Considerada a maior organização criminosa da América do Sul, o PCC (Primeiro Comando da Capital) monitora autoridades e acompanha a vida política do país como forma de defender as pautas da facção.
As diretrizes estão na ‘Cartilha de Conscientização’, documento criado pelo grupo em 2007, um ano após a série de ataques a autoridades. São normas e condutas para orientar os integrantes e seus familiares.
A existência da cartilha foi revelada pela primeira vez pelo repórter Guilhermo Codazzi, editor-chefe de OVALE. As reportagens feitas em 2007 sobre o documento foram citadas em alguns livros sobre o PCC.
Entre outras coisas, a cartilha pregava a expansão do PCC para todo o Brasil, a luta para que os presos tivessem direito a voto e a importância do monitoramento das autoridades.
“Acompanhem as trocas dos cargos políticos: quem são essas autoridades, governos, secretários de segurança, administração penitenciário. Fiquem sempre atentos à política deles, pois são essas as pessoas diretamente responsáveis pelo sistema penitenciário”, diz trecho da cartilha.
“Exponham nossas dificuldades e com isso conquistaremos nossos direitos como presos usando as mesmas armas que eles usam contra nós.”
“Aposte e acredite no aperfeiçoamento e na conscientização para diminuir as perdas nas lutas, para vencer procurem estudar, procurem conhecimento e principalmente procurem aprender essa nova mudança, essa nova era”, afirma outro trecho do documento.
SINTONIA
O monitoramento se dá por meio de um 'esquadrão de elite' do PCC, batizado de 'Sintonia Restrita' e cuja função é levantar informações sobre agentes públicos -- principalmente policiais. É o que apontam investigações do Ministério Público de São Paulo.
Criado em Taubaté em 1993, o PCC é dividido em células, as ‘sintonias’. A de número 012 é responsável pela atuação na RMVale, por exemplo.
A descoberta da 'Sintonia Restrita' ocorreu após uma apreensão na região de Ribeirão Preto. “Documentos apreendidos em poder de outros integrantes da Sintonia Restrita (...), dão conta de que uma das funções realmente é a de proceder ao levantamento de informações sobre agentes públicos para posteriormente matá-los", informa o MP.
Como os grupos criminosos mais sofisticados do mundo, o PCC aposta no controle da informação. A ‘Sintonia Restrita’ trata de assuntos “extremamente sigilosos e relevantes para a cúpula” e está situada dentro da estrutura da 'Sintonia dos 14' – membros de extrema confiança por parte do comando, com elevado poder decisório. O trabalho da Sintonia é passar informações para os encarregados de praticar o crime.
PRISÃO
A PF (Polícia Federal) prendeu nove suspeitos de participar do PCC com a intenção de realizar ataques contra servidores públicos e autoridades, incluindo homicídios e extorsão mediante sequestro. Um dos alvos seria o senador Sergio Moro (União Brasil-PR), ex-juiz da Lava Jato e ex-ministro da Justiça. Segundo a investigação, o PCC teria montado estrutura de vigilância a Moro em Curitiba, com ao menos 10 criminosos se revezavam no monitoramento da família do senador.
De acordo com a PF, os nove suspeitos presos – seis homens e três mulheres – se encontravam em São Paulo. Há ainda outros procurados no Paraná, com mandado de prisão expedido pela Justiça.