Uma imagem vale por mil palavras, diz o famoso ditado.
A fotógrafa Larissa Isis, 37 anos, de São José dos Campos, fez uma foto valer por atos contra o racismo.
Clique aqui para fazer parte da comunidade de OVALE no WhatsApp e receber notícias em primeira mão. E clique aqui para participar também do canal de OVALE no WhatsApp.
As imagens cruas, simples e diretas feitas por ela expõem o que há de mais doloroso na vida de mulheres negras: as piadas, frases preconceituosas e discriminações escondidas nas falas cotidianas, travestidas de humor ou falsa simpatia, que as acerta com violência em seu amor próprio.
“Preconceito e racismo estão presentes. É diário, acontece sempre algo do tipo, de olhar, os comentários. O projeto é atual e sempre falo isso. Continua fazendo muito sentido”, disse ela a OVALE.
CANSAÇOS
O projeto se chama ‘Cansei’ e foi lançado por Larissa em 2014, há uma década, mas tem total relevância em 2024, chamando a atenção inclusive de pessoas famosas nas redes sociais. Tanto que ela quer excursionar pelo Brasil com a proposta de discutir racismo, preconceito e luta antirracista com crianças e jovens.
Larissa fotografa mulheres negras segurando uma lousa na qual escrevem situações do cotidiano que as incomoda e fere, da qual estão “cansadas”, daí o título do projeto (veja galeria de imagens no final da matéria).
“Cansei de ser negra somente em novembro”, escreveu Fernanda, uma das mulheres clicadas por Larissa. “Cansei de ser seguida pelos seguranças dos shoppings”, diz a placa de outra mulher. "Cansei de ser a única negra no meu bairro", apontou uma mulher francesa que morava nos Jardins, bairro luxuoso de São Paulo.
RACISMO COTIDIANO
As frases chamam a atenção por revelar situações corriqueiras, como ir ao shopping, ao salão de cabeleireiro, andar nas ruas ou ir trabalhar, mas envolvidas em falas preconceituosas e discriminatórias, que ferem e violentam essas mulheres.
“É muito triste passar por racismo em qualquer idade. Mas me deixa muito chateada ver crianças negras passando por isso”, afirmou Larissa.
Ela contou que viu vídeos na internet de crianças negras em parques de diversão nos Estados Unidos sendo preteridas por pessoas vestidas de personagens, que se negavam a cumprimentá-las. “Ainda tem muita coisa acontecendo em termos de racismo”, disse a fotógrafa, que também é formada em Nutrição.
É dessa dor do toque de mão negado a uma pessoa negra que ela fala com seu trabalho. Aquele ato racista que muitas vezes só é percebido por quem sofre. Por isso a fotógrafa quer expandir o projeto e levá-lo a cidades brasileiras neste ano para promover a discussão sobre preconceito e racismo.
“Estou em busca de ajuda para escrever [o projeto] num edital que me leve para todos os estados do Brasil onde possa conversar sobre ele, principalmente com crianças e adolescentes. São elas que vão mudar tudo isso, a sociedade que temos, elas são a mudança. Ideia é continuar”, explicou.
INSPIRAÇÃO
Uma das profissionais retratadas na primeira edição da revista Latente, publicada na internet neste mês, Larissa relevou que o formato de usar a lousa e escrever o cansaço era para expressar que não se tratava de fotos “engraçadas”.
“É uma foto que não era para sorrir. Comecei em 2014, mas o projeto ficou mais conhecido em 2016, que é quando começa a viralizar na internet. Todos os lugares que ia levada lousa e câmera e fazia as fotos. Estou chegando a 100 cansaços, alguns mais recentes."
Larissa contou que a inspiração veio do projeto “I’m Tired’, nos Estados Unidos, no qual as pessoas tiram a roupa e escrevem frases no corpo. Também veio do trabalho de Lorena Monique dos Santos, da Universidade de Brasília, chamado ‘Ah, branco, dá um tempo”, por sua vez inspirado no “I, Too, Am Harvard”, campanha de estudantes negros da Universidade de Harvard, nos EUA.
“Vi que seria legal um projeto como esse. Conversando com amigas a gente ouve essas coisas, independente do lugar que mora, da tonalidade de pele. A gente dividia cansaços muito parecidos. Veio essa ideia”, contou Larissa.
Com amigas, ela criou o ‘Projeto Melanina’ no Vale do Paraíba, um encontro para debater assuntos ligados à comunidade negra, com palestras, oficinas, exposições e feira para vender produtos. “Na segunda edição do Melanina, resolvi chamar pessoas para fazer essa foto com a frase”.
Com seus 10 anos de ‘Cansei’, Larissa percebe que o projeto segue muito atual. Ela encontrou recentemente uma mulher que fotografou no começo do projeto. “Ela me disse que havia acontecido há poucos dias exatamente o que escrevera na lousa. Ainda precisamos falar sobre esse tipo de coisa”.