SAÚDE

Vida acelerada provoca risco de ansiedade e depressão, alertam especialistas

Por Xandu Alves | São José dos Campos
| Tempo de leitura: 6 min
Ilustração
A sensação de ganho de tempo não compensa malefícios da ansiedade, diz especialista
A sensação de ganho de tempo não compensa malefícios da ansiedade, diz especialista

No filme Click (2006), produzido e estrelado pelo ator norte-americano Adam Sandler, um arquiteto (Michael Newman) estressado com tantas tarefas a desempenhar no trabalho e em casa ganha um controle remoto mágico que dá a ele o poder de controlar o tempo.

Newman usa o artefato milagroso para avançar rapidamente o tempo durante as discussões com a mulher, os sermões do chefe e as brigas com os filhos. No final das contas, o aparelho faz a vida do personagem de Sandler praticamente voar rumo ao fim -- o que culminará em desastre e arrependimento.

MAIS RÁPIDO.

A ficção criada há 17 anos antecipou metaforicamente os recursos tecnológicos cada vez mais usados nos dias de hoje, como ouvir mensagens de aplicativos em velocidade acelerada. Mas não só.

Músicas e filmes também entraram na dança e há cada vez mais adeptos de ouvi-las e assisti-los em velocidade acima do normal. O motivo? Consumir mais conteúdo do que o andamento normal permitiria.

Assessora de marketing e atuando em redes sociais, Marcela Cavalcante tornou-se adepta do comando de acelerar as mensagens que recebe pelo Whatsapp, um dos aplicativos de mensagens mais usados no mundo.

“Você faz uma vez e não consegue mais largar. Uso bastante esse recurso para não perder tanto tempo em uma mesma mensagem. Agiliza meus contatos e meu trabalho”, disse a jovem.

E ela não está só. Assim como Marcela, que atua em cidades do Vale Histórico, é cada vez mais comum encontrar alguém que perdeu a paciência para ouvir mensagens na velocidade normal. Ou mesmo para ter uma conversa fisicamente presente. O mundo virtual conquista pela facilidade, e rapidez.

Morador de São José dos Campos, Anderson Augusto (nome fictício) admite ser adepto de assistir a mais de um filme ou capítulo de série por dia em serviços de streaming. Ele assina os principais do mercado e contou que já chegou a acompanhar cinco filmes em uma única noite.

No padrão normal de velocidade, ele precisaria de cerca de 10 horas para ver as cinco películas, o que o faria adentrar a madrugada diariamente. A saída foi abusar da tecnologia e acelerar boa parte dos filmes que vê.

“Eu acelero vários trechos dos filmes que vejo, tentando não interferir muito na trama. Com isso, consigo ver mais de um filme por dia. Acabou virando uma rotina ver os filmes desse jeito”, disse ele.

SAÚDE MENTAL.

Especialistas apontam riscos de aumento da ansiedade e de problemas de saúde mental com o recurso de acelerar mensagens, filmes e músicas para consumir mais conteúdo. “A tecnologia é um meio indispensável nos dias de hoje, seja no trabalho, lazer ou em casa. Mas a utilização exagerada das telas e de recursos de aceleração de conteúdo podem causar danos na saúde mental”, disse a psicóloga Luciana Maciel.

O primeiro problema é que o usuário dos aplicativos começa a perder a paciência com as mensagens em ritmo normal e passa a acelerá-las, justificando a falta de tempo. Com isso, aumenta o processo de ansiedade para receber respostas cada vez mais rápidas, que também serão ouvidas em velocidade extra. Cada mensagem enviada que fica sem a resposta imediata faz crescer a sensação de desconforto e de perda de tempo, ampliando a ansiedade.

O segundo problema é que a pessoa começa a acumular conteúdos sem tempo de absorvê-los como deveria e nem de entendê-los em profundidade. É como comer vários pratos diferentes ao mesmo tempo: não há como saborear o gosto da comida.

ANSIEDADE TURBINADA.

