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Educação socioemocional ajuda a conter violência nas escolas

Por Renata Del Vecchio | São José dos Campos
| Tempo de leitura: 5 min
Divulgação
No Colégio Univap,  a inteligência socioemocional é uma disciplina
No Colégio Univap, a inteligência socioemocional é uma disciplina

Na atualidade, escolas e creches têm enfrentado casos alarmantes de violência. Como resposta a essa crescente preocupação, a saúde mental e emocional no ambiente escolar tem ganhado destaque em escolas públicas e privadas, a partir de uma constatação simples: à medida que os estudantes adquirem habilidades para gerenciar os próprios sentimentos e emoções, a agressão e os conflitos diminuem.

“É extremamente importante ter profissionais de psicologia e de assistência social dentro das escolas. Na abordagem biopsicossocial, o indivíduo é compreendido nas dimensões biológica, psicológica e social. Isso significa que o estudante precisa de cuidados com a saúde física, mas também com a psicológica, para apresentar um comportamento adequado à sociedade”, explicou Monique Marques Godoy Dolcinotti, mestre em psicologia e professora da Unitau (Universidade de Taubaté).

Na contramão do que defende a especialista, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), vetou recentemente um projeto aprovado pela Assembleia Legislativa que autorizava a contratação de psicólogos e assistentes sociais para escolas públicas da rede estadual, alegando que um projeto semelhante já está sendo criado pela Secretaria de Educação. Em março deste ano, após o ataque de um aluno à escola estadual Thomazia Montoro, em São Paulo, a contratação de psicólogos foi anunciada.

“A infância e a adolescência são solos férteis para o desenvolvimento saudável. E a psicologia escolar faz esse trabalho de mostrar aos estudantes como lidar com as emoções. Sobre a violência nas escolas, percebo que as crianças não sabem lidar com os sentimentos, nem se comunicar. Então, recorrem ao que temos de mais primitivo, que é a agressão, para se defender. Mas se a criança não tem recursos, nós estamos sendo cruéis com ela. Se achamos que o problema está nos pais, que não sabem educar, também estamos sendo cruéis, porque a formação psicológica não acontece somente no ambiente familiar”, completou Monique.

INICIATIVA.
Em São José dos Campos, a rede municipal de educação implementou, desde março deste ano, o atendimento psicológico para estudantes em situação de vulnerabilidade social e com prejuízos no processo de aprendizagem. Ainda que com o foco no rendimento escolar, o trabalho dos profissionais, que é desenvolvido em conjunto com a assistência social e a com a orientação educacional de cada escola, traz um olhar diferenciado para a saúde emocional dos estudantes.

Cada escola tem um psicólogo e um assistente social disponíveis uma vez na semana. Segundo Cláudia Khouri, diretora do Departamento de Educação Básica da rede municipal de São José, o olhar mais atento às necessidades emocionais dos estudantes se intensificou com a pandemia, onde a ansiedade passou a fazer parte da rotina escolar e demandou apoio psicológico.

“Semanalmente, o orientador já tem uma pauta com o que deve ser tratado com os dois profissionais. Quando há uma demanda urgente, os psicólogos escolares fazem o primeiro atendimento, e, depois, o estudante é encaminhado para o atendimento clínico fora da escola. Ambos acompanham a rotina escolar, atuando tanto em atendimentos pontuais quanto nos preventivos”, explicou Cláudia.

Para ela, a atuação conjunta destes profissionais já surtiu efeito, diminuindo o número de conflitos graves que chegam até a Secretaria de Educação. Neste sentido, a diretora reforça que outras medidas também foram implementadas, como o aprimoramento de professores para gerir conflitos, a disseminação da cultura de paz nas escolas e a multiplicação de uma técnica chamada “Semáforo da comunicação empática".

“Um juiz (Alessandro Souza Lima, da 6ª Vara Cível) usou o conhecimento em mediação de conflitos para criar uma técnica. Voluntariamente, ele nos procurou e criamos um piloto. Neste ano, nós conseguimos ampliar o conhecimento de forma significativa, inclusive, capacitando alunos de grêmios estudantis. A técnica consiste em reconhecer e neutralizar os sentimentos, utilizando as cores do semáforo, com foco na resolução”, disse Cláudia. 

Pelo grau de didática, e, por trabalhar valores como a empatia, a técnica “Semáforo da comunicação empática” foi rapidamente absorvida por estudantes. “Na escola, tentamos resolver tudo com conversa, ouvindo e entendendo o outro. Usamos nas aulas e nos jogos interclasses, por exemplo, onde tivemos que tomar decisões como votar em camisetas, quando perdemos ou ganhamos competições, e, também, ao apresentar trabalhos em grupo”, disse João Paulo Kelson, 14 anos, da escola Professora Ilga Pusplatais, localizada no Jardim Ismênia.

Sobre o atendimento psicológico nas escolas, a estudante Maria Fernanda Prados Ribeiro, 15 anos, complementou: “as rodas de conversa e as atividades com a psicóloga da escola nos ajudam a aprender a ter empatia, a saber ouvir e a respeitar. Convivemos aqui todos os dias, então, precisamos de conexão e de compreensão com todos os colegas e com a equipe”. 

REDE PARTICULAR.
No colégio Univap, a inteligência socioemocional é uma disciplina cursada desde o primeiro ano do Ensino Fundamental até o último do Ensino Médio. A psicopedagoga Maria Fernanda Fernandes, orientadora educacional dos Anos Iniciais, diz que é ensinado aos alunos que os conflitos existem e que eles são carregados de sentimentos e emoções.

Por lá, ainda existe um projeto chamado Escola da Inteligência, que também surgiu para trabalhar as emoções e a mediação de conflitos, considerando a faixa etária dos estudantes. Segundo a orientadora educacional, a iniciativa tem ajudado na prevenção do bullying, do uso de drogas e da violência, uma vez que oportuniza o diálogo e as relações.

“É impossível falar de um ser humano sem considerar as emoções. Porque se um aluno vai prestar vestibular, por exemplo, sem estar com o emocional preparado, ele não consegue. Então, acredito que as escolas estejam repensando muita coisa, sobre trazer a família para dentro e entender a história daquela criança. O aluno precisa ter escuta e acolhimento para lidar com as emoções, ou, quando não souber, buscar a ajuda de um adulto”, finalizou Maria Fernanda.

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