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Cidadãos do mundo escolhem São José para viver e ajudam a moldar a identidade da cidade

Por Daniela Borges | São José dos Campos
| Tempo de leitura: 5 min

As mil faces de uma cidade onde cabe o mundo.

O meu pai era paulista. Meu avô, pernambucano. O meu bisavô, mineiro. Meu tataravô, baiano. Assim como na canção de Chico Buarque, é possível encontrar em São José pessoas dos quatro cantos do Brasil e do mundo. São mais de 30 nacionalidades na São José “Paratodos”, como o nome da canção.

Cidadãos que escolheram a cidade como o seu lugar na vastidão do planeta e ajudaram a moldar a identidade do município, tornando São José um lugar único no mundo.

“A diversidade de experiências e valores que os imigrantes propiciaram para São José dos Campos tornaram o município inovador, pujante, o que é fundamental para o desenvolvimento social e econômico da cidade”, afirma o professor Moacir Santos, pesquisador da Universidade de Taubaté.

Histórias como a do italiano Riccardo Pace, 36, que saiu de Roma, em 2016, com destino ao Brasil. Morou por dois anos em Tiradentes, Minas Gerais, onde abriu uma pizzaria romana, sua especialidade.

“Até que recebi uma proposta de trabalho em São José dos Campos, o projeto era maior e as perspectivas mais interessantes, já tinha decidido ficar no Brasil e me mudei. Foi a melhor escolha que podia ter feito, aqui conheci a minha esposa e formamos a nossa família”, conta o italiano.

O primeiro ano de sua pizzaria na cidade foi desafiador e quando o negócio começou a dar certo, veio a pandemia.  “Com uma filha recém-nascida e sem trabalho, foi preciso arregaçar as mangas e começar tudo de novo”. Foi então que ele começou a trabalhar no próprio apartamento e foi um sucesso.

“Foi preciso abrir um ponto delivery, bem no meio da pandemia. Dois anos depois, estamos aqui em nosso restaurante”. Hoje, a Riccardo Tradizione Romana se destaca por trazer experiências gastronômicas típicas de Roma.

CROÁCIA

Outra história inspiradora é do croata Tomislav Badovinac, 49. Para fugir da zona de conflito da antiga Ioguslávia, ele saiu da cidade de Ilok, em 1993, rumo ao Brasil. A intenção do jovem era passar alguns meses em São Paulo e então mudar-se para a Austrália onde tinha família. O conhecimento da língua inglesa facilitou a vida do croata no Brasil, que logo conseguiu um emprego na capital paulista.

Depois de alguns anos, o trabalho em São Paulo já não rendia o mesmo de antes e ele pensou em voltar para a Croácia.

Porém, tudo mudou após uma viagem para o Rio de Janeiro, em 2017. Quando passou por São José dos Campos, Badovinac viu o prédio do hoje hotel Nacional Inn que chamou a sua atenção e, num momento de epifania, vislumbrou seu futuro.

“Chegando em casa, procurei anúncios na cidade e achei um ponto para alugar que, por coincidência, era próximo ao hotel. Fechamos negócio em poucas semanas e foi realmente a melhor decisão que tomei nos últimos anos”, conta.

Hoje, graças ao seu talento pessoal, dedicação e uma boa dose de marketing, o Croácia Sports Bar tornou-se referência na cidade, não só durante a Copa, mas pelo karaokê que faz muito sucesso.

IRLANDA

Nem sempre esse contato com a cidade acontece por uma busca por oportunidade de trabalho, às vezes, é o cupido que acerta um coração estrangeiro.

Como foi o caso de Kevin Murphy O'Shea, 31,de Limerick, no sul da Irlanda. Ele conheceu a sua esposa joseense na Irlanda e não pensou duas vezes em mudar-se para a cidade, em 2021. “São José tem uma boa qualidade de vida, estamos perto do Litoral Norte ou das montanhas”, cita ele sobre as virtudes da cidade.

Com uma personalidade expansiva, bem-humorado e alto astral -- além de apaixonado pelo calor e pelo mar -- O'Shea logo se identificou com os brasileiros e rapidamente fez muitas amizades em São José dos Campos.

Segundo o irlandês, a cidade é muito acolhedora e essa virtude, para ele, é uma influência dos mineiros que vieram para cá. “Minha sogra é mineira e nada mais acolhedor do que os mineiros. E fui muito bem recebido nos lugares em geral da cidade”, conta.

O'Shea trabalha remotamente e, junto com a sua esposa Lilian, transformou uma Kombi em uma espécie de motorhome onde sempre que possível viaja por vários lugares do Brasil, mas está sempre de volta para a cidade que o acolheu.

A diversidade construiu a identidade da cidade e está presente nas expressões de linguagem, na gastronomia, no empreendedorismo. “O cotidiano é repleto de interações que produzem um mosaico cultural e social que caracteriza a cidade em sua trajetória recente”, define o professor Santos, da Unitau.

EMPATIA

A empatia fez de São José uma cidade acolhedora. Afinal, só quem já viveu na pele os desafios de mudar de cidade sabe acolher quem chega com respeito e atenção.

“Parte expressiva da população é imigrante ou descendente. Assim, há uma disposição em acolher novos moradores, pois quem imigra para São José encontra uma população com experiência semelhante, o que facilita a adaptação”, observa Moacir Santos, professor e pesquisador da Unitau.

Esse processo remonta do início da industrialização de São José. Em 1925, os primeiros imigrantes chegavam do sul de Minas Gerais para trabalhar na Tecelagem Parayba e Rhodosá de Rayon, do Grupo Rhodia. E por ali se instalavam, tornando a região de Santana reduto dos mineiros em São José, conformem lembra Osmar Ferreira, autor do livro Santana, Meu Bairro Uai, e idealizador da Festa do Mineiro.

Seu pai, José Ferreira, que morava na área rural de Sapucaí Mirim, veio para São José com esse propósito. “Desde que nasci, nunca me mudei de Santana, onde moro até hoje, e o que me seduz a morar aqui foi e continua sendo essa feliz convivência com os mineiros”, afirma.

“Nesse processo foi formada uma sociedade dinâmica e plural, com contribuições de pessoas de todas as regiões do país”, conclui o professor.

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