O geógrafo Angelo dos Santos, de 48 anos, tornou-se conhecido na comunidade de montanhistas por encarar trilhas perigosas e complicadas, como o Pico da Bandeira (entre Minas e Espírito Santo), um dos mais altos do Brasil, e a Pedra da Gávea, no Rio de Janeiro.
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Detalhe: Angelo não tem a perna esquerda desde os 17 anos de idade e superou dois cânceres antes de se tornar o ‘Saci Trilheiro’, personagem imortalizado pelo escritor taubateano Monteiro Lobato e incorporado por Angelo, mas não sem resistência.
Ele contou ao UOL que relutou em assumir o nome em seu lado aventureiro porque ele começou como chacota.
Paranaense de Ponta Grossa e morador de Brasília desde 2006, Angelo tinha 17 anos quando recebeu o diagnóstico de um fibrossarcoma, um tipo de câncer.
“Vi que minha perna esquerda estava um pouco inchada. Não dei muita importância no primeiro momento, mas logo senti que tinha algo diferente na altura da virilha”, disse ele em entrevista ao UOL.
“Fui ao médico e, depois de exames mais aprofundados, me disseram que seria necessária uma cirurgia. Achei que seria algo simples, mas, durante a operação, o médico descobriu que o tumor era mais complexo do que imaginava”, contou.
A decisão pela amputação total da perna esquerda foi difícil, mas inevitável.
“Levei uma semana para aceitar. Eu tinha febre, muita dor, e sabia que era arriscado manter a perna, pois a infecção poderia se espalhar. No dia 10 de agosto de 1994, acordei no centro cirúrgico e, dez horas depois, estava sem minha perna. Minha vida continuou daquele ponto em diante”, afirmou Angelo.
Volta do câncer.
Dois anos depois da amputação, ele enfrentou o retorno do mesmo câncer – o tumor cresceu na cicatriz da amputação – e complicações no tratamento. Foram 40 sessões de radioterapia.
Depois da oitava, Angelo passou a ter dificuldade de ir ao banheiro e precisou usar bolsas de colostomia, para eliminação das fezes, e urostomia, para a urina.
Em meados de 2000, após o retorno da exibição na TV do “Sítio do Picapau Amarelo”, baseado na obra de Monteiro Lobato, as crianças na rua passaram a chamá-lo de saci, um dos personagens do programa. Na época, isso o incomodava.
“Não gostava da minha aparência, não gostava de me ver sem perna, e isso afetava minha autoestima. Eu entendia as crianças, mas não aceitava”, disse.
Ele também teve de lidar com as dificuldades de usar a prótese, e precisou apostar nas muletas. Em 2018, Angelo encontrou nas trilhas uma forma de aceitar sua condição. Ele caminha usando as muletas.
Trilhas.
Então, Angelo resolveu abraçar o apelido que o machucava antes. Nasceu o ‘Saci Trilheiro’, com carapuça vermelha, muleta e uma bolsa acoplada ao corpo. Ele criou o perfil no Instagram para compartilhar suas aventuras. São quase 25 mil seguidores, e muita mensagem de quem se sente inspirado pela disposição do geógrafo.
“Usar o nome Saci no Instagram e agora me fantasiar de Saci significa, pra mim, uma evolução para um nível de autoaceitação em relação a minha realidade de amputado como nunca tinha acontecido antes”, escreveu Angelo nas redes.
“Não foi o fim do mundo perder uma perna aos 17 anos, mas também passar a conviver com essa realidade, principalmente no início, não foi um mar de rosas”, disse.
Ele contou que precisou passar por um processo de reflexão, autoconhecimento, aprendizado e desprendimento para, cada vez mais, ter se tornado “uma pessoa que procura levar a vida de uma forma mais leve, sem as amarras que muitas vezes criamos para nós mesmos”.
“Fazer esse tipo de brincadeira da minha semelhança com esse personagem do folclore nacional me diverte e me faz bem”, completou.
* Com informações do portal UOL