PARQUE INDUSTRIAL

Obra: nova creche de São José vira imbróglio que já dura 40 meses

Por Julio Codazzi | São José dos Campos
| Tempo de leitura: 5 min
Reprodução/Google Street View
Obra deveria ter ficado pronta no primeiro semestre de 2022
Obra deveria ter ficado pronta no primeiro semestre de 2022

Um imbróglio que já dura mais de 40 meses e envolve a Prefeitura de São José dos Campos e a empresa Elefe, que tem sede no município, transformou em uma novela a construção da nova escola de educação infantil do Parque Industrial, na região sul da cidade.

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O contrato foi assinado em janeiro de 2021 e a obra tinha prazo de conclusão de 15 meses, mas até agora o trabalho avançou apenas 27%. Nesse período, após duas prorrogações, o serviço ainda ficou R$ 1,254 milhão mais caro, passando de R$ 5,443 milhões para R$ 7,193 milhões.

Em 2023, a Prefeitura deu início ao processo de rescisão unilateral do contrato, sob a alegação de que a empresa descumpriu cláusulas. Esse ano, a Elefe ajuizou uma ação para pedir que a rescisão seja barrada, sob o argumento de que o município foi o responsável pelos problemas ocorridos.

VERSÃO DA EMPRESA.
À Justiça, a Elefe alegou que o problema teve início quando a Prefeitura não permitiu que as empresas licitantes fizessem visita técnica ao local da obra e nem apresentou as sondagens do terreno. Após vencer a concorrência e assinar o contrato em janeiro de 2021, a construtora apontou que descobriu na área, na fase das escavações, a existência de uma malha de cobre que compõe uma torre de radiodifusão, que se mostrou um impeditivo para a continuidade do serviço. Com isso, a pedido do município, os trabalhos teriam sido suspensos.

Apenas em junho de 2021 a Prefeitura teria emitido a ordem de serviço, com uma solução para o problema da malha de cobre: a obra seria feita em outro ponto da área. A Elefe alega que, com essa mudança, foi necessário alterar a planilha da obra, já que haveria "grande modificação do projeto". Além disso, a empresa argumenta que a pandemia da Covid-19 impactou nos preços dos insumos da construção civil.

Devido à mudança no local da obra e ao aumento nos preços dos produtos, em outubro de 2021 a Elefe solicitou que houvesse o reequilíbrio econômico do contrato. O pedido foi atendido pela Prefeitura apenas no dia 30 de janeiro de 2023 - foi essa decisão que deixou o contrato R$ 1,254 milhão mais caro. Segundo a empresa, essa demora, que teria decorrido 467 dias, impactou "diretamente à execução contratual e a saúde financeira" da construtora. Além disso, em 15 de fevereiro de 2023, exatos 16 dias após responder o pedido de reequilíbrio econômico, a Prefeitura notificou a Elefe sobre a intenção da rescisão unilateral do contrato.

Na ação, a Elefe afirma terem ocorrido "equivocadas decisões administrativas" por parte da Prefeitura. "Ao se analisar o caso, temos a nítida percepção de que as decisões(omissões) administrativas foram determinantes para o desempenho da obra, tendo em vista que, naquilo que lhe cabia, [a Prefeitura] foi ineficiente, burocrática e desproporcional".

A empresa argumenta ainda que, além do valor repassado pela Prefeitura pelo percentual executado, de R$ 1,85 milhão, também teria mais R$ 300 mil a receber. À reportagem, a Elefe afirmou que esse valor adicional seria referente a serviços que não estavam previstos no contrato, mas foram executados para corrigir a "falha no planejamento e elaboração do projeto básico", que levou à mudança no local da obra.

Na ação, a Elefe pede que a Justiça anule a decisão administrativa que determinou a rescisão unilateral do contrato e que seja determinada a quitação dos serviços realizados e não pagos, bem como de um reajuste anual que teria que ser calculado sobre as parcelas vencidas após novembro de 2022.

JUSTIÇA.
A ação movida pela empresa tramita desde janeiro desse ano na 1ª Vara da Fazenda Pública de São José dos Campos.

Em abril, em decisão liminar, o juiz Silvio José Pinheiro dos Santos negou o pedido da empresa para suspender a rescisão unilateral, por entender que essa é uma "prerrogativa da administração pública". O magistrado fez uma ressalva, no entanto, de que isso não impede que a Prefeitura tenha que pagar à construtora os "prejuízos eventualmente causados" por essa rescisão.

Por outro lado, também em caráter liminar, o juiz determinou que a Prefeitura não aplique nenhuma multa à empresa até o julgamento final do processo.

VERSÃO DA PREFEITURA.
Questionada pela reportagem, a Secretaria de Gestão Habitacional e Obras afirmou que deu início ao processo de rescisão unilateral por fatores como "não cumprimento de cláusulas contratuais", "atraso na execução da obra" e "número de funcionários incompatível com o necessário". No entanto, a pasta não comentou as alegações feitas pela empresa sobre a suposta falha no projeto básico, o atraso para emissão da ordem de serviço, a necessidade de mudança do local e a demora de 13 meses para aprovar o pedido de reequilíbrio financeiro.

A secretaria afirmou ainda que, além da rescisão do contrato, avalia a aplicação de penalidades à Elefe, como "glosar o dinheiro depositado para cobrir eventuais prejuízos aos cofres públicos" e a "declaração de inidoneidade", que "impede a empresa de participar de novas concorrências em quaisquer órgãos do poder público, em qualquer nível da federação".

Sobre a retomada dos serviços, a pasta afirmou que "irá abrir nova licitação para contratar outra empresa", mas que antes será "necessário fazer um laudo técnico para avaliar o estado em que se encontra a obra". A secretaria não informou quando esse laudo será concluído e qual é a previsão de abertura do novo processo licitatório.

Pelo projeto inicial, a escola terá capacidade para até 430 alunos com idades entre 0 e 5 anos. A unidade terá 12 salas de atividades, solário, salas de apoio para higienização dos bebês, sanitários, sala multiuso, cozinha, amplo refeitório, playground, berçário, além de dependências administrativas.

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