Em artigo na internet, a psicóloga Maria Elisa Moreira, professora de gestão e liderança no Insper, defendeu que a sensação de ganho de tempo não compensa os malefícios de uma eventual “ansiedade turbinada”. “Muitas vezes, quando as pessoas ficam nesse estado, elas não dormem direito. Não fazem o sono reparador, que recupera as células cerebrais”, apontou a profissional.

Ou seja, a rapidez que supostamente se ganha com a aceleração de conteúdos cobra um preço caro na hora de ‘desacelerar’ o cérebro. Maria Elisa ainda apontou que essa rotina pode levar a problemas como perda de memória e fadiga excessiva ao longo do dia, que impactam na criatividade e no foco.

O cinéfilo Anderson Augusto admitiu que a prática de acelerar filmes acabou ‘tirando o sabor’ das obras. Ele disse que está em remissão e quer parar de usar a prática. “Passei a ver filmes apenas pela quantidade, não pela qualidade”.

IMPACTOS.

Segundo dados da OMS (Organização Mundial da Saúde), o Brasil é o líder no ranking de países com mais pessoas diagnosticadas com transtornos de ansiedade no mundo desde 2017. Uma das causas é a necessidade de resolver tudo de maneira acelerada, prática que também causa perda de foco, estresse e cansaço mental. “A imersão cada vez mais acelerada em conteúdos faz perder o foco, o que afeta a compreensão”, disse a psicóloga Luciana Maciel.

DEPENDÊNCIA TECNO.

Para a psicóloga Fabiana Luckmeyer, de São José dos Campos, a utilização do recurso para “acelerar” a vida é uma característica de uma sociedade mais ansiosa. Nesse contexto, a tecnologia que “tanto serve para nos ajudar”, disse ela, acaba contribuindo para “a epidemia de ansiedade e depressão”.

Segundo ela, as pessoas buscam equivocadamente o excesso, como se “a quantidade de inputs, informações, eventos ou de qualquer conteúdo fosse definir o seu valor”.“Este raciocínio de  fazer mais rápido para fazer mais é, na verdade, a grande armadilha para nossa saúde física e mental”, afirmou Fabiana.
 

A psicóloga explicou que a busca pelo excesso é uma forma de ficar dependente da dopamina, substância conhecida como um dos hormônios da felicidade. “Há um viés neuroquímico envolvido. Precisamos de cada vez mais estímulos envolvidos para ter prazer, e a tecnologia ajuda nesta tendência de ficar adicto (viciado) neste tipo de input”, disse a especialista.
 

MEXER O CORPO.

Em contraponto, a psicóloga indica que os praticantes da vida digital acelerada devem começar a fazer mais atividades físicas. “Uma das melhores formas para você ver o tempo passar na medida certa é se exercitar. O tempo do passo da dança ou do exercício é aquele. Se você acelerar ficará descompassado e ruim. Pegue uma baita música boa e a acelere, com certeza ficará distorcida e ruim de ouvir e sem valor.”
 

Não à toa, segundo Fabiana, há uma busca cada vez maior por fazer atividades as quais se requer mais foco e concentração, como esportes, dança e mindfulness (foco no presente), “para encontrar certo equilíbrio e ficar pleno em um tipo de atividade”. “Quem perceber que menos é mais será mais feliz. Resumindo: as pessoas têm que conversar com calma, ter tempo para fazer as coisas, tempo para relaxar e dormir”.
 

Segundo Fabiana, há quem durma cada vez menos para ter mais tempo de fazer mais coisas. “Acelerar virou um grande hábito nocivo”, disse.

Curtir o momento presente é a sugestão da psicóloga Fabiana Luckmeyer para quem pretende sair da velocidade extra. E comece pela rotina básica. “Se está tomando banho, preste atenção na espuma, na textura da pela, no cabelo, contemple seu banho e não fique pensando em tudo que terá que fazer após o banho. Por isso, gosto da palavra suficiente. Não precisa ser totalmente”, disse a psicóloga..

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