VOLTA ÀS AULAS

Escolas tentam se equilibrar entre oba-oba e demonização da IA

Por Laura Mattos | da Folhapress
| Tempo de leitura: 5 min
Wilson Dias/Agência Brasil
Um grande desafio hoje da educação é 'alinhar a IA ao projeto pedagógico da escola'
Um grande desafio hoje da educação é 'alinhar a IA ao projeto pedagógico da escola'

A inteligência artificial virou um dos principais temas do início do ano letivo ao criar nas escolas uma situação gato e rato: enquanto alunos as usam para redigir redações e trabalhos, professores as usam para detectar redações e trabalhos feitos por IA. Em resposta, os estudantes utilizam novas ferramentas que fazem textos que não se parecem com IA.

A pergunta que tem tomado a cabeça de docentes, diretores e pais é a mesma: faz sentido continuar nessa caçada, em uma disputa inglória, ou é melhor todo mundo parar para refletir sobre riscos, vantagens e um uso que seja consciente, ético e saudável?

"Estamos no momento de superar a fase da resistência e entender que é inevitável que os estudantes usem IA", diz Cláudia Tricate, diretora do Colégio Magno, de São Paulo. "A questão é entenderem quando vale a pena usar e de que forma vão se desenvolver e ter senso crítico, até para fazer boas perguntas para a IA."

De fato, as ferramentas se disseminaram entre alunos. A pesquisa TIC Educação, referência sobre o uso da tecnologia nas escolas brasileiras, mostrou que, no ensino médio, 70% usam IA para trabalhos escolares (o número deve ser maior, uma vez que a coleta de dados foi de agosto de 2024 a março de 2025).

Professor da disciplina de IA do Liceu de Artes de São Paulo, Lucas Chao conta que a escola procura definir quando a ferramenta deve ser usada e quando é proibida -modelo que tem se tornado comum. "A utilização deve acontecer apenas no que é determinado pelo professor, mas sabemos que nem sempre é assim. Quando há a proibição e constatamos o uso, o trabalho pode ter sua nota zerada", diz. "Mas reconhecemos que a proibição não é o melhor caminho e, por isso, estamos trabalhando o 'pensar com' a IA e o 'pensar sobre' a IA."

No caso da redação, muitas escolas têm optado por pedir o texto à mão, inclusive para treinar para os principais vestibulares, ainda não digitais.

A IA é também usada na correção de redações, lembra Cláudia Tricate. "Temos que dividir com os alunos essa reflexão, a de que pode ser uma boa para corrigir, mas não para produzir. E que, sem repertório, não há nem como utilizar bem a IA."

O uso da inteligência artificial está disseminado também entre os professores no Brasil, incluindo para a produção e correção de provas e o planejamento - 53% dos docentes do país dizem utilizar as ferramentas, contra 36% dos 53 países avaliados pela Talis (Pesquisa Internacional sobre Ensino e Aprendizagem, na sigla em inglês), da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico).

O levantamento aponta que países em que os professores menos utilizam IA, como França (13,5%) e Japão (17,4%), estão entre os com melhores desempenhos.

A OCDE, assim como outras organizações internacionais, tem recomendado cautela na adesão à inteligência artificial nas escolas. Um relatório recente ressaltou a necessidade de mais pesquisas para avaliar os impactos no aprendizado.

O documento afirma que a IA se mostra potencialmente vantajosa para auxiliar educadores no diagnóstico da evolução dos estudantes e em tutorias individualizadas, mas alertou para uma série de riscos, entre os quais destaca um "crítico": o de prejudicar o desenvolvimento de habilidades humanas fundamentais, a compreensão dos próprios processos de cognição e de aprendizagem e a capacidade de julgamento.

Isso sem falar dos perigos ligados a dados e privacidade. E recomentou a formação de professores e alunos para um uso ético e responsável, em que a IA seja auxiliar e não substituta do olhar humano.

E esse é justamente um dos principais nós: os educadores ainda não estão plenamente capacitados para isso. A TIC Educação 2025 apontou que apenas 54% dos professores brasileiros tiveram formação continuada sobre como orientar os alunos para o uso das tecnologias digitais -neste ano, deve ser aprovada no país a obrigatoriedade do ensino de inteligência artificial nos currículos de pedagogia e dos cursos de licenciatura.

Os professores se deparam com questões complexas, entre elas, o cyberbullying. Isso se agravou com ferramentas usadas para criar imagens e vídeos pornográficos a partir de fotos de crianças e adolescentes. Há ainda o temor do uso disseminado de deepfakes, especialmente durante o período eleitoral.

O Colégio Porto Seguro, de São Paulo, tem realizado palestras sobre o assunto. "O ano passado foi de muita preocupação dos pais, com o uso para fazer redação, trabalhos, com o cyberbullying, e chamamos especialistas para falar com os alunos e as famílias", diz Alexandre Marcondes, diretor de tecnologia e inovação.

Alessandra Buriti, coordenadora de educação digital do colégio, conta que os alunos estão fazendo trabalhos com o uso positivo da IA. "Teve um grupo, por exemplo, que levantou dados sobre suicídio para buscar padrões e propor caminhos para a prevenção."

Os professores usam as ferramentas do próprio sistema do colégio, entre elas a de análise da performance dos estudantes, e testam outras nas classes. Entre os exemplos, está o de um docente que pediu para os alunos, no começo de todas as suas aulas, fazer um check-in no Microsoft Reflect -a ferramenta tem um quiz sobre bem-estar para analisar aspectos socioemocionais dos estudantes e propor formas de auxiliá-lo em dificuldades, como ansiedade ou desengajamento.

Um grande desafio hoje da educação é "alinhar a IA ao projeto pedagógico da escola, não só do ponto de vista instrumental -como uma ferramenta-, mas da construção do olhar crítico", diz Juliana Caetano, coordenadora de tecnologia da educação do colégio Vera Cruz e do Instituto Vera Cruz, que forma professores, em São Paulo. "A IA não pode ser demonizada nem vista com fetichismo. Precisamos ocupar o caminho do meio, colocando a IA em favor da inteligência humana, e não o contrário."

"Mesmo na educação infantil, essas ferramentas podem ser apresentadas de forma a problematizar sobre o uso", diz. Ela dá um exemplo: "Em uma roda de conversa, os alunos inventam um herói. Depois, com as características apontadas por eles, pede-se para a IA trazer uma imagem do herói. Diante do resultado, um caminho é o reafirmar o encantamento: 'Nossa, que incrível o que a IA fez'. Outro é: 'Será que foi a IA que fez, ou ela partiu do que nós pedimos? E, se pedirmos coisas ruins, ela também vai fazer? A ação está na mão de quem?'".

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