreu um acidente comum. Segundo a relatora, houve uma “ação externa” que provocou a saída do veículo da pista antes da colisão com uma carreta que seguia no sentido contrário.

O relatório, com mais de 5 mil páginas e revelado pela Folha de S.Paulo, contesta a versão oficial adotada durante a ditadura militar e posteriormente mantida pela Comissão Nacional da Verdade (CNV), em 2014.

Como foi a morte de JK

Juscelino Kubitschek morreu em 22 de agosto de 1976, no quilômetro 165 da Via Dutra, nas proximidades de Resende (RJ).

Segundo a versão oficial da época, o Opala conduzido pelo motorista Geraldo Ribeiro teria sido atingido levemente por um ônibus durante uma ultrapassagem. O impacto teria feito o carro perder o controle, invadir a pista contrária e bater de frente com uma carreta.

JK e Geraldo morreram no local. O motorista da carreta, Ademar Jahn, sobreviveu.

A nova análise da CEMDP, porém, afirma que não existem elementos materiais que comprovem a colisão inicial com o ônibus e sustenta que a saída do carro da pista foi provocada deliberadamente.

Relatório reabre debate histórico

A conclusão representa uma reviravolta em um dos episódios mais controversos da história política brasileira.

Criada pela Lei 9.140/1995, no governo Fernando Henrique Cardoso, a CEMDP é um órgão oficial do Estado brasileiro com apoio técnico-administrativo do Ministério dos Direitos Humanos.

O caso voltou a ser analisado após pedido apresentado por Gilberto Natalini, ex-presidente da Comissão Municipal da Verdade Vladimir Herzog, e pelo jornalista Ivo Patarra.

Em dezembro de 2013, a Comissão Municipal da Verdade da Câmara de São Paulo já havia concluído que JK e Geraldo Ribeiro foram vítimas de “conspiração, complô e atentado político”.

O chamado “Relatório JK” apontava que o motorista teria perdido o controle do veículo após ser atingido por um tiro na cabeça.

À época, o motorista da carreta relatou ter visto Geraldo Ribeiro “com a cabeça caída entre o volante e a porta do automóvel”.

Comissão Nacional da Verdade discordou

Em 2014, a Comissão Nacional da Verdade contrariou a tese de assassinato político.

No relatório da CNV, os investigadores afirmaram que não havia “qualquer elemento material” que indicasse homicídio doloso contra JK e Geraldo Ribeiro.

A comissão também analisou um fragmento metálico encontrado no crânio de Geraldo Ribeiro durante exumação realizada em 1996. O vestígio foi identificado como um cravo metálico do revestimento do caixão.

No início de 2025, o governo federal e a CEMDP decidiram reabrir oficialmente a investigação.

O que diz o Ministério dos Direitos Humanos

Leia a nota na íntegra:

“A Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) foi instituída por meio da Lei 9.140/1995 com o objetivo de proceder ao reconhecimento de mortos e desaparecidos políticos e envidar esforços para a localização de corpos.
É composta por sete membros designados pelo Presidente da República dos seguintes órgãos e entidades: Ministério da Defesa, Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, MPF, pessoas com vínculo com os familiares de mortos e desaparecidos e representantes da sociedade civil.
Cabe ao MDHC dar suporte ao funcionamento da Comissão.
As decisões sobre o reconhecimento ou não de desaparecidos políticos são votadas em reuniões da CEMDP e aprovadas por maioria simples, conforme previsto em seu regimento.
Ressalta-se que o relatório em questão está em análise pelos membros e não foi votado até o momento.”

Nota da CEMDP

“Frente à ampla repercussão quanto à possibilidade de reanálise do caso da morte do ex-presidente Juscelino Kubitschek, a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) vem a público informar o que segue:
a) o pedido de reabertura da investigação do caso JK foi protocolado logo após a reinstalação da CEMDP, por solicitação encaminhada por Gilberto Natalini, expresidente da Comissão da Verdade Municipal de São Paulo, e Ivo Patarra;
b) o pedido foi pautado na 2ª Reunião Ordinária acima mencionada, realizada em novembro de 2024, tendo sido, na ocasião, distribuído à relatora Dra. Maria Cecília Adão;
c) desde então, a relatora tem trabalhado de forma articulada com pesquisadores do tema a fim de oferecer um relatório sobre o caso tendo comunicado aos familiares que o caso estava em análise;
d) o relatório foi apresentado na 7ª Reunião Ordinária da CEMDP que ocorreu no dia 01 de abril de 2026, para conhecimento e apreciação do colegiado;
e) diante do extenso número de documentos para análise e da necessidade de dar conhecimento aos familiares sobre o conteúdo das apurações, deliberou-se que a votação ocorreria depois do contato com as famílias.
Reitera-se que o relatório baseia-se em elementos que já eram públicos, como os que foram coletados no âmbito do Inquérito do Ministério Público Federal nº 1.30.008.000307/2013-79. Os demais elementos, elaborados durante o trabalho da CEMDP, serão divulgados quando da conclusão da deliberação.
Por fim, a CEMDP reforça seu compromisso com o diálogo permanente com as famílias de vítimas de violência de Estado, que têm sido e serão sempre protagonistas na busca por memória, verdade e justiça.”

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